Pouco nos une aos demais integrantes do Bric
Os países emergentes Brasil, China, Rússia e Índia, os
chamados Brics, reúnem-se pela primeira vez esta semana para definir uma pauta
de ação conjunta diante da crise mundial. O encontro será na cidade russa de
Ecaterimburgo, localizada nas montanhas do Ural e onde os comunistas trucidaram
a família do czar Nicholas II, inclusive as crianças.
Os Brics querem ter mais voz e mais peso nas decisões que afetam a todos e
sobre as quais não são consultados. Não acreditam muito em G-20 pois os mais
ricos, do G-7, aprovam as decisões do G-20, mas depois esquecem o que aprovaram
e ninguém poder fazer nada.
O encontro é importante por ser uma primeira tentativa de transformar o bloco,
que hoje é apenas um mito, uma sigla vazia, em algo mais concreto. O Brasil não
deve esperar nada a curto e médio prazos simplesmente porque são enormes as
diferenças e os interesses do pretenso bloco. Devemos ter cuidado, pois muito
nos afasta e pouco nos une. Não vai adiantar nos associarmos, como estamos
fazendo, com a Rússia para libertar o comércio exterior da armadilha do dólar,
porque isso não interessa à China. O governo chinês pode alardear que defende
outra moeda de reserva, mas nada fez, de fato, nem fará para enfraquecer o
dólar. Em março, detinha em suas reservas nada menos que US$ 767,9 bilhões e
continua comprando porque, como perguntou recentemente o presidente do seu
banco central, "onde mais vamos aplicar?".
Os chineses estão preocupados, isto sim, é com a enxurrada de títulos do
governo no mercado e, principalmente, pelo aumento do déficit fiscal, já
previsto em US$ 1,8 trilhão e que afeta a cotação do dólar. Se há um
"guardião" da moeda americana, é a China.
E tudo vai depender dela nesta reunião pelo peso de sua economia, suas
reservas, seu mercado interno e seu comércio exterior.
A CHINA LIDERA
Vejamos. Sozinho, o PIB chinês é maior que o dos outros três e a diferença é
enorme no comércio exterior. As exportações da China totalizaram US$ 990
bilhões no ano passado, dos quais US$ 250 bilhões para os Estados Unidos e um
pouco mais para a União Europeia. O Brasil exportou US$ 16 bilhões no ano
passado. É um parceiro marginal. Mais importante ainda, o governo chinês pouco
leva a sério essa história de Doha, de liberalização de comércio internacional.
Não liga muito para a Organização Mundial do Comércio (OMC) e recebe com certa
indiferença as críticas e as ações que são movidas contra ela. Não valem nada.
Nós, que ainda esperamos os resultados de ações vencidas no passado, sabemos
disso. Ganhamos e não recebemos nada. Perguntem ao Itamaraty.
PARCEIRA? NÃO. ADVERSÁRIA
Na verdade, a China não é parceira do Brasil nem dos outros três integrantes do
Bric, mas adversária e competidora feroz. Competidora porque disputa com eles
de forma acirrada e ganha espaço cada vez maior nos mercados americano e
europeu. Adversária porque substitui a produção local com seus produtos
exportados a preços baixos conseguidos por meio de subsídios (que se dane a
OMC!) e mão de obra aviltada.
Com isso, desaloja sem piedade produtores nacionais, uma dupla ação que entrava
o crescimento dos seus "parceiros".
Isso é válido, também, para os Estados Unidos e a Europa, só que eles têm peso
para retaliar e se defender. Nós, não.
ENTÃO, REUNIR PARA QUÊ?
É uma boa pergunta. Para desenhar uma agenda. Neste primeiro encontro, a agenda
é mínima. Tem quatro tópicos:
1. Discutir a crise financeira;
2. Aumentar a representatividade dos emergentes no Fundo Monetário
Internacional (FMI) e remodelá-lo. (O Brasil é a 10ª economia mundial e tem
1,38% dos votos no Conselho do FMI. A Bélgica, que é a 20ª economia do mundo,
tem 2,9%);
3. Questões ambientais;
4. Montar uma agenda de diálogo permanente.
O que eles querem, de fato, é ter mais voz nas discussões internacionais,
principalmente no que se refere a questões econômicas. "Agora somos
grandes - representamos 15% do PIB mundial e temos 42% das reservas mundiais -
e queremos falar de igual para igual com os EUA e a Europa", vão dizer na
Rússia. "Eles não podem mais fazer o que quiserem sem nunca nos consultar."
O vice-ministro das Relações Exteriores da China, Li Jinzhang, afirmou nesta
semana que o objetivo do presidente Hu Jintao na reunião é "discutir um
meio de aumentar a voz e a representação dos emergentes".
EUA JÁ RESPONDERAM
A reação dos EUA veio logo. Natalie Wyet, porta-voz do Tesouro, afirmou que os
emergentes são bem-vindos, mas que devem aumentar não apenas seu peso no
sistema internacional, mas também suas responsabilidades. Ou seja, no futuro
vocês não vão poder continuar só se queixando.
A China, por exemplo, tem de liberar seu câmbio e abrir amplamente sua economia
que ainda está nas mãos de um Estado totalitário e repressivo. E a Rússia? Bem,
essa é outra historia também ainda a ser contada...
BRASIL SOZINHO
Nessa questão toda, estamos nus e descalços entre os emergentes. Dos quatro, um
já está no grupo dos ricos, o G-8. É um rico pobre com um regime político
caminhando para o indefinido. A Rússia e a China já estão no Conselho de
Segurança da ONU. Nós não. Todos, exceto o Brasil, têm o poder dissuasivo das
armas nucleares. Resumindo, somente nos últimos quatro anos começamos a entrar
no cenário internacional, onde há pouco espaço e teremos de conquistá-lo
enfrentando exatamente os nossos amigos emergentes. Afinal, o Brasil ainda representa
apenas pouco mais de 1% do PIB e do comércio mundial. Estamos apenas começando
e deveríamos escolher com muito cuidado os nossos parceiros sem fazer
concessões que prejudiquem outros países mais importantes do que eles.
Alberto Tamer
O Estado de S.Paulo
http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20090614/not_imp386925,0.php
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