Aos 67 anos, o executivo Erundino Diniz assumiu o desafio de reestruturar a LSM Brasil, subsidiária de uma metalúrgica de capital inglês com quase um século de
atuação no país. O convite era tentador: Diniz teria carta branca para conduzir
o processo de profissionalização da empresa. Entre as metas do executivo, estavam reforçar as diretorias com profissionais
estratégicos, rever processos administrativos e iniciar um programa de
preparação de sucessores para os cargos de liderança.
As semelhanças com o processo
de recrutamento de um alto executivo, porém, param por aí. Ao ser contratado,
no ano passado, Diniz definiu, junto com a companhia, um período para o término
de seu trabalho. "Devo sair em pouco mais de um ano", calcula. O
caráter transitório não é novidade para ele, que já passou por experiências
semelhantes em outras empresas. "Quando sou chamado para liderar um
processo de transformação não tenho coragem de negar, pois é o que gosto de
fazer", justifica.
Casos como o de Diniz estão se
tornando comuns no mundo corporativo. A falta de talentos nos níveis mais altos
de gestão está levando cada vez mais empresas a optarem por contratos com
período determinado. No geral, eles estão relacionados à estruturação de uma
subsidiária de uma multinacional no país, à construção de uma planta industrial
ou ao início de um projeto de profissionalização. "Esses executivos são
contratados como diretores estatutários, que não têm os mesmos encargos da CLT
e por essa razão acabam custando menos para a empresa", afirma Adriana
Prates, sócia da consultoria Dasein. Segundo ela, essa economia se traduz em
honorários agressivos, que podem chegar a até R$ 100 mil
mensais.
De acordo com a advogada trabalhista Adriana Calvo, nos últimos
dois anos tem crescido o número de consultas de profissionais interessados em
entender esse modelo. "O diretor estatutário é um prestador de serviços
com um tipo de contrato diferente da CLT. Além disso, ele é eleito por um
conselho ou por uma assembleia geral", explica.
Valseni Braga,
diretor geral do Sistema Batista Mineiro de Educação, precisou passar pelo
crivo do conselho para assumir o grupo, que tem 11 unidades educacionais e mais
de mil funcionários. Há três anos, o executivo decidiu sair da Infraero, onde
trabalhou por mais de duas décadas, para reestruturar a instituição, projeto
que durará pelo menos mais dois anos. "Tenho trabalhado de forma muito
cuidadosa para ganhar competitividade sem colocar em risco os valores e a
cultura da organização", afirma. Parte do trabalho do executivo tem sido
definir o planejamento estratégico da empresa, estruturar áreas como a de
marketing e comunicação e contratar profissionais. "Também estamos
mapeando sucessores para cargos-chave", afirma.
A transição de carreira,
segundo ele, não foi motivada por vantagens financeiras, mas pelo desafio
profissional. "Sempre fui apaixonado por educação. Conseguir aplicar meus
conhecimentos nesse setor foi uma oportunidade muito recompensadora", diz.
O caráter transitório de muitos
dos contratos ainda é motivo de preocupação para alguns executivos, mas o
mercado brasileiro deve se acostumar ao modelo. Segundo Adriana Prates, o
sistema é muito popular nos Estados Unidos e na Europa, onde o temporário de
alto escalão é chamado de "interim manager" (algo como gestor
interino, na tradução para o português). "Nessa estrutura, as pessoas têm
horários menos rígidos para trabalhar, o que atende às demandas de qualidade de
vida bastante valorizadas pelos executivos mais experientes", afirma.
Inspirada no modelo de
"interim manager", a Eksper iniciou suas
operações no país há um ano. Desde então, tem percebido aumento crescente na
demanda por temporários em áreas como finanças e recursos humanos. "Ele é
recomendado quando a empresa precisa conquistar novos mercados, criar unidades
de negócios ou fazer uma transição
organizacional", afirma Donizetti Moretti, um
dos gestores interinos da Eksper.
Segundo ele, é importante que
esse tipo de executivo tenha um perfil adequado para os projetos temporários.
"Como ele não tem objetivos de carreira dentro da organização e tem
compromisso apenas com as metas da empresa, costuma agir com maior
independência e imparcialidade", afirma. A flexibilidade permite que o
profissional trabalhe em mais de um projeto ao mesmo tempo, o que pode ser
vantajoso tanto para o executivo quanto para a companhia. "Em alguns
casos, o executivo passa apenas uma semana por mês na empresa, o suficiente
para atender a demanda de trabalho e que pode ser também mais adequado para a
capacidade de remuneração da companhia", explica.
O economista Edgar Viana esteve de ambos os lados. Ele começou a
carreira como executivo da área financeira e chegou a ser CFO nos dois modelos,
como empregado e como estatutário. Duas passagens recentes aconteceram na
francesa Veolia, empresa de tratamento de água e
resíduos, e na Essencis Soluções Ambientais.
"São realidades diferentes. O estatutário tem uma responsabilidade maior,
em alguns casos, precisa ter uma visão muitas vezes de dono sobre o
negócio", compara. A carga de comprometimento adicional, segundo ele, pode
não compensar o salário mais alto. "É uma posição que permite muitos desafios
e possibilidades, mas também é mais estressante. O bônus pode não compensar o
ônus", afirma
Por Vívian Soares | De São Paulo
Valor Econômico –