A
maior parte das empresas abertas no Brasil não completa cinco anos de vida.
Conheça a história de sucesso dos empreendedores que superaram essa barreira
O
brasileiro é, seguramente, um dos povos mais empreendedores do planeta. A
cada ano, são abertas 500 000 empresas formais no Brasil, uma média de quase
10 000 por semana, ou 2000 novos empreendimentos por dia útil. De acordo com
os dados mais recentes de uma pesquisa do Monitor Mundial do
Empreendedorismo, de cada 100 brasileiros adultos, dezoito estão envolvidos
de alguma maneira no estágio inicial de um novo negócio. É um dos maiores
índices do mundo, à frente dos de países como China e Argentina (onde o porcentual
de empreendedores é de 14% da população) e bem superior ao dos Estados Unidos
(8%). A importância dos pequenos e microempresários pode ser medida também
pelo fato de que eles são responsáveis por 98% do número total de companhias
registradas no país e por mais da metade dos empregos formais no setor
privado. Ao todo, existem 6 milhões de pequenas e microempresas formais no
país. Mas o paradoxo da economia brasileira é que esses empreendedores
possuem uma participação relativamente modesta no total da produção nacional.
Essas companhias respondem por apenas 20% do PIB no Brasil. Na Alemanha e na
Itália, por exemplo, as empresas pequenas são responsáveis por 60% da
economia.
Essa
contradição tem razão de ser: o custo Brasil. A mesma pesquisa que materializou
o espírito empreendedor do brasileiro revelou que o país possui o pior
ambiente de negócios entre as 59 nações avaliadas. De acordo com o estudo,
fatores como a burocracia desmedida, a dificuldade para formalizar uma
empresa e mantê-la na legalidade e o custo elevado da carga de impostos
atormentam a vida dos empresários nacionais e impedem que eles cresçam. Mesmo
aqueles que vencem esses obstáculos iniciais costumam tropeçar na barreira da
falta de crédito. Segundo a unidade de São Paulo do Serviço de Apoio às Micro
e Pequenas Empresas (Sebrae), a cada dez
empreendedores, sete necessitam de crédito, mas apenas dois conseguem
obtê-lo. Não é por acaso, portanto, que diversas das histórias de sucesso
narradas nesta reportagem tiveram como pontapé inicial um empréstimo feito
por familiares ou amigos – e não por bancos. Um dado ainda mais preocupante,
segundo o Sebrae, é que praticamente um terço dos
pequenos admite recorrer ao cheque especial quando as contas entram no
vermelho no fim do mês. É difícil pensar no aumento da produtividade e da
competitividade de uma empresa quando ela se endivida da forma mais cara
possível e não consegue ter acesso a tipos mais adequados de financiamento
para efetivamente crescer.
Os
desafios para esses empresários ficam ainda maiores quando eles tentam
colocar os seus produtos no mercado internacional. Empreendedores
entrevistados por VEJA relataram o oceano de burocracia, regulações e
exigências que tiveram de enfrentar para se desvencilhar dos fiscais
alfandegários (alguns inclusive insinuando a cobrança de propinas) e também
conseguir remeter os valores da transação comercial. Não surpreende que as
pequenas e microempresas sejam responsáveis por um modesto 1% das exportações
brasileiras.
Essas
dificuldades ajudam a entender por que existem mais de 10 milhões de empresas
informais e o índice elevado de mortalidade de empresas no país. Uma pesquisa
do Sebrae São Paulo revela que 27% delas não
sobrevivem mais que um ano. Mais da metade não completa cinco anos de vida. O
lado positivo é que o índice de sobrevivência tem crescido nos últimos anos.
Isso porque no passado, com a economia desaquecida e o desemprego elevado,
muitas pessoas se lançavam na aventura de abrir algum negócio – mesmo sem ter
feito nenhum tipo de planejamento nem contar com nenhum preparo empresarial
para lidar com questões financeiras. Pesquisas revelam que aumentou o grau de
informação dos novos empreendedores. Muitos procuram a ajuda de instituições
como o Sebrae, a Endeavor
e outras incubadoras empresariais. Entre os empreendedores que buscam auxílio
especializado, a taxa de mortalidade no quarto ano cai de 50% para 30%.
