Os alemães estão no meio da crise europeia, e mesmo assim sua
economia mantém o vigor, a confiança e o poder para
afetar o mundo, incluindo o Brasil. Qual é o segredo?
O continente europeu continua instável. Períodos de relativa
calmaria são logo interrompidos por sinais de que a crise econômica do
continente pode se agravar ainda mais – e rapidamente. Como se anunciasse um
grande terremoto para breve, o Velho Continente continua sofrendo com
pequenos, mas regulares, tremores. Menos a Alemanha. A economia alemã, mesmo
no centro da crise europeia e rumando para uma possível recessão em 2012
(após um belo crescimento de 3% em 2011), segue digna de confiança de
investidores. Muitos se perguntam por quê. Há historiadores que recuam ao ano
9 na busca da origem de uma força singular dessa nação. Guerreiros de
diferentes tribos se agruparam na floresta fechada e lamacenta de Teutoburgo, no território que o Império Romano chamava de
Germânia. Sob o comando do chefe Hermann (ou Armínio, na versão latina), eles
se esconderam e emboscaram três legiões romanas, aniquilando 15 mil soldados.
Os romanos recuaram e nunca mais tentaram seriamente conquistar a Germânia.
Ali floresceriam leis e costumes muito característicos – e um país que viria
a se chamar Alemanha.
A mais recente demonstração de confiança nos alemães foi dada na
sexta-feira 13 de janeiro, quando a agência de classificação de risco
Standard & Poor"s
passou a considerar nove países europeus menos confiáveis como pagadores de
dívidas, incluindo a França, sem tocar na nota que caracteriza a Alemanha
como porto seguro econômico. Logo no início do ano, o país havia recebido
outra deferência. A maior empresa de administração de recursos do mundo, a
americana Black Rock, afirmou que a crise na Europa poderia piorar muito (um
cenário que a empresa chama de Nêmesis, a deusa
grega da punição e da vingança). E listou quais seriam os pouquíssimos
investimentos seguros no mundo nesse caso: estocar ouro e emprestar dinheiro
para alguns países, como os Estados Unidos, o Japão e – adivinhou? – a
Alemanha.
Os feitos e a reputação da economia animaram o país, nos últimos
anos, a clamar por seu lugar de volta na política global. Desde a
reunificação, em 1990, a Alemanha passou a atuar em frentes diversas – compôs
a força internacional de combate aos talebans no
Afeganistão, participou de negociações entre israelenses e palestinos e
negocia com outras potências para se tornar membro permanente do Conselho de
Segurança da ONU. Mas o que fizeram os alemães para desfrutar esse status,
mesmo sem resolver a crise europeia? Essa questão pode ser dividida em
algumas perguntas-chave, reveladoras sobre o que aconteceu naquela parte do
mundo desde que os germânicos impediram o avanço romano, 2 mil anos atrás.
1. Por que confiar na Alemanha?
O hábito de economizar faz parte da cultura alemã. A poupança das famílias
equivale a 11,3% do PIB, bem acima dos 4,5% do Brasil e da maioria dos países
ocidentais. O sociólogo e economista alemão Max Weber, em 1905, associou essa
obstinação em trabalhar e acumular, assim como a aversão ao perdularismo, à ética protestante. Mas isso não significa
que os bancos e o governo sejam especialmente prudentes. Quatro grandes
bancos alemães já precisaram de ajuda governamental para não quebrar na atual
crise (alguns deles ainda devem precisar de novo socorro). O governo também
andou fora da linha. "Entre 2000 e 2009, só em cinco anos o deficit da
Alemanha ficou dentro do limite de até 3% do PIB,
estabelecido pela Zona do Euro. A Finlândia e a Suécia trabalham com deficits menores", diz o economista Hartmut Sangmeister, da Universidade de Heidelberg. Os credores
confiam no governo em Berlim não porque ele exiba situação financeira
impecável, mas pela resolução e rapidez com que ele age, quando necessário.
O gasto público já vinha sendo restringido e crescia em ritmo
inferior ao do conjunto da economia desde 2004. Em 2010, por causa da crise,
o governo aumentou o esforço, com aumentos de impostos (a competitividade do
país é organizada para resistir a esses impactos) e cortes de gastos (as
medidas incluem a demissão de 15 mil funcionários públicos).
Graças ao esforço de sobriedade, a dívida pública está em queda mais rápida
que a esperada, e o saldo negativo das contas voltou para abaixo dos 3% do
PIB.
