Bancos tentam evitar alta do calote
Instituições ampliam
oferta de refinanciamento e reforçam áreas de cobrança
Depois da compra por
impulso vem o susto com a fatura. Os três primeiros meses do ano são marcados
pelo aumento generalizado da inadimplência, que sazonalmente chega a subir até
10%, após o acúmulo dos gastos de Natal com as despesas de início de ano. Em
2010, no entanto, os bancos se armam para evitar que a história se repita. Com
os índices de atrasos ainda em patamares elevados, por conta da crise, a
preocupação é que novas altas, mesmo que sazonais, possam comprometer o
resultado das áreas de empréstimos.
A saída foi ampliar o leque de produtos que deem
fôlego aos clientes enforcados, como o parcelamento da dívida no cheque especial
e o reforço dos departamentos de cobrança, que intensificaram os contatos já
nos primeiros dias de atraso. As instituições voltaram a oferecer também a
última parcela do financiamento grátis quando todos os pagamentos são feitos em
dia.
Com esse esforço, os grandes bancos não esperam aumentos muito acelerados dos
calotes no início do ano, mas o indicador deve permanecer acima dos níveis de
anos anteriores no primeiro trimestre em algumas modalidades. Em novembro, a
média da inadimplência estava em 8,1%, acima dos 7,8% do mesmo mês de 2008.
"Em janeiro, a tendência é manter os mesmos
índices vistos no fim do ano. Talvez haja uma discreta elevação, mas que não
decorre de um problema maior e que se normaliza ao longo do mês ou do mês
seguinte", afirma Ricardo Flores, vice-presidente de crédito do Banco do
Brasil. A instituição comemora uma inadimplência abaixo da média de mercado,
após permanecer por muito tempo na berlinda pela forma agressiva que concedeu
crédito durante o pior momento da crise.
Ajuda também o fato de a concessão de crédito em 2009 ter sido feita de forma
mais criteriosa do que em anos anteriores, dado o medo dos efeitos da crise.
"A safra atual é muito boa, vai haver aumento de inadimplência, isso é
sazonal, mas talvez possamos ver aumentos menores do que no ano passado",
diz Fernando Manfio, sócio da Witrisk,
empresa especializada em gestão de risco.
A maior seletividade na liberação adotada em 2009, aliada à expectativa de
crescimento econômico, deve contribuir para a tendência de queda da
inadimplência ao longo de todo ano. "A expectativa é de que inadimplência
fique bem menor do que no ano passado", diz o superintender do Santander,
Eduardo Francisco de Castro.
Para Silvio de Carvalho, diretor do Itaú Unibanco, a tendência ao longo de 2010
é mesmo de queda dos calotes, com uma pequena elevação no primeiro trimestre
fruto da sazonalidade do período. Nilton Pelegrino, diretor do Bradesco,
ressalta que houve um aumento do consumo no fim do ano, mas "nada
exagerado" que possa gerar inadimplência.
Historicamente, a elevação dos atrasos no início do ano pode chegar a 10%, com
o acúmulo de impostos, gastos escolares e as temidas faturas das compras de fim
de ano. Em um período ainda de rescaldo da crise, que elevou os atrasos ao
nível recorde de 8,6% em maio e junho do ano passado, os bancos não querem
deixar que suas carteiras saiam mais uma vez do controle e já criaram saídas
para tentar amenizar o impacto desse período.
O Santander, por exemplo, pretende intensificar a oferta de sua recém-criada
linha de parcelamento do cheque especial. Para evitar que o limite seja usado
de forma indiscriminada, o banco oferece o refinanciamento da dívida em até 36
vezes pela metade dos juros da modalidade. "Fazemos de forma pró-ativa.
Vemos que cliente está usando muito o cheque especial e ligamos para oferecer o
parcelamento", diz Castro.
O Banco do Brasil também oferece parcelamento em 36 meses para clientes com
atrasos e intensificou o contato com o público. "Nosso call
center tem metas para atender
clientes em dificuldades", diz Ricardo Flores.
O cheque especial é a salvação para muitas pessoas quando o orçamento fica
apertado. Entre janeiro e março de 2009, a elevação do uso do limite foi de 12,4%
e, no ano anterior, chegou a 16,4%. O superintendente do Santander estima que
nesse primeiro trimestre a demanda deva crescer pelo menos 10% em relação aos
últimos três meses, com pico de utilização no mês de março.
O ritmo deve ser o mesmo, mas neste ano há uma diferença: a modalidade
emergencial deve terminar o ano com o pico histórico de atrasos. Até novembro,
último dado disponível no Banco Central, 12% das pessoas usavam
seus limites nos bancos há mais de 90 dias e outros 4% dos clientes estavam
pendurados no cheque há pelo menos 15 dias. No fim de 2008, os indicadores
estavam mais baixos: 10,6% e 4,6%, respectivamente.
A solução, há muito discutida, para aplacar os atrasos
é a aprovação do cadastro positivo. Renato Oliva, presidente da Associação
Brasileira de Bancos (ABBC), vê a perspectiva para este ano com otimismo pelo
próprio crescimento econômico, mas também pela possibilidade de que finalmente
a lei seja aprovada. "Há um bom projeto no Senado que poderá reduzir, no
primeiro momento, a inadimplência da pessoa física de 8% para 6%", diz.
Ele afirma, no entanto, que também tramita um projeto sobre o tema na Câmara
que, segundo ele, se aprovado, "vai enterrar de vez o birô de
crédito", pois, entre outras coisas, elevaria os custos envolvidos no
processo de comunicação entre o birôs de crédito e os
consumidores.
Ao mesmo tempo, os bancos nunca recuperaram tanto crédito em atraso. As áreas de
cobrança foram turbinadas desde o início do ano passado por conta da explosão
de inadimplência vista logo após o agravamento da crise e essa estrutura tem
contribuído para conter os calotes. "O último trimestre é bom tanto no
crescimento das carteiras quanto no pagamento de dívidas. A quitação de débitos
em atrasos chega a crescer entre 25% e 30% aqui no Banco do Brasil", diz
Flores.
Esse comportamento está associado também ao maior volume de recursos
disponíveis na economia, com a entrada do décimo-terceiro
salário e da restituição do Imposto de Renda. Além disso, há a criação de
empregos temporários no comércio e na indústria.
"Percebemos também que as pessoas que têm
pendência bancária em decorrência de problemas momentâneos, como perda de renda
num passado recente, procuram se restabelecer nesse trimestre para limpar nome
nos cadastros de proteção ao crédito", completa Flores. Os pagamentos
crescem e a inadimplência recua entre 5% e 7% no BB. "Se olharmos o
sistema, percebemos os mesmos movimentos", afirma.
Fernando Travaglini,
de São Paulo
Valor Econômico
http://www.fazenda.gov.br/resenhaeletronica/