O Brasil
fechou o ano com reservas internacionais na casa de US$ 320 bilhões.
"Nunca na história deste país" as reservas foram tão altas. Isso
também é verdade para várias outras economias, já que o mundo foi inundado
pela liquidez injetada pelos bancos centrais dos países em crise, mas este
dado acaba por corroborar a impressão de que vivemos numa economia pujante,
agora a sexta do mundo.
É
frequente a comparação das reservas brasileiras ao dinheiro que as famílias
separam, ou "reservam", para enfrentar imprevistos. Nesta imagem,
esses recursos representariam uma poupança, um valor economizado. Não é
verdade. Claro que é uma boa notícia as reservas estarem crescendo de forma
exuberante. No final de 2005, não faz muito tempo, as reservas brasileiras
estavam em US$ 53,8 bilhões. Desde então, elas cresceram nada menos que 554%.
Mais: desde o começo de 2009, e de forma crescente, as reservas superam a
dívida externa total brasileira, para júbilo e gáudio dos mais patriotas. De
devedor quebrado nos anos 80 a credor líquido do mundo agora, prestes a
"emprestar" dinheiro ao Fundo Monetário Internacional (FMI) - nada
mal. Tudo resolvido? Não exatamente.
É bom ter
reservas. A história dos anos 80 teria sido muito diferente não fosse o nível
pífio das reservas internacionais. Também o êxito do Plano Real deve muito ao
fato de que as reservas quadruplicaram entre 1991 e 1994. Mas não só essas
reservas têm um alto custo (já que o Banco Central, BC, neutraliza os reais
emitidos através da colocação de dívida cara) como elas geram, em grande
parte, uma contrapartida em reais que pode ser reconvertida em moeda
estrangeira se a percepção dos investidores se alterar. Isso porque o BC
assume, para um grande número de operações, um passivo - uma dívida - em
moeda estrangeira. Ingressos de recursos para a bolsa de valores, por
exemplo, aumentam as reservas. Mas elas podem ser reduzidas a qualquer
momento, se os estrangeiros resolverem se livrar das ações. O mesmo ocorre
com empréstimos que podem deixar de ser rolados e mesmo, em medida impossível
de ser aferida com exatidão, com os investimentos estrangeiros, já que parte
significativa dessa rubrica se refere também a empréstimos de empresas
multinacionais que arbitram taxas de juros.
Ou seja,
ao contrário do que ocorre com uma "reserva" de recursos no seu
sentido usual, as reservas internacionais do Brasil têm como contraface exigíveis que dependem dos humores do mercado
e da avaliação que os investidores internacionais fazem da economia
brasileira. Boa parte das reservas brasileiras não é, por assim dizer, dos
brasileiros. O conceito mais abrangente que mede a obrigação do Brasil com o
exterior é o passivo externo bruto (PEB). O PEB adiciona à
divida externa os investimentos diretos, os investimentos na bolsa e as
aplicações em renda fixa feitas por domiciliados no exterior. De acordo com o
Banco Central, o passivo externo alcançou no ano passado US$ 1,43 trilhão, cerca de 62% do PIB e quatro vezes mais que o total de
reservas internacionais. Desde 2005, esse passivo praticamente triplicou, no
rastro do crescente déficit em transações correntes. Nunca antes neste país o
passivo externo foi tão alto.
A
conclusão é simples. Não é o volume de reservas, mas o grau de confiança da
comunidade financeira internacional que determina a resiliência da economia
brasileira às turbulências. Essa credibilidade, por sua vez, depende da
percepção pelos investidores estrangeiros da consistência intertemporal da
política econômica, vale dizer, do equilíbrio entre medidas estruturais que
desobstruam os gargalos que impedem o aumento contínuo do produto e da renda
e iniciativas que apenas tiram proveito da conjuntura favorável de curto
prazo. Um alto volume de reservas, apenas, não garante nada. O jogo não está
ganho. O jogo nem começou.
Autor(es): Luís Eduardo
Assis
O Estado de S. Paulo - 06/01/2012