Há uma bolha de crédito no Brasil? Ainda não
O
mercado hipotecário tem crescido rapidamente, mas de um ponto de partida
baixo.
A
experiência internacional sugere que as crises financeiras geralmente são
precedidas por um "boom" de crédito. Na verdade, há evidências
argumentando que o crescimento do crédito é o melhor alerta individual de
futura instabilidade financeira. No Brasil, o crédito de fato tem crescido
rapidamente, levando alguns observadores a argumentar que o Brasil pode estar
a caminho de uma crise como a do "subprime"
nos Estados Unidos. Alguns temem que o Brasil possa escorregar de uma
expansão vigorosa para uma quebra generalizada.Será
que o Brasil enfrenta hoje uma bolha de crédito, prestes a estourar? Minha
opinião: Ainda não. De fato, o crédito vem se expandido rapidamente no
Brasil. Mas existem vários fatores atenuantes, dando suporte à convicção de
que o desastre não é inevitável. O crédito vem crescendo rapidamente, sim,
mas a partir de um ponto de partida baixo; e tanto o Banco Central quanto os
próprios bancos parecem bem cientes dos riscos envolvidos; medidas têm sido
adotadas para esfriar as coisas; o sistema financeiro está bem capitalizado e
regulamentado; e o histórico recente no lidar com crises cíclicas é
encorajador. Como sempre, não há espaço para complacência. Supervisão
adequada, um acompanhamento atento, e regulamentação prudencial permanecem
ingredientes essenciais para evitar que uma expansão excessiva hoje se transforme
em colapso financeiro amanhã. Em outras palavras: até aqui tudo bem, mas é
sempre bom ficar de olho.
O
crédito do Brasil tem crescido rapidamente nos últimos vários anos, a um
ritmo anual de dois dígitos. Cresceu acima de 20% nas últimas leituras, mais
rápido que o intervalo de 10%-15% que o Banco Central tem mencionado como um
ritmo mais adequado. O estoque total de crédito já bate quase em 50% do PIB.
Essa razão ainda não aparece particularmente elevada para padrões
internacionais. Mas aumentou significativamente do patamar mais perto de 20%
observado há cerca de uma década, em função de maior estabilidade
macroeconômica, ampliação de horizontes de planejamento, tendência de
declínio dos juros ao longo dos anos e maior penetração do crédito, em meio a
emprego crescente e expansão da classe média.
Enquanto
o crédito concedido a indivíduos foi o que mais cresceu, o crédito para as
empresas mantém a maior participação no crédito total no Brasil.
Em
particular, o mercado hipotecário tem crescido muito rapidamente, mas de um
ponto de partida extremamente baixo, e agora representa apenas cerca de 4% do
PIB. O que ainda é muito baixo pelos padrões internacionais. É difícil falar
de uma bolha imobiliária no estilo americano de "sub-prime" (empréstimos de segunda-linha) no
Brasil, onde mal existe um mercado "prime" (primeira linha) para
começo de conversa. Se o mercado de hipotecas no Brasil quiser se aproximar
dos padrões internacionais, ele ainda terá de crescer muito rapidamente
durante muitos anos. O desafio, claro, é como administrar essa expansão de
forma prudente, evitando a acumulação de excessos e desequilíbrios ao longo
do caminho. Em relação à composição entre setor público versus setor privado,
os bancos do setor privado representam a maior parte da concessão de crédito
no Brasil, mas o papel dos bancos públicos pulou para um patamar superior
após a crise global de 2008, puxado por empréstimos agressivos pelos bancos
comerciais estatais bem como pelo BNDES.
Quanto
às taxas de juros bancárias, duas observações se destacam. Primeiro, as taxas
para tomadores finais no Brasil são extraordinariamente altas para padrões
internacionais - e são, naturalmente, maiores para indivíduos do que para
empresas, embora a diferença entre os dois segmentos pareça estar diminuindo
ao longo do tempo. As taxas de juros na ponta do tomador final são altas
porque a taxa de juro básica da economia é alta, e porque os spreads são
muito altos também. Altas taxas de juros representam um importante fator de
alívio de preocupações sobre uma bolha de crédito. Afinal, bolhas tipicamente
prosperam em um ambiente de juros baixos. De fato, a literatura internacional
sobre a dinâmica macroeconômica antes de crises indica que o crédito cresce
rapidamente e as taxas de juros são deprimidas no período que antecede crises
financeiras. Em segundo lugar, as taxas de empréstimos flutuam com a taxa
básica de juro. Isso significa que o aperto de política monetária em curso
deve achar seu caminho através do canal de crédito para encarecer os empréstimos
mais e, portanto, deve ajudar a esfriar os setores da economia mais sensíveis
a credito.
Quanto
aos prazos dos empréstimos, estes têm aumentado ao longo últimos anos tanto
para os indivíduos quanto para as empresas, apesar de recentes medidas prudenciais
em setores como financiamento de automóveis, a fim de melhor casar o prazo
dos empréstimos com a natureza do colateral. A inadimplência tem subido, e
tende a subir mais quando a economia esfria, mas ainda está longe de ser
alarmante diante dos padrões históricos. Além do mais, os reguladores, bem
como os próprios bancos, parecem plenamente conscientes dessas dinâmicas e
parecem preparados para as oscilações cíclicas. Na verdade, o governo já
introduziu várias medidas (incluindo as chamadas medidas macroprudenciais)
para esfriar a expansão do crédito.
E
o histórico recente do Brasil em lidar com períodos de desaquecimento
econômico é bastante encorajador, a julgar pelo desempenho do sistema
financeiro durante a crise financeira de 2008-2009, quando o
governo bem como bancos agiram com rapidez e de forma prudente.
Importante: o domicilio médio brasileiro não parece particularmente
alavancado, a julgar por comparações internacionais, embora as altas taxas de
juros no Brasil certamente pesem sobre a carga de pagamento de juros. Os
bancos brasileiros estão bem capitalizados e líquidos. O sistema financeiro
tem níveis de adequação de capital significativamente acima do índice mínimo
de Basileia de 8%, bem como acima do mínimo regulatório brasileiro de 11%. Enquanto
bancos menores poderão passar por um processo de consolidação ao longo do
tempo, há pouca dúvida sobre a robustez dos grandes bancos no Brasil, e a
saúde do sistema financeiro brasileiro como um todo.
Marcelo
Carvalho é economista-chefe para a América Latina do BNP Paribas