“Existe ainda a crença de que, para empreender, basta uma boa ideia”, diz
Bruno Caetano, diretor-superintendente da seção paulista do Sebrae. “Isso é um mito. Se não for amparada por um bom
plano de negócio, essa boa ideia não irá para a
frente.”
Outro
avanço positivo no país foi a Lei Geral da Micro e Pequena Empresa, aprovada
em 2006 e mais conhecida como Lei do Simples, que promoveu uma minirreforma
tributária. Os pequenos contam com a possibilidade de pagar oito impostos em
apenas uma taxa, e com alíquotas reduzidas. Em 2009, apareceu outra novidade:
a Lei do Empreendedor Individual. Ambas as leis permitiram formalizar
milhares de empreendimentos que operavam na clandestinidade fiscal e
jurídica. Hoje até mesmo pipoqueiros podem registrar uma empresa, como a
Pipoca do Valdir, de Curitiba. Mas, de acordo com os especialistas, esses
foram apenas passos iniciais. Na Itália, por exemplo, a chamada Lei dos
Consórcios estimula os pequenos empresários a se unir para exportar ou
desenvolver tecnologias. “No Brasil, lamentavelmente, não temos essa cultura
de colaboração. O empresário tende a ver o concorrente como um inimigo a ser
vencido, não como alguém a quem ele pode se aliar”, diz Paulo Roberto
Feldmann, da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São
Paulo (FEA-USP). Outro exemplo de incentivo governamental ocorreu na
Inglaterra. Ele dá prioridade às pequenas empresas nas licitações de obras e
serviços ligados aos Jogos Olímpicos de 2012, em Londres.
O
governo precisa fazer a sua parte. Mas, para o professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) Tales Andreassi,
falta aos pequenos empreendedores um maior preparo no que diz respeito à
análise de mercado. “É desejável que as pessoas optem por abrir um negócio
menos por necessidade e mais por oportunidade”, afirma ele. Essa mentalidade
começou a mudar, e hoje se tornaram comuns as aulas de empreendedorismo nas
faculdades de administração – antes focadas em preparar os alunos para
trabalhar em grandes empresas. É com iniciativas como essas, aliadas a
reformas que não apenas ampliem as chances de vida de uma empresa como a estimulem a crescer e prosperar, que os pequenos e
microempresários finalmente conquistarão o espaço merecido no PIB brasileiro.
1.
Não tenha medo de assumir riscos
A arquiteta Roberta Caruso, de
32 anos, deixou o antigo emprego, há seis anos, e fundou, com três sócios, a
Overland. A empresa presta serviço de hospedagem ao ar livre, o que não
existia no Brasil. Aluga barracas e todos os equipamentos necessários para
fazer um acampamento de primeira qualidade. Entre seus clientes estão os
organizadores do Rally dos Sertões e do festival de
música SWU. Demorou para que a Overland cativasse a
clientela. Os sócios de Roberta acabaram se frustrando com o retorno
financeiro e deixaram o empreendimento. A Overland rumava para ser mais uma
na estatística das empresas que não chegam ao quinto ano de vida. Mas Roberta
decidiu arriscar e seguir adiante. “Tive de fazer um empréstimo para obter
capital de giro”, relembra ela. Foram necessários
dois anos para quitar as dívidas, mas a Overland sobreviveu. Em 2011 terá o
seu melhor ano, com faturamento superior a 400 000 reais.
2.
Não tente fazer tudo sozinho
A
mineira Maria José de Lima, que ganhava a vida fazendo faxinas, passou por
dias difíceis no fim dos anos 90. O país estava em crise, e havia poucas
oportunidades de trabalho. Em 1999, Mazé, como é
conhecida, começou a vender doces caseiros. Conseguiu 5000 reais emprestados
e ampliou a cozinha da casa em que morava. Produzia um doce de amendoim que
aprendera a fazer na infância e o vendia pelas ruas de Carmópolis
de Minas. O negócio prosperou quando ela passou a vender frutas cristalizadas.
