A irresponsável meritocracia
Usando a inteligência para o
próprio bem, a elite é responsável por levar-nos para o abismo nos últimos anos.
Esta é uma história sobre a promessa da América. Um menino
cresce na zona rural de Illinois, neto de um agricultor que perdeu tudo na
Grande Depressão. Ele frequenta a escola secundária da pequena cidade, depois
cursa a universidade do Estado, onde é honrado com o título de membro Phi Beta Kappa (sociedade
americana que congrega estudantes universitários que atingiram o mais alto
nível nos estudos).
Ele cumpre seu serviço militar, obtém seu MBA e depois vai trabalhar num dos
bancos regionais do Meio Oeste. Numa era diferente, ele talvez permanecesse ali
durante todo o restante de sua carreira. Mas o jovem teve a sorte de viver nas
décadas de 60 e 70, exatamente quando a elite branca, protestante e anglo-saxã
estava se dissipando e as grandes instituições da Costa Leste abriam suas
portas para pessoas lutadoras de todos os lugares. Assim, nosso menino de uma
fazenda de Illinois prossegue ascendendo na carreira.
Ele muda para New Jersey e vai trabalhar no banco Goldman Sachs. Progride na
carreira e se torna CEO da instituição e muitas vezes milionário. Entra na
política, conquista um mandato no Senado e é eleito governador de New Jersey.
Quando perde a disputa para sua reeleição como governador,
retorna a Wall Street como diretor de uma empresa de serviços financeiros.
Neste momento você pode ter percebido que estou falando de Jon Corzine. Neste caso, provavelmente sabe também que esta
história inspiradora teve um final infeliz - para New Jersey, que se deparou
com um enorme desastre orçamentário quando Corzine
deixou o cargo; para sua empresa de Wall Street, MF Global, que na semana
passada pediu falência depois de perder US$ 600 milhões de clientes; e para o
antigo menino da fazenda de Illinois, que renunciou na sexta-feira
completamente desacreditado.
Mas essa súbita queda não torna a história de vida de Jon Corzine
menos emblemática da nossa era da meritocracia. De fato, sua ascensão,
irresponsabilidade e ruína são uma coisa só. Há décadas os EUA vêm abrindo
caminho no sentido de privilegiar seus jovens mais brilhantes e determinados,
selecionando os melhores e mais brilhantes jovens de Illinois, Mississippi e
Montana e colocando-os em funções de poder em Manhattan e Washington. Ao
promover os filhos de agricultores e porteiros, como também advogados e
corretores de bolsas, criamos o que parecia ser a
elite mais trabalhadora e capaz, com um alto QI de toda a história da
humanidade.
Interesses. Mas nos últimos dez anos o que vimos foi esta mesma elite nos levar
para o abismo - principalmente por usar sua inteligência para seu próprio bem.
Nas aristocracias hereditárias, as debacles costumam surgir com a estupidez e a
obstinação. Nas meritocracias, contudo, é a própria inteligência de nossos
líderes que cria os piores desastres. Convencidos de que suas capacidades
pessoais conseguem fazer frente a qualquer tarefa ou desafio, os meritocratas assumem riscos que as elites menos brilhantes
jamais contemplariam.
Inevitavelmente, quanto maior o orgulho, maior o tombo. Robert McNamara e os meninos gênios da era do Vietnã achavam que
conseguiram reduzir a guerra a uma ciência exata. Alan Greenspan e Robert Rubin
pensavam ter feito o mesmo no tocante à economia global.
Para os arquitetos da Guerra do Iraque, o Exército americano libertaria o
Oriente Médio das ciladas da História; os artífices da União Europeia
acreditavam que uma moeda comum faria o mesmo no caso da Europa. E para Jon Corzine sua sagacidade o capacitava a transformar uma
corretora de segundo escalão numa próxima Goldman Sachs, investindo muito,
apostando muito e esperando pelas recompensas.
No lugar de meritocratas irresponsáveis, não
precisamos de ignorantes incapazes, mas de líderes inteligentes que conhecem os
próprios limites, pessoas experientes cujas vidas as ensinou
o que é a prudência. Ainda necessitamos dos melhores e mais brilhantes, mas é
preciso que eles, de alguma maneira, tenham aprendido ao longo da vida a ser
mais humildes.
ROSS,
DOUTHAT, THE NEW YORK TIMES
tradução de Terezinha Martino
O Estado de S.Paulo – 10/nov/2011
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