O Brasil
envelhece a passos largos. A França demorou 120 anos para duplicar a sua população.
Os Estados Unidos, 70 anos. A partir de hoje, a população brasileira dobrará
em apenas 20 anos. É uma velocidade espantosa.
O reflexo
disso sobre o sistema previdenciário é evidente. No futuro, teremos menos
jovens para sustentar mais aposentados. Essa é uma conta que não fecha na
base das regras atuais. Isso vale para os dois sistemas de aposentadoria - o
público e o privado.
No setor
público a situação é alarmante. Os aposentados da administração federal
causarão um déficit de quase R$ 60 bilhões em 2011. Isso vai aumentar muito
ao longo do tempo, porque o atual 1,1 milhão de servidores na ativa serão beneficiados com aposentadoria com vencimento
integral. As receitas do chamado Regime Próprio de Previdência da União são
insuficientes para custear aposentadorias pelo valor integral da última
remuneração.
A situação
dos Estados é igualmente insustentável, com a exceção dos novos que ainda
arrecadam mais do que gastam com os aposentados.
Uma das
poucas reformas que o presidente Lula patrocinou foi a que mudou a regra para
a aposentadoria do funcionalismo federal. Os novos funcionários só poderiam
se aposentar com o último vencimento se participassem de um plano de
previdência complementar. Ocorre que o projeto de lei (PL) que criava essa
previdência foi bombardeado pelas centrais sindicais desde o seu nascedouro
(2003), o que fez Lula recuar.
Finalmente,
no dia 24 de agosto deste ano, a Comissão do Trabalho da Câmara dos
Deputados, sob a presidência do deputado Silvio Costa, aprovou o PL n.º 1.992
por 13 votos a 7. O projeto cria a Fundação de Previdência Complementar do
Servidor Público (Funpresp). Com isso, os
servidores que ingressarem no serviço público daqui para a
frente poderão optar por uma contribuição previdenciária complementar para
garantir a aposentadoria nos padrões atuais. Os que não optarem, terão a sua
aposentadoria limitada pelo teto do INSS - hoje R$ 3,6 mil - como ocorre com os trabalhadores do setor privado que se
aposentam pelo Regime Geral de Previdência Social.
O PT e o
PC do B, assim como as centrais sindicais, se posicionaram contra a aprovação
do referido projeto, mas, sob a batuta da presidente Dilma, o governo federal
se mostra disposto a levar avante a tramitação e a aprovação da medida. Após
passar pelas comissões de Seguridade e Constituição e Justiça, o projeto deve
seguir para o Senado Federal por ter caráter terminativo.
Muitos
argumentam que os benefícios dessa lei serão sentidos apenas no futuro. E
daí? É para isso que está sendo feita. Além de sinalizar sobre a saúde das
finanças públicas no dia de amanhã, essa lei é da maior importância para a
promoção de bons postos de trabalho.
Os
déficits da Previdência Social (público e privado) forçam o governo a tomar
recursos no mercado financeiro, pressionando os juros para cima e os
investimentos para baixo - o que compromete a geração de empregos de boa
qualidade.
Os Estados
foram convidados a aprovar os seus próprios sistemas de previdência
complementar. O governador Geraldo Alckmin, de São Paulo, encaminhou à
Assembleia Legislativa um projeto de lei de teor semelhante ao PL 1.992. A
sua aprovação requer urgência, pois o novo regime já devia estar em vigor. A
demora é devastadora para as finanças públicas e para os próprios
funcionários.
Trata-se,
é verdade, de uma medida de impacto lento. Mas não podemos dar uma de Groucho Marx e dizer que o futuro não interessa porque
ele nada nos ajuda no presente. Temos de decidir agora o destino das novas
gerações, porque a demografia não espera a lentidão da política.
Autor(es): José Pastore
O Estado de S. Paulo - 27/09/2011