A placa teutônica
E se a
Alemanha sair do euro? A pergunta, imponderável há poucos meses, está agora
na mente de muitos analistas, economistas, investidores, gestores de política
econômica e, talvez, mais importante do que tudo e todos, do povo alemão. Não
é muito difícil imaginar o motivo. Pensem numa senhora de meia-idade, nascida
nos tempos da cortina de ferro da Alemanha Oriental. Chamemo-la de Angela. Angela conhece bem a
penúria daqueles anos, seja porque viveu diretamente a experiência da
dominação soviética, seja porque morava bem ao lado. Com essa vivência, Angela consegue imaginar as dificuldades que assolam
muitos países da região. Porém, ela também sabe que, se o seu país continuar
na camisa de força do euro, o futuro das gerações mais jovens de sua família
estará comprometido. Será que terão acesso à saúde gratuita, à educação de boa
qualidade, ao mercado de trabalho? Ou será que terão de pagar impostos
elevados e repartir as suas minguadas economias com os habitantes de outros
países, enquanto penam nas filas dos hospitais e assistem à corrosão da renda
pela inflação?
Eurobônus
ou emissão de moeda pelo Banco Central Europeu (BCE) para salvar os países
que já não conseguem mais se financiar? Pouco
importa. A conta é da Alemanha, das diversas Angelas,
angustiadas pelas dúvidas crescentes em relação ao futuro. É por isso que a
outra Angela, a Merkel, a chanceler do país,
insiste em rechaçar as propostas de "socialização das perdas"
implícitas nos eurobônus ou no uso do BCE como emprestador de última
instância. Mas o que tem a oferecer em troca é difícil, leva tempo, mais
tempo do que os mercados estão dispostos a dar. A "barganha" de
Merkel é a convergência para uma união fiscal entre os países do euro, que
exige a aprovação dos diversos Parlamentos para ter legitimidade. E não é
qualquer união fiscal. Tem de seguir os princípios da Alemanha, com regras
claras e rígidas para os limites de déficit público e endividamento e que, se
infringidas, submeteriam o transgressor a duras penalidades.
Não fosse
a Europa uma região marcada por um histórico tão turbulento, pelos rancores
das guerras, talvez a barganha de Merkel tivesse alguma chance de sucesso -
afinal, faz todo o sentido. No entanto, a opinião pública de vários países já
se mostra refratária às propostas de "germanização", encaradas com
grande desconfiança, trazendo à lembrança memórias dolorosas de outro tipo de
"germanização". Para muitos, a Alemanha já é a "vilã" do
euro. Portanto, os argumentos de que o capital político investido pelo país
na criação do euro e de que o custo da percepção negativa dos demais membros, se resolvesse sair da união monetária, impediriam esse
desdobramento têm menos peso hoje do que tiveram até recentemente.
Outros
argumentos usados para refutar a possibilidade de saída da Alemanha são o de
que isso não interessaria ao país, já que o marco alemão se valorizaria muito
diante das demais moedas, prejudicando a indústria exportadora, e o de que a
própria saída da maior economia da eurozona
desmantelaria a moeda única. No primeiro caso, vale lembrar que, embora a
economia alemã seja forte, as contas públicas do país não são muito melhores
do que as da França - a razão dívida/PIB é bem semelhante -, o que limitaria
a valorização do marco. Já no segundo, a saída da Alemanha removeria os
obstáculos às intervenções do BCE e à desvalorização mais acentuada do euro,
ambas necessárias para auxiliar os países remanescentes.
Enquanto a
crise europeia se agrava, os argumentos, os limites de tolerância, os custos
políticos e econômicos de diversos cenários se alteram. O antes inimaginável
cenário da placa teutônica se desgarrando das terras da moeda única tornou-se
possível, quiçá até provável.
Gerhard
Schröder, chanceler da Alemanha entre 1998 e 2005, disse certa vez que
"a Alemanha é a favor da integração precisamente porque a dominação não
interessa". Hoje, não há uma contraposição entre os dois conceitos.
Integração com a Alemanha tornou-se sinônimo de dominação. Será isso
realmente aceitável para todos os envolvidos?
O Estado de S. Paulo - 02/12/2011