Três
anos atrás, quando a pior crise financeira e econômica desde a década de 1930
tomou conta da economia mundial, o "Financial
Times" publicou uma série sobre "o futuro do
capitalismo". Agora, depois de uma recuperação fraca nos países de alta
renda, o "FT" publicou uma série sobre "o capitalismo em
crise". As coisas parecem ter piorado. Como podemos explicar isso?
Em
2009, o mundo encontrava-se em estado de choque. Agora, apesar dos esforços
bem-sucedidos de estabilização das economias, as pessoas estão mais perto do
desespero. Algo parece estar errado com o sistema. Mas o quê, e o que precisa
ser feito?
O
capitalismo sempre mudou. Essa é sua genialidade. Os choques de hoje
justificam reformas urgentes. Consideremos sete desafios. Alguns relacionados
ao próprio capitalismo, outros ao contexto em que opera.
Estabilidade
inerente?
Um
dos maiores debates, em economia, é se uma economia capitalista moderna é
inerentemente estável. Antes da crise, a visão ortodoxa era de que seria, se tivéssemos uma economia competitiva e um banco
central que ancorasse as expectativas de inflação. Os acontecimentos têm
refutado essa visão.
O
falecido Hyman Minsky, em
sua obra-prima "Stabilizing an Unstable Economy"
(estabilizando uma economia instável), produziu, incomparavelmente, o melhor
relato de por que essa teoria está errada. Períodos de estabilidade e
prosperidade semeiam as sementes de sua queda. A alavancagem dos retornos,
principalmente mediante endividamento, é então vista como um caminho certeiro
para enriquecimento. As pessoas envolvidas no sistema financeiro criam - e
lucram muito com - tal alavancagem. Quando as pessoas subestimam os perigos,
como o fazem nos bons tempos, a alavancagem explode.
O
capitalismo sempre mudou. Essa é sua genialidade. Os choques de hoje
justificam reformas urgentes
A
atividade financeira, então, progride da fase que Minsky
denominou "hedge" (cautela), quando juros e capital são remunerados
pelo fluxo de caixa esperado, para "especulativa", em que os juros
são pagos com o fluxo de caixa, mas a dívida tem de ser rolada e, finalmente,
"Ponzi" (esquema fraudulento de
investimento do tipo pirâmide), em que tanto os juros como
o principal tem de ser pago com ganhos de capital. Soa familiar?
Certamente deveria.
Qual
é a resposta? Podemos ver três elementos se colocarmos de lado a noção de que
deveríamos retornar ao padrão ouro do século XIX ou suprimir o sistema
bancário.
O
primeiro é reconhecer que, como os críticos há muito observaram, crises são
inerentes ao capitalismo de livre mercado. Isso se deve em parte à maneira
como o capitalismo se comporta. Também se deve ao fato de que todos os
participantes, inclusive agências reguladora e até mesmo economistas, agem e
pensam pró-ciclicamente.
Segundo,
a chamada política "macroprudencial" - a
supervisão sobre o sistema financeiro como um todo - é importante. As
agências reguladoras precisam ficar de olho no acúmulo de alavancagem. Também
precisam assegurar níveis adequados de capital para absorção de prejuízos em
instituições financeiras e seus tomadores finais de empréstimos.
Finalmente,
o governo e suas agências, inclusive o banco central, têm um grande papel.
Eles agiram como forças de estabilização durante a crise. Mas eles também
atuaram como forças desestabilizadoras antes da crise: os bancos centrais
reagiram com extrema agressividade a recessões incipientes em décadas
anteriores e os governos estavam por demais dispostos a incentivar
alavancagem excessiva no setor das famílias. Esses erros graves não devem ser
repetidos.
Dando um jeito nas
finanças
O
sistema financeiro é uma parte essencial de qualquer economia de mercado. Mas
baseia-se em uma rede complexa e frágil de confiança. A lição da crise é que
essas redes tendem a ser alvo de abuso e, então, sofrer colapsos.
Mais
uma vez, qual é a resposta? É proteger o mundo financeiro da economia e a
economia do mundo financeiro. Isso exige amortecedores maiores. Se essa
mudança for feita, as disciplinas normais do mercado poderão operar como
deveriam: seria o fim de "grandes demais e interligados demais para
falir". No entanto, erros ainda serão cometidos. As pessoas são sempre
influenciadas por ondas e modas do momento. Mas se o sistema financeiro for
mais robusto, estará em melhor condição para sobreviver a tais erros.