Para acertar as receitas, foram dias de tentativas e noites em claro. Em
2004, abriu a Mazé Doces, que hoje dá emprego a
vinte funcionários. Sua lição: “No início, minha maior dificuldade era
delegar as tarefas. Demorei a entender que, numa empresa, não se pode fazer
tudo”.
3.
Inovação, sem gestão, não garante o sucesso
A
Automatisa foi fundada em 1996, dentro de um centro
tecnológico de Florianópolis, por três engenheiros com o objetivo de prestar
serviços em automação. Em 1999, os sócios conseguiram adaptar uma tecnologia
de corte a laser, empregada normalmente em metais, para ser usada em têxteis.
A primeira máquina foi apelidada de Frank, em referência a Frankenstein, pois
era constituída por partes de vários equipamentos. A partir daí, passaram a
desenvolver novas máquinas para cortes e impressão em tecidos. “Nos éramos ótimos em criar, mas, por sermos todos
engenheiros, tínhamos dificuldade com a parte administrativa e comercial”,
afirma Marcos Lichtblau. Em 2003, eles contrataram
profissionais incumbidos de cuidar da gestão. Os sócios puderam então dedicar
a maior parte do tempo ao desenvolvimento e à implantação de novas
tecnologias. Hoje, já fora da incubadora empresarial em que deram os
primeiros passos, possuem sessenta funcionários na linha de produção e vendem
onze tipos de equipamento.
4.
Pesquise a fundo a concorrência
Valdir
Novaki esperou catorze anos até conseguir a
concessão de um ponto na Praça Tiradentes, no centro de Curitiba. Quando isso
ocorreu, em 2006, era jornaleiro e tinha capital apenas para comprar um
carrinho de pipoca. Assim que pegou a licença, passou um mês observando e
analisando o trabalho dos outros pipoqueiros. Notou que muitos eram
desleixados. Não cuidavam da aparência própria nem do carrinho. Finalmente,
quando começou a vender pipoca na praça, Valdir implantou algumas medidas
inovadoras. Todos os clientes ganham o chamado kit higiene, que contém um
sachê com fio dental, um guardanapo e uma bala de menta. Além disso, ele
criou cartões fidelidade. Logo roubou clientela dos demais pipoqueiros.
Enquanto seus concorrentes vendem, no máximo, 5 quilos por dia, Valdir chega
a vender 23 quilos. Hoje com 41 anos, ele foi um dos primeiros pipoqueiros a
se formalizar no Brasil, com a ajuda do Sebrae e
beneficiado pela Lei do Empreendedor Individual. Possui CNPJ e já planeja
aceitar cartões de débito.
5.
Fique atento às novidades do mercado
Ex-representante comercial de
fábricas de etiquetas, Cristiano Buerger percebeu
que havia demanda no mercado para uma nova empresa, sobretudo para atender às
grifes. Em 1994, com 21 anos, 18 000 dólares e três funcionários, Buerger fundou a Tecnoblu em
Blumenau, Santa Catarina. Ele passou a fazer pesquisas no exterior sobre as
novidades do mercado mundial. Trouxe tecnologias que eram inéditas no Brasil.
Além disso, incorporou ao negócio dois sócios com ampla experiência na área, Edmur Polli e Sérgio Pires. A empresa atualmente tem 200
funcionários. Entre seus clientes estão as marcas Colcci, Forum, Le Lis Blanc e Animale. “Acompanhamos de perto as tendências, mas as
adaptamos ao gosto brasileiro. A etiqueta valoriza a marca”, diz Buerger.
6.
Não se prenda a uma única ideia
A
advogada Ana Carolina Vaz pensou que, como ela, outras pessoas gostariam de
comprar fraldas para suas cadelas. Mas não havia esse produto no mercado.
