Todos
os dias o noticiário vai sendo martelado por informações de que o setor
produtivo brasileiro (e não só a indústria) vai ficando inviabilizado por
seus custos excessivos.
Ontem, por
exemplo, o brasileiro ficou sabendo que o governo Dilma decidiu romper o
acordo automotivo com o México, porque as importações de veículos made in Mexico estão tomando o
mercado do produto brasileiro.
As queixas
são recorrentes. Vêm do setor produtor de máquinas, passam pela área têxtil,
surgem na indústria eletrônica e se estendem até aos produtores de
brinquedos. Na semana passada, o presidente da Embraer, Frederico Curado
(foto), advertia em Davos, durante o Fórum Econômico Mundial, que o gasto com
mão de obra no Brasil estava ficando proibitivo para sua empresa.
Segunda-feira, o Estado publicou que a execução do programa Minha Casa, Minha
Vida vem se tornando difícil dado o aumento dos custos de terrenos, materiais
e da mão de obra - até há alguns anos, considerada
das mais baratas do mundo.
Não é de
hoje que o setor produtivo tem esses problemas, mas, em vez de buscar
soluções, prefere eleger culpados. Entre eles, o mais citado é o câmbio,
"sempre defasado em, pelo menos, 30%" - como já nos anos 70
reclamava o então presidente da Duratex, Laerte Setúbal, fosse qual fosse a cotação do dólar. Lá pelas tantas, o governo tratava de
"dar câmbio" para devolver algum mercado para a indústria, no
entanto, até agora, não houve câmbio que chegasse. (Para o caso dos veículos
do México, veja ainda o Confira.)
Além do
câmbio, são apontados outros culpados: chineses, coreanos, crise global (que empurra encalhes de mercadoria para o Brasil) e,
agora, mexicanos, que conseguem a proeza de enfiar cada vez mais veículos e
autopeças nas tabas tupiniquins.
Não é
preciso ter QI de Ph.D. para desconfiar que o buraco
é mais embaixo. E não custa bater no mesmo bumbo em que esta Coluna vem
batendo. O grande problema do setor produtivo brasileiro chama-se custo
Brasil. Com algumas diferenças, é a mesma lista de barreiras à produção há
mais de 50 anos: carga tributária insuportável; quarta mais cara energia
elétrica do mundo; juros escorchantes; encargos sociais cada vez mais altos
(de que se queixa o presidente da Embraer); e infraestrutura cara e precária.
Nos
últimos anos, foram os serviços que passaram a custar o olho da cara. Faz
sentido pagar de R$ 20 a R$ 30 por uma hora de estacionamento em São Paulo?
Por que tarifas de banda larga e telefone no Brasil estão entre as mais caras
do planeta? Por que se cobra R$ 1,6 mil para
impermeabilizar dois metros lineares de caixilhos? Por que qualquer
assistência técnica tem preços elevados? E o que tem a ver o câmbio com essas
maluquices?
Com esses
diagnósticos capengas, em vez de tratar de derrubar o custo Brasil, o governo
Dilma vai enveredando para o protecionismo tosco, à la Argentina, e para opções de reserva de mercado,
porque já não pode mais "dar câmbio" para compensar esses
desequilíbrios. É o que faz agora, especialmente na indústria têxtil e na de
veículos.
Durante
certo tempo, esses artifícios reduzem o afluxo de importados. Mas não
restabelecem a competitividade do setor produtivo nacional no mercado
externo.
Celso
Ming
O Estado de S. Paulo - 03/02/2012