Cinco formas de se proteger na bolsa
Especialistas ensinam como enfrentar a turbulência no
mercado se você já tem ações ou está tentado a aproveitar a
baixa
A Grécia
está no olho do furacão da crise que abalou os mercados nos últimos dias, mas o
que vai determinar a continuidade e a extensão do atual movimento de correção
são os demais países da Europa. Com o pacote de ajuda à Grécia aprovado e as
necessidades de financiamento deste ano já cobertas, os investidores estão com
as atenções voltadas para o que vai acontecer em outras economias da região. A
situação é bastante ruim em Portugal e na Espanha, que tiveram suas
classificações de dívida recentemente rebaixadas e podem ser os próximos a
pedir ajuda. Itália e Irlanda aparecem no noticiário como outras possíveis
vítimas, mas ainda possuem uma situação fiscal melhor que a dos países
ibéricos. Por último, ainda há preocupações com o Reino Unido, mas as apostas
de que o país possa ter problemas no futuro ainda estão longe de ser
generalizadas. Como ninguém sabe exatamente até onde a crise pode se espalhar,
especialistas ouvidos pelo Portal EXAME recomendam que
as pessoas físicas aguardem que o cenário fique um pouco mais claro para entrar
na bolsa. Para quem já possui uma carteira de ações, é possível se proteger de
cinco formas:
1 -
Vender ações das empresas mais afetadas pela Europa e comprar papéis que
distribuem bons dividendos. Entre os setores mais defensivos, estão as empresas
de telefonia fixa, energia e bens de consumo não-duráveis. Essa rotação de
carteira já pôde ser observada no mercado nos últimos sete dias. Enquanto o
Ibovespa caiu 7,81% no período, sete papéis avançaram: Pão de Açúcar, Souza Cruz, CPFL, AmBev, Natura, Telesp e Copel. Não por acaso,
durante a crise de 2008 essas sete empresas mostraram resiliência
à crise, geração de caixa constante e distribuição farta de dividendos.
"Antes de comprar uma ação defensiva, é importante pesquisar que empresas
devem pagar dividendos nas próximas semanas", alerta Kelly Trentin, analista-chefe da corretora Spinelli. Também é
importante lembrar que, quando começar a recuperação, os papéis que caírem mais
tendem a apresentar um melhor desempenho. Foi assim no
ano de 2009, quando as construtoras, os bancos médios e as empresas de Eike Batista se destacaram no pregão.
2 -
Fazer hedge com opções ou contratos futuros. Com essa estratégia, o investidor
pode continuar comprado nas mesmas ações que está atualmente, só que,
paralelamente, vai construir uma posição em derivativos que possa proteger a
carteira. A recomendação de especialistas é que quem não sabe fazer isso não
tente aprender de uma hora para outra. O mais indicado é procurar a corretora
ou algum assessor financeiro mais próximo que tenha condições de analisar a
carteira de ações e indicar o instrumento certo apenas para protegê-la - e não
para apostar na baixa do mercado. "Não recomendo que um pequeno investidor
com pouco conhecimento tente especular com opções", afirma o consultor
financeiro Mauro Calil. "Até grandes empresas
quase quebraram no passado ao tentarem fazer isso."
3-
Investir em fundos quantitativos que seguem tendências. Para esses fundos, não
importa para que lado a bolsa vá. O gestor usará contratos futuros para operar
vendido em bolsa caso haja uma tendência de desvalorização ou para ficar
comprado caso o viés seja de alta. Os ganhos são maiores sempre que a tendência
do mercado é clara. Em anos como 2001 e 2008, esses fundos
apresentaram ótimos resultados mesmo com a forte queda da bolsa. "Como não
há uma correlação entre os resultados da bolsa e dos ativos que compramos,
nosso fundo acaba servindo de hedge", explica Jorge Rodrigues, da MAN Investments, uma das maiores e mais antigas gestoras de
fundos quantitativos do mundo. "Recomendo que 10% a 20% do dinheiro do
cliente destinado à renda variável seja investido em um fundo
desse tipo." Os retornos, no entanto, não costumam ser tão bons
quando há muito sobe-e-desce no mercado. E podem até ficar negativos se você
entrar em um momento de reversão de tendência.
4 -
Alugar ações. O investidor também pode proteger sua carteira de ações ficando
vendido em alguns dos papéis mais ligados à crise na Europa. Nesse caso, o
investidor vai apostar que a tensão nos mercado não vai se dissipar em breve. Em 2008, empresas
de commodities, com dívidas bastante elevadas e alta necessidade de
financiamento no curto prazo foram as que mais sofreram. Os interessados
precisarão ligar na corretora e perguntar quais são as opções de papéis para
aluguel e qual é a taxa cobrada pelo dono do papel. Após decidir quais ações
lhe parecem mais interessantes, o investidor alugará esses papéis e os venderá
no mercado para depois recomprá-los no futuro a um preço mais baixo - isso se
tudo der certo. O lucro será equivalente à queda dos papéis menos a taxa que
deverá ser paga ao dono do papel alugado.
5 -
Reduzir a exposição a bolsa e investir em ativos
seguros, como fundos de renda fixa ou DI. Essa é a estratégia mais radical, já
que, se a bolsa se recuperar em breve, o investidor perderá dinheiro. No
entanto, para especialistas, essa opção é recomendada para o investidor que
exagerou nas aplicações em bolsa e vai precisar do dinheiro em breve. Como a situação
ainda pode piorar, é prudente garantir os recursos necessários para arcar com
os compromissos das próximas semanas. Já os investidores que podem se dar ao luxo de pensar no longo prazo porque usaram a bolsa
apenas como diversificação podem ficar mais tranquilos.
A maioria dos especialistas ainda considera o Brasil uma economia bem-protegida
contra as turbulências externas - o que garante boas chances de recuperação ao
mercado acionário no médio e longo prazo.
João Sandrini,
de EXAME.com
07/05/2010