Cartões: Fidelidade premiada
Gerenciar os pontos do
cartão e as milhas aéreas como ativos é uma forma indireta de poupança que
deixa o orçamento das férias mais leve.
No feriado da
Independência, você usou algum programa de recompensa para pagar a sua passagem
aérea ou o seguro viagem? E nas últimas férias? Não? Então você está perdendo
dinheiro. Embora tal constatação possa ser um tanto incômoda, ainda dá tempo de
programar as folgas de fim de ano ou, quem sabe, o seu próximo período de
descanso. Gerenciar milhas aéreas e a pontuação do cartão de crédito como
ativos não monetários é uma forma indireta de poupança que pode virar moeda de
troca na hora de ficar, literalmente, de pernas para o ar.
Num roteiro internacional
de duas semanas, por exemplo, só a passagem aérea consome em média de 50% a 60%
dos gastos totais da viagem. Isso quer dizer que reservar algum tempo para
estudar o regulamento dos programas de fidelidade e usá-los pode tornar o
orçamento de férias substancialmente mais leve. "Muitas pessoas não se
mobilizam para entender os sistemas de acumulação e os pontos acabam expirando
sem nunca terem sido transferidos para a conta de milhagem de uma companhia
aérea", diz Aquiles Mosca, estrategista de investimentos pessoais da
Santander Asset Management e autor dos livros
"Investimento sob medida" e "Finanças Comportamentais" .
Combinar os chamados "frequent flyers" das
companhias aéreas com cartões de crédito que bonificam as despesas da fatura é
a forma mais rápida de somar pontos que poderão ser revertidos em passagens
aéreas, sugere Boanerges Ramos Freire, sócio da consultoria em varejo
financeiro Boanerges & Cia.
Nas despesas com cartões,
ele calcula ser necessário acumular ao longo do tempo cerca de R$ 24 mil para
ter direito a uma passagem de R$ 1 mil. Na ponta do lápis, isso vai representar
um bônus de 4,2%. "Na hora de negociar com qualquer lojista, se não tem
desconto para o pagamento à vista, o ideal é concentrar tudo num cartão de
crédito que permita ter um retorno na forma de passagem e que pode ter um valor
muito maior, que é o da realização de um sonho."
Considerando essas contas
do consultor, com gastos mensais de R$ 2 mil no cartão, ao longo de um ano já é
possível ser elegível à bonificação. Para otimizar o acúmulo de pontos, Aquiles
Mosca sugere que o consumidor, em vez de pagar suas compras com cheque,
dinheiro ou cartão de débito, concentre tudo no cartão de crédito, deixando
intacto o saldo da conta corrente. No vencimento, é só pagar integralmente os
gastos acumulados. É bom lembrar que faturas de cartões de crédito quitadas
fora do prazo não pontuam. Esse pequeno planejamento pode se converter em
passagens aéreas até para os orçamentos mais apertados.
Foi-se o tempo em que o
cartão de crédito era considerado no Brasil um instrumento de desorganização
financeira, diz Marcos Almeida, superintendente-executivo de Cartões do HSBC
Brasil. "Além de ser a maneira mais natural de inserção no consumo global,
o cartão é um importante aliado em viagens", afirma. O círculo virtuoso, acrescenta o executivo, é que os gastos do período de
férias, que costumam ser mais pesados do que aqueles da rotina, já somam pontos
para o próximo recesso. E sem incidência de juros no pagamento integral da
fatura. Nessa história, só não vale cair na armadilha do crédito rotativo.
Não dá para esquecer também
que há risco cambial quando se gasta em moeda estrangeira. "Sempre há a
chance de o dólar disparar e pegar o câmbio defasado contra você", alerta
Hugo Azevedo, sócio da HD educação e autor dos livros "500 perguntas
básicas" e "500 perguntas avançadas sobre finanças." Os mais
prudentes podem contar com cartões pré-pagos, como o Visa Travel
Money, abastecido em dólar ou euros e usado para débitos ou saques nas moedas
correntes.
Nos cartões de crédito
vendidos ao varejo, em geral, cada US$ 1,00 gasto se transforma em 1 ponto. E
20 mil pontos, quando transferidos para as companhias aéreas, valem uma
passagem de ida e volta dentro da América do Sul. Com metade disso, é possível
voar apenas um trecho. Nos planos oferecidos aos clientes de alta renda, cada
dólar pode virar 1,3 ponto, 1,5 ponto, ou até 2
pontos, caso do Visa Infinite ou do Mastercard Black do Bradesco.
