Vale a pena cursar o ensino técnico?
Segundo
os últimos dados disponíveis, há mais de 8 milhões de alunos cursando o
ensino médio regular no Brasil. Dentre esses alunos, 175 mil (2% do total)
estão em escolas em que o ensino profissional (técnico) é integrado ao ensino
médio tradicional. Para além deles, há 860 mil alunos que estão tendo algum
tipo de educação profissional, que pode ser concomitante ao ensino médio
tradicional (35% deles) ou subsequente a ele. Assim, há hoje em dia cerca de
1 milhão de alunos matriculados em cursos de educação profissional no Brasil.
As escolas privadas são responsáveis por metade dessas matrículas, as
estaduais por 35% e as federais por 15%. A grande maioria das escolas
privadas oferece cursos profissionais subsequentes ao ensino médio
tradicional, para complementar a formação do aluno.
Recentemente
o governo federal lançou o Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e
Emprego (Pronatec) com o objetivo de expandir o
número de escolas técnicas federais em todo o país. Além disso, o governo
está repassando recursos para que os estados expandam suas redes de educação
profissional. Nesse contexto, o governo de São Paulo acaba de anunciar o
Programa Rede Ensino Médio Técnico, que estabelecerá convênios com escolas
particulares e unidades do Centro Paula Souza e do Instituto Federal de São
Paulo para que alunos da rede pública estadual possam complementar sua
educação formal com um ensino técnico ou profissional. Será que essas
iniciativas estão indo na direção correta? Será que o jovem que conclui um
curso técnico de nível médio tem uma remuneração maior no mercado de trabalho
do que aquele que cursou somente o ensino médio tradicional?
Os
números indicam que sim. Um estudo concluído recentemente pela Fundação Itaú
Social fez uma avaliação econômica muito interessante do ensino médio técnico
ou profissional. Utilizando dados da Pesquisa Nacional de Amostra por
Domicílios (PNAD) do IBGE, o estudo mostra que os jovens que frequentaram
cursos de ensino médio técnico ganham cerca de 12% a
mais do que os que cursaram apenas o tradicional, mesmo após levarmos em
conta outras características que diferenciam esses jovens. Quando
consideramos apenas os alunos que ingressaram no mercado de trabalho
diretamente após o ensino profissional (60% da amostra), o diferencial médio
de salários chegou a 20%. Porém, quando consideramos aqueles que concluíram o
ensino superior após o médio, o impacto do ensino técnico é negativo em 6%.
Isto significa que o ensino profissional é muito mais eficaz em aumentar os
salários dos jovens que estão interessados em atingir ocupações de nível
médio no mercado de trabalho. Alunos que almejam fazer uma faculdade antes de
começar a trabalhar não são (em média) beneficiados pelo ensino técnico.
Dentre
os alunos matriculados em cursos de educação profissional nos dias de hoje,
1/3 está na área de meio ambiente e saúde, 23% na indústria, 18% na área de
gestão e negócios, 12% em comunicação e informação e o restante está divido
em cursos de produção artística e cultural, produção alimentícia e recursos
naturais. Com os dados das pesquisas domiciliares é possível estimar o
impacto dos diferentes tipos de ensino profissional sobre os salários dos
jovens. Isso é importante para que possamos avaliar as áreas de maior
impacto. Os resultados mostram que o maior impacto ocorre nos cursos
profissionais da indústria (que no estudo incluiu as áreas de informação e
comunicação), cujo retorno estimado com relação ao ensino médio tradicional
foi de 19%. Em comparação, o impacto dos cursos nas áreas
de gestão, meio ambiente e saúde foi de apenas 9%, ao passo que
aqueles ligados à agropecuária renderam um salário 13% maior. Assim, parece
que os cursos técnicos mais voltados para atividades produtivas específicas,
seja na indústria ou agropecuária, têm um retorno maior do que os cursos mais
gerais.
Mas,
apesar dos ganhos para os jovens serem substanciais, será que o retorno
desses cursos vale à pena do ponto de vista da sociedade como um todo? Afinal
as escolas de ensino técnico podem custar caro. O estudo mostra que, desde
que o custo das escolas técnicas seja inferior a R$ 13.600 por aluno ao ano,
em comparação com os R$ 2.200 que são gastos no ensino médio tradicional, o
investimento vale a pena. As evidências existentes indicam que os custos são
bem menores do que esse valor.
Em
suma, os dados mostram que os cursos técnicos ou profissionalizantes aumentam
o salário dos jovens em comparação com aqueles que cursam somente o ensino
médio tradicional. O impacto é maior nos cursos ligados às áreas da indústria
e agropecuária e é positivo somente para os jovens que ingressam diretamente
no mercado de trabalho após o curso. Esses fatores deveriam ser levados em
conta pelos formuladores da nossa política educacional nesse momento em que
governos estadual e federal estão expandindo substancialmente suas redes de
escolas profissionais.
Naercio
Menezes Filho, professor titular - Cátedra IFB e coordenador do Centro de
Políticas Públicas do Insper, é professor associado
da FEA-USP e escreve mensalmente às sextas-feiras naercioamf@insper.edu.br)
Valor Econômico - 15/07/2011