Não é só a educação formal das escolas que naufragou, no Brasil e no mundo, leitor.
Mas, principalmente, a educação ministrada no lar, pela família. Por isso, o
conselho que mais tenho dado a meus amigos é bem simples: deem mais atenção a
seus filhos.
Desculpe-me,
leitor, se você pertence à minoria que realmente participa da vida de seus
filhos, que dá todo apoio que eles precisam na infância e na adolescência.
Parabéns, se já faz tudo isso. Mesmo assim, convido-o a juntar-se aos que
sonham em mudar o mundo pela educação.
Seu
filho talvez passe muitas horas, sozinho no quarto, todos os dias, diante do
computador, jogando todos os tipos de videogames, surfando na web e visitando
sites cujo conteúdo você simplesmente ignora. É possível até que, em sua
ingenuidade, ele tenha feito novas amizades – com outros garotos inteligentes
ou com adultos pedófilos.
Um
amigo, pai desligado da vida de seu filho, me disse outro dia, com orgulho, que
dá ao garoto “plena liberdade para escolher tudo que um dia deverá ser ou fazer
na vida”. Será isso liberdade ou abandono?
Sei
que esse amigo é um exemplo de trabalho, de honestidade e de dedicação à
família. Disse-lhe que tudo isso é importante, mas insuficiente. Ao final,
aconselhei-o a dar mais atenção ao filho. Ele reagiu mal.
Geração Digital
A
questão básica é esta: a Geração Digital, também chamada Geração Y, é muito
diferente da nossa. A vida urbana e o confinamento em apartamentos moldaram nos últimos anos meninos muito diferentes daqueles que
fomos, na metade do século passado. A questão, entretanto, não é ter pena
deles. Mas ajudá-los a resgatar as coisas belas da vida.
Comparo
a vida deles com a minha, nos anos 1940 ou 1950. A maioria dos adolescentes de
hoje nunca viu uma vaca de perto nem tomou leite no curral às cinco horas da
manhã. Nunca jogou bola na rua. Nunca subiu numa jabuticabeira carregada de
frutos maduros. Nunca pescou lambaris. Nunca nadou em rios de águas limpas.
Nunca montou em bezerro ou em burro xucro. Talvez ignore até os nomes de
pássaros brasileiros, como sabiá, rolinha, fogo-apagou,
anu, sanhaço, tiziu, maritacas, inhambu ou codorna.
Os
meninos da Geração Y não têm método para nada. Fazem tudo, atabalhoadamente.
Usam todos os dispositivos eletrônicos ao mesmo tempo: a TV, o computador, o tablet, o smartphone, o videogame, o celular. Leem uma
montanha de fragmentos, sem reflexão. Maltratam e torturam a língua portuguesa.
Escrevem de forma estropiada. É claro que, eventualmente, eles são capazes de
se concentrar numa tarefa mais apaixonante, de interesse imediato. Mas são, por
definição, dispersivos.
Nascidos
quando a internet decolava, por volta de 1990, os garotos da Geração Y têm toda
a facilidade para lidar com a parafernália digital e com os dispositivos móveis
da tecnologia pessoal. Mas precisam de nosso apoio, de nossos cuidados e de
nova educação.
Que fazer
Aproveite
as férias para aproximar-se mais de seu filho, para construir uma nova relação
com ele, meu amgio. Se notar que o garoto está
exposto a riscos e perigos, não se escandalize nem reaja de forma autoritária
ou radical. Nada de repressão policialesca, de gritos, de sermões infindáveis
nem de ameaças. Dialogue com serenidade, ensine-lhe tudo que ele precisa saber
sobre tecnologias digitais. Se você não sabe, estude, aprenda, junto com ele.
Atualize-se nessa área.
Mostre-lhe
o que a internet tem de melhor e como encontrar seus tesouros escondidos.
Convença-o de que a web também pode transformar nossa vida em verdadeiro
inferno, com seu lixo e suas armadilhas. Ensine seu filho a evitar tudo isso.
Dê-lhe senso crítico e não o transforme num incauto deslumbrado pela
tecnologia.
Ensine-o
a pesquisar, a concentrar-se em uma única tarefa, a refletir, a descobrir a
beleza da leitura, da poesia, da música, das artes em geral, do esporte, do
contato com a natureza. Se não cuidar dele, há muitos delinquentes à espreita,
que cuidarão. E aí nada adiantará exclamar, cheio de mágoa: “Onde foi que eu
errei?”
Os analógicos
Se
você nasceu há mais 50 anos, lembre-se que seu mundo era totalmente analógico,
povoado de telefones fixos, pretos e eletromecânicos. De rádios e TVs a
válvulas. De filmes fotográficos de rolo, de discos de vinil e de vitrolões.
Se
você tem entre 30 e 50 anos, talvez tenha vivido com grande interesse a
transição entre o mundo analógico e o digital, quando surgiam os primeiros PCs,
CDs e videocassetes, no começo dos anos 1980 até a metade dos 1990. Conheço bem
meus contemporâneos e percebo a dificuldade que a maioria deles tem em lidar
com desktops, smartphones, iPods
e tablets. Outros, já avós, tentam com humildade
aprender com os filhos ou netos.
Felizmente,
sou uma exceção. Se não tivesse acompanhado de perto as transformações da
tecnologia, eu também tremeria diante de um teclado. Para mim, o mais
importante foi adquirir experiência e acompanhar tantas mudanças tecnológicas
ao longo da vida.
Cabe-me,
agora, estimular pais e educadores a desarmar a bomba-relógio que poderá, sim,
explodir em sua casa, mais adiante, se não ensinarmos todos os dias os garotos
e adolescentes a administrar os desafios crescentes do mundo em que vivemos.
Ethevaldo Siqueira
O Estado de S.Paulo – 25/12/2011