Em breve,
não seremos mais um país jovem. O rápido envelhecimento da população coloca o
Brasil diante de uma questão urgente: como ensinar uma sociedade inteira a
economizar
Já fomos
um país de crianças e adolescentes. Hoje, somos um país de jovens adultos,
com idade média de 32 anos, superior à de outras grandes nações em
desenvolvimento, como México e Índia. Em cada dez brasileiros, seis têm entre
20 e 65 anos, a faixa de vida mais produtiva. Isso quer dizer que o país já
começou a desfrutar seu "bônus demográfico", um período ótimo no
ciclo de vida das nações, em que o número de trabalhadores que produzem
supera o de crianças, adolescentes e idosos. Mas David Bloom, o economista e
demógrafo da Universidade Harvard que definiu esse conceito, calculou que o
bônus costuma durar de 30 a 40 anos, um momento breve em termos históricos.
Depois desse ápice, a parcela de idosos no país começa a aumentar, o número
de trabalhadores cai e os custos com saúde e aposentadoria sobem. O ideal,
para qualquer país, seria formar um bom estoque de poupança, pública e
privada, antes do fim do bônus demográfico. Mas o governo brasileiro não
poupa nada, os cidadãos poupam pouco e não há no horizonte sinal de que isso
vá mudar. O problema também aflige outros países e, por causa disso, ao redor
do mundo, experimentam-se soluções envolvendo educação, participação das
empresas e até tecnologia de computação gráfica. Será que elas conseguirão
mudar o comportamento de sociedades inteiras?
Esse
debate é de especial interesse para os brasileiros, pois nosso bônus começará
a se esgotar pouco depois de 2040. Parece longe, mas não é. É quando os
adolescentes de hoje estarão no auge da vida produtiva, com idade entre 40 e
50 anos. Apesar da urgência do assunto, o país está despreparado. Um novo
capítulo da série de pesquisas O futuro da aposentadoria, feito pelo banco
HSBC em 17 países, constatou que mesmo entre os brasileiros mais ricos
(classes A e B) 60% não poupam o suficiente para a aposentadoria. Os que são
pais se mostram mais otimistas com o futuro de sua situação financeira – algo
que sugere uma expectativa irreal de depender dos filhos na velhice. Outra
pesquisa, da empresa de benefícios e seguros MetLife,
mostrou que os brasileiros dão menos valor do que deveriam a planos de
aposentadoria oferecidos pelas empresas em que trabalham. Acham mais
importante vale-alimentação e seguro odontológico, benefícios instantâneos e
de utilidade mais restrita. "É uma questão cultural", diz a
economista Myriam Lund, da Fundação Getulio Vargas. "Os anos de inflação, os planos
econômicos que levavam nosso dinheiro das aplicações bancárias e a quebra de
previdências privadas traumatizaram as pessoas."
O problema
pode ser ainda mais antigo. O economista e filósofo Eduardo Giannetti
acredita que a cultura brasileira é imediatista desde sua origem, no que
chama de "aventura colonial". "Enquanto os imigrantes
puritanos que foram para a América do Norte queriam criar o paraíso –
constituir uma sociedade que não tivesse os vícios daquela que eles estavam
abandonando –, os imigrantes portugueses que vieram para cá, na base da
aventura, queriam encontrar e desfrutar o paraíso, não criá-lo", diz. Em
seu livro O valor do amanhã, Giannetti afirma que "o animal humano"
tem, necessariamente, de escolher entre fazer agora, desfrutar, ou cuidar do
amanhã. "São perguntas das quais não se escapa", ele escreve.
"Das decisões cotidianas ligadas a dieta,
saúde e finanças às escolhas profissionais, afetivas e religiosas, as trocas
no tempo pontuam a nossa trajetória no mundo."
O fator
cultural ajuda a explicar por que alguns povos poupam mais ou menos que
outros. Americanos são tradicionalmente mais gastadores que europeus e
asiáticos. Mas o clima econômico de um momento é uma força poderosa a agir
sobre os hábitos de uma sociedade. Os americanos que cresceram durante a
década de 1930, na Grande Depressão, eram muito mais propensos a poupar que
os nascidos nas últimas décadas, diz o pesquisador Shermann
Hanna, da Universidade Estadual de Ohio. A Coreia do Sul fez esse mesmo
caminho mais recentemente: passou do nível de poupança de 30% do PIB, nos
anos 1990, para cerca de 4% hoje. A Austrália oferece um exemplo contrário.
Talvez por receio com o futuro da economia, as famílias australianas passaram
de um nível de poupança de 2% do PIB até 2006 para mais de 10%, atualmente.
Esse exemplo sugere algo importantíssimo: é possível mudar o comportamento de
um país inteiro com respeito à poupança. No Brasil, a poupança das famílias
equivale a 4,5% do PIB. Ficamos atrás dos europeus e muito atrás dos grandes
emergentes asiáticos, Índia, China e Indonésia, onde a poupança das famílias
passa de 20% do PIB. E temos pressa. O Brasil vem envelhecendo mais
rapidamente do que se projetava até o fim do século XX. Na França, foram
necessários 100 anos para que a proporção de idosos aumentasse de 7% para 14%
da população. A mesma variação ocorrerá por aqui em apenas duas décadas, de
acordo com o Banco Mundial.