Nesses dois casos, os
pontos acumulados têm validade de três anos, enquanto nos produtos massificados
eles costumam expirar em um ano ou dois. Nos programas de fidelidade da American Express, que trocam milhas em dez companhias
aéreas, os pontos nunca expiram, mas há anuidade de R$ 60 a R$ 90 para fazer parte do
Membership Rewards e uma
taxa entre R$ 18 e R$ 36 para fazer a transferência dos pontos.
"É preciso ter a visão
da gestão de acúmulo de ativo no tempo, como se fosse uma conta corrente, um
ativo não monetário que vai se traduzir em vantagem financeira mais à
frente", diz o responsável pela área de Produtos de cartões do Bradesco,
Márcio Parizzotto. Neste mês, os
programas de fidelidade da instituição, que envolvem as bandeiras Visa e
Mastercard, estão sendo repaginados e passarão a
prever a troca de pontos para a compra de pacotes turísticos completos no
portal da Bradesco Cartões, sem a necessidade de transferência para uma
companhia aérea.
Concentrar os gastos no
cartão que tem milhagem, sem quebrar muito em diferentes unidades, é a forma
mais fácil de administrar os programas de recompensa e não desperdiçar pontos,
diz Simone Katz, a executiva responsável pelos cartões Premium do Citi, ligados ao American Airlines Advantage, além das
bandeiras Credicard e Diners. Ela sugere que o
participante fique atento às promoções e à sazonalidade. "Há épocas do ano
que, em vez de 40 mil pontos, são necessários 30 mil para voar para os Estados
Unidos", revela a executiva.
Cliente pode pagar seguro viagem com
milhagens
Fidelidade Premiada: Companhias aéreas tornam os
programas de recompensa mais acessíveis e preveem a
troca por passagem combinando milhas e dinheiro.
Os programas de recompensa
ainda podem extrapolar a mera aquisição de passagens aéreas. No Diners Exclusive é possível acionar o seguro viagem que
atende aos requisitos do Tratado de Schengen,
necessário para quem vai para a Europa. Só aí é uma economia de cerca de US$
300, exemplifica Simone Katz, executiva responsável pelos cartões Premium do Citi, ligados ao American Airlines Advantage, além das
bandeiras Credicard e Diners. Outro benefício que é
possível acionar num roteiro de férias é o seguro de perda e roubo e a
assistência a veículos alugados, que compõem parcela significativa dos custos
de locação.
As companhias aéreas também
têm feito a sua parte, tornando os programas de milhagem mais acessíveis até
para viajantes pouco regulares. Tanto o Smiles, da
Gol/Varig, quanto o fidelidade da TAM já preveem a
troca por passagem combinando-se milhas e dinheiro. No fim de agosto, por
exemplo, era possível usar 20 mil pontos na TAM mais US$ 459 para viajar para
Paris, Londres, Milão, Frankfurt ou Madri na classe econômica. Miami ou Nova
York - com 10 mil milhas mais US$ 359,00 - era um outro
roteiro possível. "Para o passageiro isso representa a antecipação do
resgate das milhas, enquanto para as companhias aéreas é a forma de limpar o
balanço porque elas entram como passivo", diz Aquiles Mosca, estrategista
de investimentos pessoais da Santander Asset
Management e autor dos livros "Investimento sob medida" e
"Finanças Comportamentais".
Quanto maior for a antecedência do planejamento de viagem, mais os
participantes dos programas de fidelidade podem usufruir das suas milhas
acumuladas, diz o diretor de Marketing e Cartões da Gol, Murilo Barbosa. Isso
ocorre porque, em geral, as companhias aéreas reservam um determinado número de
assentos para a emissão das passagens premiadas. No recém-lançado Smiles Any Day é possível,
entretanto, voar até no mesmo dia, consumindo para isso o dobro das milhas para
os trechos requisitados. Por cinco meses, quem tem o Smiles
também pode contar com um acelerador de milhas, que estimula a transferência
dos pontos obtidos em cartões de crédito para o programa, oferecendo "upgrade" automáticos para os cartões prata (que
bonifica as milhas adquiridas em 25%), ouro (50%) ou diamante (100%).
Normalmente esse aumento de status se dá apenas com pontos referentes a milhas
efetivamente voadas.
Por Adriana Cotias, de São Paulo
Valor Econômico
http://www.andima.com.br/clipping/180909/index.html