O forte
crescimento da economia antes e depois da recente crise mundial alimentou a
tese de que, no atual estágio de desenvolvimento do país, já há escassez de
mão de obra. As taxas de desemprego, nas regiões metropolitanas onde a
economia é mais dinâmica, estão em níveis historicamente baixos e o
rendimento médio real dos trabalhadores tem crescido de forma consistente
desde 2006. Essa combinação poderia sugerir, de fato, a existência de
problemas no mercado de trabalho, mas os números, olhados de perto, desmentem
a ideia de escassez.
As
notícias são boas. O economista-chefe do Credit Suisse, Nilson Teixeira, e sua equipe se debruçaram sobre
a Pesquisa Mensal de Emprego (PME), feita pelo IBGE, e constataram que não há
desequilíbrio no mercado de trabalho. De janeiro a março, o rendimento real
efetivo do ocupados cresceu 2,3%, face a uma expansão de 2,4% em 2009 e de
3,9% em 2008. Teixeira acredita que esse indicador fechará 2010 com alta de
3,5%, ligeiramente abaixo do aumento médio de 3,6% entre 2006 e 2008.
Os
números mostram recuperação no pós-crise, mas estão
longe de revelar explosão. Se houvesse escassez de mão de obra, os
rendimentos estariam subindo num ritmo muito mais forte. Um segundo mito cai
por terra quando se verifica que, apesar do zunzunzum de alguns setores e
empresas quanto à falta de trabalhadores de maior qualificação, o rendimento
dos trabalhadores de nível superior está avançando numa velocidade menor que
o dos outros profissionais.
Teixeira
e sua equipe analisaram os microdados da PME,
abrindo as estatísticas do mercado de trabalho de um número maior de setores
que os oito grupos mencionados na pesquisa oficial. Eles verificaram 23
setores, representativos de 89% da população ocupada, e concluíram que quem
ganha menos está tendo aumentos salariais mais generosos do que aqueles que
ganham mais. "Enquanto o rendimento médio dos 11 principais setores que
oferecem menor remuneração média aumentou 10% no acumulado do ano até abril,
nos segmentos com maiores salários médios o aumento do rendimento foi de 8%
no período", diz o economista-chefe do Credit Suisse.
Quando se
analisa por grau de escolaridade, observa-se que os trabalhadores com ensino
fundamental (33% da população ocupada) dos 23 setores analisados tiveram, em
média, aumento acumulado de 9,6% entre janeiro e abril. Já os que possuem
segundo grau (37% do total) ganharam 7,7% no mesmo período e os que têm curso
superior (19%), 4,2%. Os números mostram, ainda, que não tem havido
discrepância significativa entre os ganhos salariais entre os setores, quando
divididos por nível de escolaridade. Um exemplo: enquanto os trabalhadores
com ensino superior dos setores com menores rendimentos tiveram
ganho salarial de 4%, os de maior rendimento foram aquinhoados com
3,7%.
Em apenas
seis, dos 23 setores, profissionais com diploma de ensino superior tiveram,
de janeiro a abril, aumento real médio superior ao dos trabalhadores menos
qualificados - edição, impressão e reprodução de gravações; fabricação de
produtos de metal (com exceção de máquinas e equipamentos); comércio de
veículos e combustíveis; móveis e indústrias diversas; alojamento e
alimentação; e vestuário.
Apesar
disso, a equipe do Credit Suisse
constatou que, nesses seis setores, o crescimento da população ocupada entre
janeiro e abril foi de 3,6%. Nos 23 setores, a expansão foi de 3,7%. Dessa
forma, é possível concluir que os segmentos mais dinâmicos não estão elevando
mais fortemente a demanda por profissionais qualificados, logo, os
rendimentos também não estão subindo de maneira mais expressiva.
"No
nosso entender, o crescimento do rendimento dos trabalhadores com ensino
superior não supera o dos demais por conta de não haver desequilíbrio entre a
demanda e a oferta por trabalhadores com qualificação relativamente mais
elevada", explica Nilson Teixeira. De fato, os números mostram que a
população ocupada com ensino superior avançou no ano, até abril, 8,2%. No
mesmo período, a população economicamente ativa (PEA) com educação superior
cresceu 7,8%, enquanto a PEA total elevou-se 2%. Já a população desocupada do
mesmo segmento encolheu 1,6%. "Esse resultado sugere que, apesar da
forte elevação da demanda por trabalhadores mais qualificados, a oferta dos
mesmos também cresce expressivamente."
Na
avaliação de Teixeira, o crescimento mais forte da força de trabalho
escolarizada não reflete uma maior busca por emprego desses profissionais,
mas uma tendência interessante: a qualificação da mão de obra. Dadas as
exigências do mercado, os trabalhadores estão indo à luta para se qualificar
mais. Os dados mostram isso - o crescimento da população em idade ativa (PIA)
com ensino superior foi de 7,3% até abril, enquanto a PIA total subiu 1,5%.
Nos
últimos anos, grandes empresas vêm se queixando, por exemplo, da falta de
engenheiros no mercado de trabalho. Este é um desafio que o país terá que
superar no futuro próximo. Escassez de mão de obra pressiona os custos de
produção e, por consequência, a inflação, o que em
última instância limita o crescimento da economia. O que a análise do Credit Suisse revela é que o problema,
se já existe, não é generalizado, portanto, não deverá limitar a expansão
brasileira no curto prazo.
Brasil -
Cristiano Romero
Valor
Econômico - 30/06/2010