Quais
são os elementos dos amortecedores de choques? O mais importante é muito mais
capital. As instituições financeiras centrais não devem, em longo prazo,
ficar alavancadas em proporção superior a dez para um. Um requisito adicional
é um regime de resolução que permita às autoridades agir prontamente quando
as instituições estiverem à beira de perder sua capacidade de financiar-se.
Além disso, como a comissão independente do Reino Unido para o setor bancário
(do qual o autor deste artigo era membro) também recomendou, a gestão do
sistema de pagamentos e a provisão de crédito às famílias e às pequenas e médias
empresas deveria ser mantido separado da atividade bancária de investimentos,
para eliminar subsídios implícitos.
Finalmente,
com demasiada frequência, os consumidores não conseguem compreender o que
estão comprando. O princípio "caveat emptor" - o comprador que se acautele - não
funciona. As pessoas necessitam proteção contra as práticas predatórias
notórias vistas nos EUA no caso dos empréstimos subprime
antes de 2008.
Desigualdade e
emprego
Como
mostrou a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), think-tank com sede em Paris, em relatório recente,
países de alta renda têm registrado grandes aumentos na desigualdade ao longo
das últimas três décadas. Esse fato é capturado no slogan do movimento de
protesto Ocupem Wall Street: "Nós somos os 99%". O aumento da
desigualdade é resultado de forças complexas: globalização, mudanças
tecnológicas, mercados onde "o vencedor leva tudo", nascimento de
setores novos e dinâmicos, mudanças nas normas sociais envolvendo remuneração,
ascensão do mundo financeiro e mudanças na tributação.
Muitas
dessas mudanças eram irresistíveis e são irreversíveis. Mas o nível e o crescimento da desigualdade varia,
efetivamente, de país para país, o que sugere que estruturas econômicas e
políticas econômicas modificam os resultados. A partir da década de 1980, os
EUA e o Reino Unido, por exemplo, viram uma elevação muito mais rápida da
renda real no decil superior do que no decil inferior da distribuição de renda domiciliar. Na
França, isso foi no rumo oposto.
Proteger a política
democrática contra a plutocracia é um dos maiores desafios para a saúde das
democracias
Muitos
argumentariam que a desigualdade não é importante. Para isso, há duas
respostas poderosas. A primeira é que é importante se for politicamente relevante.
E é. A segunda é que a desigualdade de consequências tem forte influência
sobre a igualdade de oportunidades, sobre a qual
muito mais pessoas se importam. É mais difícil para as crianças que crescem
em privação terem acesso a um começo razoável, na vida, do que as pessoas
criadas em condições mais felizes. O esforço torna-se ainda mais difícil se
os pais não conseguem encontrar trabalho que os remunerem adequadamente e os
jovens não têm chance disso ao entrar no mercado de trabalho.
Quais
são as respostas? Entre elas está, necessariamente, uma explícita
redistribuição fiscal dos vencedores para os perdedores, e particularmente
para os filhos dos perdedores; subsídio ou disponibilização direta de postos
de trabalho; grandes esforços para melhorar a qualidade da educação e dos
cuidados com a infância para todos, inclusive financiamento público de acesso
ao ensino superior e uma determinação no sentido de sustentar a demanda de
forma mais eficaz em meio a crises graves.
Governança
empresarial
A
instituição nuclear do capitalismo contemporâneo é a companhia de
responsabilidade limitada. É uma brilhante invenção social. Mas tem falhas
inerentes, sendo a mais importante delas a de que as companhias não têm,
efetivamente, donos. Isso as torna vulneráveis a ser saqueadas. Incentivos
supostamente concedidos para alinhar os interesses dos funcionários de mais
alto escalão com os dos acionistas, como opções (de compra) de ações, criam
incentivos à manipulação dos lucros das empresas à custa da saúde de longo
prazo da companhia. O controle pelos acionistas é frequentemente uma ilusão e
a maximização de valor para o acionista é uma armadilha, ou pior.
Qual
é a resposta? Infelizmente, não existe remédio simples. As companhias são a
melhor instituição que conhecemos para execução de empreendimentos grandes,
complexos e dinâmicos. É certamente importante assegurar que tributação e
regulamentação não obstruam outras formas de controle proprietário, como
sociedades e sociedades mútuas. É vital incentivar a criação de conselhos
diretores genuinamente independentes, diversificados e bem-informados. É sensato que pacotes de remuneração sejam transparentes e
que sejam eliminados quaisquer incentivos a formas destrutivas de
remuneração. Mas, exceto em bancos, onde o interesse social exige intervenção
nos incentivos de gestores, os governos não devem intervir diretamente.
