O avanço das transações realizadas por meio
de celulares e tablets pode fazer as empresas de
telefonia tomar o lugar do sistema financeiro
A
imagem mais frequente quando se pensa em um
banco é dinheiro, montes de dinheiro, em sua forma física. Essa visão, porém,
deixou de valer há várias décadas. O retrato mais fiel de uma instituição financeira nos dias de
hoje é o que mostra muitos computadores poderosos, capazes de processar com
segurança os bilhões de transações realizadas diariamente.
Não
por acaso, esse setor é o que mais investe em tecnologia. "Os bancos dos
30 países mais desenvolvidos investem E 140 bilhões todos os anos", diz
o executivo alemão Gerald Faust, vice-presidente
global de serviços financeiros da empresa de software e consultoria alemã
SAP, em entrevista exclusiva à DINHEIRO. Quando menciona esse número, o
executivo não inclui os gastos com equipamentos e computadores, mas
contabiliza apenas sistemas e treinamentos. Convertidos em reais, os cerca de
R$ 320 bilhões parecem estratosféricos, mas Faust
diz esperar um crescimento acelerado nessa cifra. "Os bancos estão à
beira de uma revolução tecnológica e esses investimentos vão crescer 7% ao
ano até 2015", diz.
Os
investimentos mais significativos vão ocorrer em duas direções, que mudarão a maneira como os bancos fazem negócios. A primeira
mudança é um aprofundamento da mobilidade. Mais e mais transações serão
realizadas por meio de telefones celulares e tablets.
"O uso do celular como forma de pagamento está apenas começando",
diz Faust. A segunda mudança é menos visível, a
crescente migração de algumas tarefas para a computação em nuvem, fugindo da
arquitetura tradicional de armazenar os dados em um servidor localizado nas
dependências da empresa. Operações menos estratégicas, como controle de
pessoal e de ativos fixos, tendem a ser processadas de maneira terceirizada.
Outros
especialistas concordam. "As pesquisas mostram que os bancos em todo o
mundo devem investir US$ 17 bilhões na computação em nuvem em 2011, e esse
montante vai crescer para US$ 32 bilhões até 2104", diz Phil Walton,
vice-presidente responsável pelo setor financeiro da HP, nos Estados Unidos.
No Brasil, cerca de 70% dos gastos das instituições financeiras com
informática vão para a manutenção dos sistemas e dos modelos atuais. "Sobra
muito pouco para investir em novas tecnologias", diz Walton. "No
entanto, os clientes exigem que os serviços estejam disponíveis em qualquer
lugar e em todas as horas, o que demanda produtos diferentes dos que existem
atualmente." Para Faust, as consequências
dessas mudanças serão muito mais profundas do que parece à primeira vista.
De
acordo com ele, o crescimento do volume de transações, via telefone celular,
pode representar uma ameaça real aos bancos no
médio prazo. O raciocínio é simples. Um dos principais trunfos dos banqueiros
é o conhecimento detalhado dos hábitos financeiros de seus clientes. É
possível diferenciar rapidamente os bons pagadores, que
merecem empréstimos, dos clientes que não são confiáveis. Essas
informações, porém, deixaram de ser uma exclusividade da banca. O principal
negócio das operadoras de telefonia celular está deixando de ser a condução
de voz para dar lugar à transmissão de dados.
Cerca
de 1,5 bilhão de mensagens de texto trafegam todos os dias pelos celulares,
em todo o mundo. A tecnologia para transformar
essas mensagens em transferências financeiras já está disponível e esses
serviços já vêm sendo oferecidos experimentalmente em diversos países.
"Ao processar uma quantidade cada vez maior de transações, as
operadores telefônicas terão as mesmas informações que os bancos", diz Faust. "Não é impossível que elas usem esse
conhecimento para atuar como instituições financeiras, vendendo seguros e
emprestando dinheiro."
Especialistas
brasileiros avaliam que essas mudanças ainda vão demorar um pouco para
acontecer por aqui. "Os bancos brasileiros de varejo têm ampliado seus
investimentos em tecnologia nos últimos dois anos", diz Gustavo Roxo,
executivo da Febraban (Federação Brasileira dos
Bancos), que preside o Ciab, congresso internacional
de tecnologia bancária. No Brasil, segundo a Febraban,
o investimento médio dos bancos em tecnologia vem oscilando entre R$ 19
bilhões e R$ 22 bilhões por ano, desde 2006, e essa cifra cresce de maneira
gradual, mas contínua. O número deverá dar um salto nos próximos dois anos.
"Muitos bancos estão trocando seus sistemas operacionais, mas as
mudanças vêm ocorrendo sem rupturas profundas e deverão ser conduzidas
internamente."
Autor(es): Cláudio Gradilone
Isto é Dinheiro - 27/06/2011
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