Nasceu então, há cinco anos, a Dog’s Care, que Ana Carolina fundou com o marido, Marcelo
Augusto. As fraldas fizeram sucesso, mas o salto da empresa só foi dado
depois que ela passou a vender a linha ampla de produtos para cães. O mais
vendido é o tapete higiênico. Com 25 funcionários, a Dog’s
Care deverá faturar 4 milhões de reais em 2011.
7.
Planeje para voar mais alto
Lenira
Arsego, natural do Rio Grande do Sul, é filha de
produtores de soja e sempre teve o grão presente nas refeições. Ao se mudar
com a família para Sorriso, em Mato Grosso, tida
como a capital mundial da soja, teve a ideia de criar uma linha de produtos
alimentícios com base na leguminosa – que, em geral, é usada para fazer
óleos, margarinas e rações. Fundou em 2007 a Nutri Nature,
que vende pães, biscoitos e petiscos. A partir de 2009, quando Gerusa Rader se tornou sócia de Lenira, a empresa passou a ter
um plano de negócios mais ambicioso e organizado, e, assim, chegou a mais
cidades da região. O objetivo nos próximos meses é desenvolver uma embalagem
a vácuo, o que aumentaria o prazo de validade dos produtos e tornaria
possível a entrada em outros estados.
8.
Trace metas e seja competitivo
Com
faturamento de 3 milhões de reais neste ano, a confecção de roupas infantis Tóing, de Sorocaba, no interior de São Paulo, começou
como milhares de outras empresas: no fundo do quintal. “Fizemos um coberto no
fundo do terreno de nossa casa e instalamos ali uma mesa de corte”, conta
Adriana Pelegrini Gonçalves, que fundou há onze anos o negócio junto com o
marido, o administrador de empresas Marcelo Briese.
No começo, a maior dificuldade foi obter crédito. Hoje, com a situação
financeira mais favorável, o desafio é enfrentar a concorrência – sobretudo
dos produtos importados da China. A fórmula encontrada para oferecer produtos
de qualidade a preço competitivo foi sacrificar a margem de lucro – e assim
vender mais.
9.
Descubra uma necessidade – e saiba preenchê-la
O
publicitário Lito Rodriguez, de 43 anos, entrou no mercado de lava-rápido em
1994 com a ideia de criar um serviço com atendimento superior ao das garagens
de bairro. Todos os funcionários eram uniformizados e havia um padrão no
atendimento. Porém, isso não foi suficiente para alavancar o negócio. “Eu
percebi que o número de carros era grande somente nos fins de semana, quando
as pessoas têm tempo”, diz Lito. A solução? Oferecer o serviço com
praticidade em locais onde os carros costumam ficar parados. Daí surgiu a vontade de buscar uma maneira de lavar automóveis sem a
utilização de água, o que possibilitaria a abertura de lava-rápidos em
estacionamentos de shoppings e supermercados. Desde então, Lito, sem
conhecimento nenhum de química, começou a realizar experimentos por conta
própria. Na base da tentativa e do erro, a fórmula ideal foi encontrada em
1995 e deu origem à rede Dry Wash.
10.
Fazer direito vale a pena
“Às
vezes você não precisa ter uma grande ideia. Basta fazer melhor algo que já
existe”, afirma Wilson Poit. Fundada em 1999, a Poit Energia aluga geradores para eventos diversos. O
serviço inclui a instalação de abafadores de ruído, cabos, conectores e
painéis de controle. Providencia ainda o transporte, a montagem e a
assistência técnica. Hoje a Poit Energia já
expandiu suas atividades para a Argentina, o Chile e o Peru. Mas, para o
empresário, ser melhor que a concorrência não se restringe à parte
operacional. “É preciso auditar desde cedo a
empresa, fazer tudo de forma limpa, pagar direito todos os impostos e ter
consciência ambiental. Essas preocupações atraem clientes e investidores”,
diz ele. “É preciso saber como apresentar a empresa. Até uma joia fica feia
se é embrulhada em jornal.”
Autor(es): ANA LUIZA E
ÉRICO OYAMA
Veja - 28/11/2011