Mudando a
tributação
O
ímpeto geral das discussões políticas, muito particularmente nos Estados
Unidos, é contra toda e qualquer tributação. No entanto, os impostos têm um
papel decisivo, para o bem e para o mal, na determinação de como funciona a
economia de mercado. Os impostos determinam os recursos disponíveis para a
disponibilização de bens e serviços públicos essenciais. Finalmente, os
impostos podem fazer uma grande diferença no que diz respeito à desigualdade.
Quais
são as respostas? Uma das tarefas mais importantes é eliminar os incentivos à
alavancagem incorporados nos impostos sobre pessoas físicas
e empresas. No que diz respeito à tributação sobre empresas, tratar
ações e dívida em iguais condições pode reduzir significativamente a
fragilidade. Outra ideia sensata é transferir a carga tributária da renda
para o consumo e a riqueza. Ainda outro objetivo é assegurar que as pessoas
mais ricas paguem impostos. Atualmente, uma série de brechas legais protegem
os ricos, inclusive a possibilidade de converter renda em ganhos de capital.
Parte disso exige cooperação em nível mundial, algo terrivelmente difícil de
obter.
Proteção à política
Entre
as maiores preocupações deve estar a relação entre
os ricos e a política democrática. Política e mercados têm,
cada um, suas esferas adequadas. O mercado se baseia nos papéis das pessoas
como produtores e consumidores. A política se baseia em seus papéis como
cidadãos. Na ausência de proteção para o mundo político, o resultado é
plutocracia. Plutocratas gostam de sistemas políticos e econômicos fechados.
Mas se têm êxito, eles minam o acesso aberto do qual dependem a política
democrática e uma economia de mercado competitiva. Proteger a política
democrática contra a plutocracia é um dos maiores desafios para a saúde das
democracias.
O
que fazer? Para proteger a política das investidas do mercado é necessária a
regulamentação do uso do dinheiro nas eleições e da disponibilização de
recursos públicos para as pessoas nelas envolvidas. É inescapável ao menos um
financiamento público parcial de partidos e eleições.
Globalização de
bens públicos
Por
fim, porém não menos importante, o capitalismo contemporâneo é globalizado.
Isso cria uma série de desafios e restrições.
Um
problema é como regulamentar as empresas que operam em vasta escala mundial.
Isso revelou-se particularmente difícil no mundo
financeiro. Há duas opções: alinhar apoio em momentos de dificuldade com
regulamentação em nível nacional e assim acabar com o sistema financeiro
global integrado ou alinhar um apoio a
regulamentação em níveis mais elevados e avançar para uma política europeia
ou mundial mais integrada.
Em
plano mais amplo, o descompasso entre o nível em que opera a política e os
níveis em que o mundo dos negócios e a economia funcionam é uma preocupação.
Entre as questões que isso levanta está como fornecer uma série de bens
públicos mundiais mediante acordo entre uma série de Estados bastante
distintos. Esses bens compreendem mercados abertos, estabilidade monetária e
financeira, segurança e, acima de tudo, proteção do ambiente.
Quais
são as respostas? Em mais longo prazo, a resposta estará provavelmente em
mais governança em nível mundial. Será isso viável? Não no futuro próximo, em
muitas áreas.
Uma
crise, já se disse, "é uma coisa terrível de se desperdiçar". O
capitalismo sempre mudou. O sistema precisa mudar agora para que possa
sobreviver e prosperar. Precisamos encontrar as reformas práticas específicas
dentro do capitalismo e rever o referencial em que atua.
Mas
capitalismo precisa continuar sendo capitalismo. É extremamente imperfeito.
Mas também somos imperfeitos. O capitalismo continua sendo um sistema
econômico excepcionalmente flexível, ágil e inovador. Pode estar "em
crise" agora. Mas continua sendo uma das invenções mais brilhantes da
humanidade. É a base da prosperidade que tantos hoje
desfrutam e a que muitos mais aspiram. Está transformando a vida de bilhões
de pessoas. Esforcemo-nos para torná-lo melhor.
(Tradução
de Sergio Blum)
Autor(es): Martin Wolf | Financial Times
Valor Econômico - 26/01/2012