O agente autônomo e a democratização do mercado de capitais
Enquanto
a maioria das pessoas ainda sonha em se tornar médico, engenheiro ou
advogado, poucos percebem o nascimento de uma profissão tão promissora quanto
as mais tradicionais, a de agente autônomo de investimentos: um profissional
focado na distribuição de produtos financeiros, que atua como preposto de
corretoras.
A
continuidade do Plano Real, a melhora na renda do brasileiro e a redução das
taxas de juros geraram um duplo efeito na sociedade brasileira: fizeram
despertar naqueles que não investiam o interesse em fazê-lo e levaram os
poupadores tradicionais a buscar novas formas de investimento.
É por
isso que essa profissão estará entre as que mais crescerão nos próximos anos.
Atualmente existem 7 mil profissionais habilitados a atuar no setor, número
infinitamente inferior a de países desenvolvidos e mesmo em desenvolvimento,
como Índia e China. Se imaginarmos que o número de investidores na bolsa
brasileira aumentará 10 vezes em 5 anos (estimativa da bolsa) e que o agente
autônomo pode distribuir qualquer produto financeiro (ações, fundos de
investimentos, títulos de renda fixa etc),
possivelmente teremos cerca de 100 mil profissionais
atuando em 2015.
O agente
autônomo está para a corretora de valores assim como os corretores de seguros
estão para as seguradoras e os correspondentes bancários para os bancos etc.
Essa comparação é pertinente para que se entenda que a figura do agente
independente, que atua por conta própria, não é restrita ao mundo dos
investimentos, existindo nos mais variados segmentos
econômicos. Também é oportuno esclarecer que o agente autônomo de
investimento não é uma invenção brasileira, existindo, senão em todos, em boa
parte dos países, e tendo funcionado como motor do crescimento do mercado
financeiro mundo afora.
Pelas
dimensões do Brasil, o agente deve ser visto como a maneira mais eficiente de
popularizar os investimentos, tendo capacidade de atingir praças que
dificilmente seriam abraçadas pelo mercado de capitais. Diferentemente dos
gerentes de bancos, que estão focados em produtos bancários, o agente
autônomo atua com produtos de investimentos. A população, amadurecida pelo
crescimento econômico, quer mais do que um cartão de crédito ou limite no
cheque especial; ela quer saber como e onde investir.
O único
problema é que poucas instituições estão preparadas para atuar com agentes
autônomos e isso pode ser um empecilho para a ascensão dessa nova classe.
O número
de processos administrativos na CVM e na Bolsa, em virtude de problemas
relacionados à atuação do agente autônomo, aumentou nos últimos anos e fez
acender o sinal amarelo nos órgãos reguladores, que vem buscando melhores
formas de regular a atividade. As medidas propostas são válidas e sem dúvida
devem ser implementadas. Contudo, o problema maior não está na atividade do
agente autônomo, mas sim no exercício dessa atividade sem os devidos
controles.
Eu talvez
esteja em posição privilegiada para analisar a nova regulamentação proposta
pela CVM. Comecei em 2001 como agente autônomo e,
depois de anos, constituí, junto com outros agentes autônomos, uma corretora
de valores.
A
exclusividade tão questionada nas últimas semanas me parece vital para a
profissionalização da atividade. E a explicação é simples: o agente autônomo,
tal qual estabelecido nas normas que regulam a atividade, é considerado uma
extensão da corretora, o que significa que a corretora é responsável por seus
atos. Assim, nada mais natural e lógico que a CVM exija que esse profissional
atue apenas por meio de uma instituição. Não parece fazer sentido alguém
assumir a responsabilidade por algo que não possa adequadamente
supervisionar.
Pela nova
norma proposta, as corretoras que optarem por trabalhar nesse segmento terão que adotar uma série de controles, dentre os quais:
equipes de treinamento de autônomos, de controle de risco, de auditoria de
ordens e controle de qualidade, de análise, de suporte etc.
Podem
parecer muitos os controles, mas - e isso posso dizer
com conhecimento de causa - são eles fundamentais para o adequado exercício
da atividade do agente autônomo.
O futuro
está nítido: o agente autônomo será uma das profissões do futuro e o grande
responsável pelo desenvolvimento do mercado de investimentos brasileiro.
Autor(es): Guilherme Benchimol
Valor Econômico - 08/06/2010