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>> Dicas >> Turbulência >> A Segunda Grande Contração
A Segunda Grande Contração


Grandes Contrações, em oposição às recessões, são eventos muito raros, ocorrendo uma vez a [br]cada 70 ou 80 anos

04 de agosto de 2011

Por que todo mundo ainda se refere à recente crise financeira como a “Grande Recessão”? Afinal essa expressão indica um diagnóstico errôneo e perigoso dos problemas enfrentados pelos Estados Unidos e outros países que conduz a prognósticos equivocados e políticas ruins.

Quando se fala em “Grande Recessão” a impressão que se tem é de que a economia está seguindo os contornos de uma típica recessão, apenas mais severa – algo como um resfriado realmente forte. É por isso que, durante esta desaceleração econômica, os especialistas em prognósticos e analistas que costumam fazer analogias com as passadas recessões no pós-guerra, entenderam a questão de modo equivocado. Além disso, muitos legisladores confiaram na tese de que realmente se tratava de uma profunda recessão que poderia ser controlada por meio de instrumentos de política convencionais, como a política fiscal ou volumosos programas de ajuda financeira.

Mas o real problema é que a economia global está extremamente afetada por um superendividamento e não existe uma solução rápida para o problema sem que seja implementado um plano para transferir recursos de credores para devedores, seja por meio de calotes, restrição financeira ou inflação.

Um termo mais preciso, embora menos tranquilizador, para a atual crise, é “Segunda Grande Contração”. Carmen Reinhart e eu propusemos esse termo em nosso livro, publicado em 2009, This Times is Different (Desta vez é diferente), baseado no nosso diagnóstico da situação, de que se trata de uma profunda crise financeira e não de uma profunda recessão.

A primeira grande contração, naturalmente foi a Grande Depressão, como afirmaram Anna Schwartz e o falecido Milton Friedman. E a contração não se verifica apenas nas áreas da produção e emprego, como ocorre numa recessão normal, mas também nos casos da dívida e do crédito, e o desendividamento geralmente leva muitos anos para ser concluído.

Por que discutir semântica? Bem, imagine que está com pneumonia, mas acha que é apenas um resfriado forte. Facilmente poderá não tomar o medicamento certo e com certeza vai esperar que a vida retorne ao normal muito mais rápido do que deve ocorrer na realidade.

Numa recessão convencional, a retomada do crescimento implica um retorno razoavelmente rápido à normalidade. A economia não só recupera o terreno perdido como, em um ano, no geral retoma a tendência de crescimento a longo prazo.

As sequelas de uma crise financeira profunda típica são completamente diferentes. Como Carmen Reinhardt e eu demonstramos, geralmente é preciso mais de quatro anos para uma economia atingir o mesmo nível de renda per capita que registrava no seu pico antes da crise.

Até agora, em toda a gama de variáveis macroeconômicas, abrangendo a produção, emprego, dívida, preços dos imóveis e até mesmo ações, nossos parâmetros quantitativos baseados nas grandes crises financeiras no pós-guerra provaram ser bem mais acurados do que a lógica convencional da recessão.

Muitos analistas afirmam que o estímulo fiscal fracassou não porque foi equivocado, mas porque não foi grande o suficiente para combater uma Grande Recessão. Ocorre que, na Grande Contração, o problema número um é a dívida excessiva. Se os governos que mantêm ratings elevados tiverem que utilizar os escassos recursos de modo eficiente, o método mais eficaz é estimular os refinanciamentos e reduções da dívida.

Por exemplo, os governos podem tornar mais fáceis as baixas contábeis de hipotecas em troca de uma parcela de uma valorização futura do preço de uma casa. Uma estratégia análoga pode ser adotada para os países.

Inflação seria a solução. Por exemplo, eleitores dos países ricos na Europa talvez possam ser persuadidos a aprovar um pacote de ajuda muito mais elevado para a Grécia (um que na verdade seja robusto o bastante para surtir efeito), em troca de reembolsos maiores em 10 anos a 15 anos se a economia grega crescer.

Existe alguma alternativa para anos de reviravoltas e indecisão política? Em minha coluna publicada em dezembro de 2008, afirmei que a única maneira prática para diminuir esse doloroso período de desendividamento e crescimento lentos seria um aumento sustentado da inflação, digamos 4% a 6% durante vários anos. Naturalmente a inflação é uma transferência injusta e arbitrária de renda de poupadores para devedores. Mas é a estratégia mais direta para uma recuperação mais rápida. Enfim, isso ocorrerá de uma maneira ou outra, como a Europa está aprendendo a duras penas.

Para alguns observadores, qualquer sugestão de um aumento de inflação, mesmo que modesto, é uma heresia. Mas as grandes contrações, em oposição às recessões, são eventos muito raros, ocorrendo uma vez a cada 70 ou 80 anos. São períodos em que os bancos centrais precisam usar um pouco da credibilidade que acumularam nas fases normais da economia.

O grande ímpeto para adotar a tese da Grande Recessão se verificou porque muitos analistas e legisladores tinham em mente o conceito errado. Infelizmente agora ficou muito claro como erraram.

Reconhecer que estamos usando um conceito errôneo é o primeiro passo para encontrar uma solução. A história mostra que as recessões com frequência são renomeadas quando a fumaça se esvai.

Talvez hoje a fumaça desapareça um pouco mais rápido se nos desfizermos rapidamente desse rótulo e o substituirmos por algo mais apropriado, como Grande Contração. É tarde demais para desfazer os prognósticos incorretos e as políticas erradas adotadas na esteira da crise financeira, mas não é tarde para agir de uma maneira melhor. / TRADUÇÃO TEREZINHA MARTINO

Kenneth Rogoff, project syndicate – o estado de s.paulo - é professor de economia e políticas públicas na universidade harvard e ex-economista-chefe do fundo monetário internacional ( FMI)






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