Apagão de mão de obra qualificada?
O Brasil sempre esteve
muito atrasado em termos educacionais, mesmo em relação a
países com menor nível de desenvolvimento. Mas está na
moda hoje em dia falar do apagão de mão de obra qualificada que
estaria acontecendo no Brasil. Segundo essa tese, a demanda por trabalhadores
qualificados estaria crescendo a uma taxa superior à sua oferta, o que
estaria restringindo o crescimento econômico brasileiro e aumentando o
salário dos trabalhadores mais qualificados. Será que essa tese
tem apoio nos dados?
Uma das únicas teorias universalmente aceitas na economia é a
lei da oferta e da procura, que diz que sempre que há excesso de
demanda por um produto, seu preço relativo deve subir. Isto
também acontece com a educação. O preço relativo
da educação é dado pelo diferencial de salário
que as pessoas mais educadas recebem no mercado de trabalho. Assim, se a
demanda por um grupo educacional estiver crescendo a um ritmo superior
à sua oferta, o diferencial de salário dos trabalhadores desse
grupo, com relação ao nível imediatamente abaixo,
também deve crescer. Utilizando este critério, será que
existe excesso de demanda por trabalhadores de algum extrato educacional no
Brasil?
Para responder esta questão, a figura ao lado mostra a
evolução dos diferenciais de salário por
educação no Brasil nos últimos 16 anos. Ela mostra que,
em 1992, as pessoas que completavam o ensino médio ganhavam em
média 80% a mais do que as que terminavam somente o primeiro ciclo do
ensino fundamental. Hoje em dia elas recebem 60% mais. Isso aconteceu porque,
em 1992, para cada duas pessoas que abandonavam os estudos na 4ª
série, uma concluía o ensino médio. Hoje em dia a
situação é praticamente oposta. Ou seja, o crescimento
da oferta relativa de trabalhadores com ensino médio diminuiu o seu
diferencial de salários. A oferta cresceu mais rápido do que a
demanda.
Com relação ao ensino superior, o seu diferencial de
salários com relação aos concluintes do ensino
médio era de 120% em 1992, aumentou para 160% em 2002 e declinou nos
últimos 6 anos, até atingir 150% em 2008. Isto aconteceu porque
a razão entre concluintes do ensino médio e do superior cresceu
de 2,6 para 3,4 entre 1992 e 2002, mas declinou para 3,2 em 2008. Ou seja,
devido ao alto retorno do ensino superior, mais jovens entraram
na faculdade, o que diminuiu o diferencial de salários. A oferta
cresceu mais rápido do que a demanda.
E quanto aos pós-graduados? Este é um grupo muito pouco
estudado no mercado de trabalho brasileiro. As pesquisas domiciliares do IBGE
nos permitem investigar o perfil dos trabalhadores que concluem os programas
de mestrado e doutorado no Brasil. Seu número aumentou de 161 mil em
1992 para 586 mil em 2008, cerca de 260%. Segundo a Capes, o Brasil está
formando hoje em dia quase 40 mil mestres e 10 mil doutores por ano, um
crescimento significativo com relação ao passado recente. Ainda
assim, hoje há cerca de 17 graduados para
cada pós-graduado no Brasil. Por isto, o diferencial salarial entre
mestres/doutores e formados no ensino superior, que era de 40% em 1992,
passou para 70% em 2008. É o único diferencial de
salários que ainda está crescendo. Ou seja, se houver algum
apagão de mão de obra qualificada no Brasil, é de
mão de obra pós-graduada.
É importante ressaltar dois pontos com relação a esse
argumento. Em primeiro lugar, o fato da escassez de trabalhadores
qualificados não ter aumentado no agregado não significa que
eles não possam estar faltando em alguns setores específicos.
Por exemplo, devido ao boom da construção civil nos
últimos anos, é bem possível que haja falta de
engenheiros no mercado. Isso significa que deve estar sobrando pessoas
formadas em alguma outra profissão (economistas, por exemplo).
Além disto, educação continua sendo um fator essencial para
o crescimento econômico. Estudar mais não causa problemas. As
pessoas que ficam mais tempo na escola aumentam sua produtividade e a do
país como um todo, além de viverem mais, votarem melhor, e
serem mais preocupadas com o meio ambiente. Mas, não é verdade
que o problema educacional esteja ficando mais grave no Brasil.
Naercio Menezes Filho, professor titular -
Cátedra IFB e coordenador do Centro de Políticas
Públicas do Insper e professor associado da
FEA-USP, escreve mensalmente às sextas-feiras.
Autor(es): Naercio
Menezes Filho
Valor Econômico - 21/05/2010
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