Um princípio do capitalismo
Na hora do lucro do banco, vale o mercado; na hora dos maus
negócios, vale a socialização dos prejuízos
Capitalismo implica que os
cidadãos e as empresas se responsabilizem por suas ações. Lucros e prejuízos
são igualmente assumidos por aqueles que realizam seus empreendimentos, fazendo
determinadas escolhas.
Acontece que estamos, atualmente, vivenciando determinadas práticas
capitalistas que se voltam contra o espírito do próprio capitalismo. O mercado
financeiro tem sido uma amostra disso, com supostas alegações de que bancos não
podem quebrar, apesar de maus negócios feitos, e, inclusive, altos executivos
ganhando vultosos salários e dividendos. Na hora do lucro do banco, vale o
mercado; na hora dos maus negócios, vale a socialização dos prejuízos.
Ressaltemos, nesse contexto, um exemplo nacional. Os bancos brasileiros, para
justificarem o alto "spread" cobrado dos tomadores de empréstimos -que faz do Brasil, sétimo PIB do mundo, o
segundo colocado em taxa de juros, só perdendo para Madagascar (129º PIB)-,
usam do argumento de que seu valor elevado se deve aos inadimplentes.
Ou seja, os que não pagam aos bancos, por uma razão ou outra, têm, de certa
forma, o cálculo dos seus débitos transferidos para os que pagam, os
adimplentes.
A situação é propriamente escandalosa, pois o banco se desresponsabiliza de um
empréstimo malfeito e transfere essa responsabilidade para os que pagaram.
Se os bancos fizeram um mau negócio, deveriam se responsabilizar pelo prejuízo,
não aumentando o juro dos que pagaram regularmente as suas contas.
Em vez disso, o que acontece? Graças aos "spreads" cobrados, os
bancos mantêm ou aumentam os seus lucros, pagando bônus régios aos seus
dirigentes e acionistas. Há aqui um princípio de irresponsabilidade que causa
dano aos próprios princípios do capitalismo.
Na verdade, o argumento utilizado para justificar os "spreads" é um
argumento não capitalista, à medida que o capitalismo está assentado na
liberdade de escolha e na responsabilização das ações, seja no âmbito
individual, seja no âmbito empresarial.
É fato que o baixo volume de crédito disponível empurra para cima o
"spread". Mas, para tornar o cenário ainda mais grave, esse reduzido
volume é concentrado em poucas operações de grande porte
-como fez o BNDES no governo passado. Tudo, sempre, direcionado para
diminuir o risco das instituições bancárias na concessão de empréstimos.
Não surpreende, nesse sentido, que a imagem dos bancos seja tão ruim perante a
opinião pública. Termina reforçando os preconceitos contra o capitalismo e
contra os lucros como apropriação indevida.
No caso em questão, trata-se, de fato, de uma apropriação indevida, e, para
além dela, de um sério dano causado por empresas capitalistas ao próprio
espírito do capitalismo. Capitalismo sem risco não é capitalismo propriamente
dito.
Do ponto de vista moral, cria-se, dessa maneira, uma casta de irresponsáveis,
que não pagam do próprio bolso os prejuízos que sofrem.
Se os bancos têm grande número de inadimplentes, o problema é deles -e não dos que assumem suas responsabilidades.
Façamos uma analogia para tornar o argumento ainda mais claro. O que acontece
com um empresário, micro ou grande, que possui clientes inadimplentes? Ele deve
arcar com o prejuízo, podendo, mesmo, ir à falência. Ele não pode transferir
seu prejuízo aos seus clientes que pagam as contas em dia.
Os produtores rurais também enfrentam o constante descasamento de preços de
venda e custos de produção, sem nenhum tipo de seguro. Ou seja, o empresário,
qualquer que seja o seu porte, urbano ou rural, arca com os riscos da sua atividade.
O mais surpreendente é que os governos não só aceitam os argumentos dos
banqueiros e de seus executivos como ainda tomam decisões transferindo recursos
dos contribuintes para salvar esses mesmos bancos cujos créditos podres ameaçam
sua existência.
Os governantes, em nome do "bem público", extorquem do distinto
público recursos que não lhes pertencem: os recursos dos contribuintes.
KÁTIA ABREU, 49, senadora (TO) e presidente da CNA (Confederação da Agricultura
e Pecuária do Brasil)
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mercado/me1510201125.htm
|