2. Como os alemães mantêm os empregos?
Depois da reunificação, em 1990, a Alemanha teve de fechar empresas
ineficientes da metade comunista. O nível de desemprego aumentou e chegou a
picos de 12% da população ativa. Nos últimos anos, porém, o índice passou a
cair e, em dezembro, chegou a uma baixa recorde de 6,8%, mesmo durante a
crise no continente.
Os economistas Michael Burda, da
Universidade Humboldt, de Berlim, e Jennifer Hunt, da Universidade McGill, no Canadá, listaram algumas explicações. Antes da
crise, as empresas alemãs já mostravam comedimento – contratavam devagar e
davam aumentos que acompanhavam os ganhos de produtividade. Esses dois
fatores já inibiriam as demissões. Mas os alemães conseguiram reduzir o
desemprego durante a crise – mesmo com cortes de gastos públicos, que
normalmente esfriam a economia – também por causa da reforma trabalhista,
iniciada em 2003. Os contratos se tornaram mais flexíveis, para contemplar,
por exemplo, empregos por tempo determinado. Os "bancos de horas"
se tornaram difundidos e são levados muito a sério – horas trabalhadas a
mais, até certo limite, podem ser convertidas em horas de folga futuras, o
que dá flexibilidade às empresas para produzir menos sem demitir. A poderosa
indústria alemã não defendeu sozinha o emprego no país.
"A Alemanha criou no setor de serviços muitos empregos flexíveis, com
meia jornada", diz o sociólogo alemão Werner Eichhorst,
diretor do Instituto de Estudos do Trabalho, em Bonn. A mão de obra alemã
ainda se beneficia de uma ótima educação, que produz um grande número de
trabalhadores altamente produtivos e especializados – valorizados pelas
empresas.
3. Como eles resistem à China?
O saldo comercial positivo da Alemanha com o resto do mundo – o que o país
recebe pelas exportações, menos o que paga pelas importações – foi de € 154
bilhões em 2010. No mesmo período, o saldo do Brasil foi de um décimo desse
total, e os Estados Unidos tiveram saldo negativo equivalente a mais de € 600
bilhões. O resultado impressionante da Alemanha foi obtido no comércio com
234 países e territórios, ou seja, o mundo inteiro. E decorre,
principalmente, de dois fatos.
Primeiro, grande parte
da indústria da Alemanha ainda consegue evitar a concorrência chinesa, porque
exporta bens intermediários – aqueles comprados por empresas, não por indivíduos.
Enquanto o resto do mundo tenta, em vão, competir com a China na produção de
calçados, roupas, brinquedos, eletroeletrônicos e bugigangas em geral, os
alemães correm por fora, abastecendo o planeta com produtos químicos,
turbinas, geradores, máquinas pesadas e tudo mais que seja necessário para
colocar uma fábrica em funcionamento (itens desse tipo correspondem a quase
metade da exportação alemã). Por causa da expansão das empresas em países
como China e Brasil, a demanda por esses produtos fora da Zona do Euro
cresceu 25% no ano passado, segundo a economista Dorothea Lucke,
do Instituto Alemão de Pesquisa Econômica.
A fórmula não é à prova de falhas, já que a China também avança
rapidamente para a produção de máquinas industriais. A economia alemã conta,
no entanto, com um segundo trunfo: o país reúne muitas empresas pequenas e
médias, que empregam muitas pessoas e são ágeis para se adaptar às
circunstâncias. "As pequenas e médias empresas na Alemanha são muito
fortes, muito competitivas. Elas trabalham sempre de olho no mercado global,
para exportar", afirma Antônio Corrêa de Lacerda, coordenador do Comitê
de Economia da Câmara Brasil-Alemanha e economista-chefe da Siemens.
4. Como a Alemanha mantém os benefícios sociais?
O império alemão criou, a partir de 1883, direitos
como seguro-invalidez e aposentadoria por idade. Hoje, o sistema inclui
auxílios de custo para moradia, educação e cuidados infantis. Para
sustentá-los, a carga tributária da Alemanha supera os 40% do PIB. Manter as
contas do país sob controle exigiu que o sistema
evoluísse. Ele chegou a consumir 33% do PIB. Hoje está perto de 26% e em
avaliação – os programas sociais devem perder mais € 40 bilhões até 2014. A
mudança leva em conta o envelhecimento da população. O limite mínimo de idade
para aposentadoria começa a aumentar em 2012, um mês por ano, até chegar a 67
anos em 2035. O gasto com serviços de saúde sobe mais lentamente que nos
demais países ricos devido a uma reforma aprovada em 2007 – antes da crise
global. Para um povo com fama de inflexível, os alemães, quem diria, têm se
mostrado mestres do jogo de cintura.
Autor(es): MARCOS CORONATO.
COM NATHALIA PRATES
Época - 23/01/2012