Diante
desse problema global, têm surgido diferentes propostas e soluções. Uma
equipe de pesquisadores americanos testou os efeitos de mostrar a jovens na casa dos 20 anos como eles se parecerão quando
forem idosos. Eles exibiram a um primeiro grupo imagens de pessoas mais
velhas. Um segundo grupo interagiu, num ambiente virtual, com versões deles
mesmos, envelhecidas por computação gráfica – seus avatares
idosos. Após três baterias de questionários, os pesquisadores ficaram
animados com a maior disposição do segundo grupo de poupar para a
aposentadoria. O estudo foi publicado em novembro. "Queríamos ver se a
experiência de envelhecimento fotográfico poderia fazer alguém se sentir mais
conectado consigo mesmo no futuro. Deu certo", afirma Hal Hershfield, professor de marketing na escola de negócios
Stern, em Nova York, e principal autor da pesquisa. Um dos mecanismos que
atrapalham a poupança é que jovens têm dificuldade em trocar o prazer
imediato em nome do conforto de um "estranho" – ele mesmo, dentro
de 40 ou 50 anos. Ao aproximar o jovem do ancião que virá a ser, o avatar rompe esse distanciamento. "Os benefícios que
os avatares podem trazer,
como ajudar a poupar e emagrecer, logo estarão disponíveis em outras
áreas", afirma Jeremy Bailenson, coautor do
estudo e autor do livro Infinite reality (Realidade
infinita). Os pesquisadores negociam com a empresa de investimentos e seguros
Allianz para que clientes e funcionários possam usar esse recurso.
Métodos
inovadores para estimular a poupança estão em estudo no mundo todo porque a
abordagem tradicional – dizer às pessoas que elas precisam guardar para o
futuro – simplesmente não está funcionando. Talvez porque a sociedade ofereça
estímulos desproporcionais para o consumo imediato e o endividamento. Talvez
porque a natureza humana seja resistente a encarar o futuro. "Em vez de
fazer a melhor opção, simplesmente escolhemos a mais fácil", afirma Vera
Rita Ferreira, doutora em psicologia econômica pela PUC-SP. Dois americanos
ganharam destaque nos últimos anos por propor que as sociedades atropelem a
preguiça mental dos indivíduos em benefício da sociedade. O economista
Richard Thaler e o jurista Cass
Sunstein defendem um novo modelo para as escolhas
oferecidas ao cidadão. Eles criticam os "cardápios de investimento"
em que todas as alternativas têm igual destaque. Sugerem que se apresente às
pessoas a opção mais sensata, sem muita possibilidade de erro. Seguindo essa
ideia, um número crescente de companhias americanas define como padrão na
contratação que o funcionário seja incluído de forma automática no plano de
aposentadoria, alimentado por descontos mensais no salário e depósitos
mensais por parte do empregador. Se ele não quiser ficar no plano, terá de
fazer um esforço burocrático para cair fora. A maioria fica e poupa para o
futuro sem precisar pensar muito. Thaler e Sunstein esmiúçam essa ideia no livro Nudge
– O empurrão para a escolha certa.
Entre os
estudiosos do assunto, cresce a ideia de preparar também as crianças para a
necessidade de poupar. "A educação na infância é muito importante. Ter
bancos fictícios nas escolas japonesas incentivou as crianças a poupar
mais", afirma a americana Annamaria
Lusardi, professora de economia na escola de
negócios George Washington e referência mundial em finanças pessoais. Ela
acredita que há vários motivos para as pessoas não pouparem, mas insiste no
mais óbvio: informação. Mesmo os cidadãos de classe média dos países ricos
carecem de educação financeira. As pessoas não conseguem calcular quanto
precisarão para a aposentadoria. É preciso instruí-las. O aprendizado nesse
assunto pode provocar mudanças de comportamento notáveis, como a do
empresário carioca Erick Vils, de 34 anos. Ele diz
ter mudado sua forma de pensar sobre o futuro ao ler um livro de finanças.
"Eu achava que precisava acumular bens. Comprei casa e carro aos 20 e
poucos anos", afirma. Lendo, Vils aprendeu que
poderia ganhar mais se investisse melhor. A partir dessa premissa, fez as
contas para poder trabalhar menos no futuro e aposentar-se com tranquilidade.
"Não tenho filhos ainda, então aproveito para poupar o dinheiro que
gastaria com eles." Trata-se de uma questão individual, mas não apenas. Vils e os brasileiros que poupam viverão bem melhor daqui
a algumas décadas se, além de ter dinheiro no bolso, não se virem diante de
um Estado quebrado – e cercados por amigos idosos e infelizes.
O Brasil a
caminho da maturidade
Daqui a uma geração, não terá mais sentido falar em "pirâmide
etária" no Brasil. Nos próximos anos, tende a cair a
demanda por novas escolas e a crescer o gasto com saúde e aposentadorias
Autor(es): DANIELLA
CORNACHIONE E LEOPOLDO MATEUS
Época - 10/01/2012