Apesar
de "resiliente" à crise na Europa,
"o Brasil não é uma ilha" e sofre seus impactos, nas palavras de
Stephen Poloz, vice-presidente na área de
financiamentos da EDC (Export Development
Canada), a agência de crédito à exportação do
governo do Canadá. "O mundo todo está conectado", frisou, ontem, em
palestra no hotel Intercontinental, em São Paulo, durante café da manhã promovido pela
Câmara de Comércio Brasil Canadá.
Segundo
ele, um canal de contágio importante é o do crédito, que tende a continuar
contido daqui para a frente. "O novo normal no
mundo é os bancos internacionais continuarem mais conservadores do que o
normal", afirmou, para completar: "o Brasil precisa de dinheiro
para tornar realidade o sonho de seus investimentos em infraestrutura".
Em
sua avaliação, o mercado de crédito global vai demorar anos para retomar os
níveis de antes da crise. "A liquidez está mais apertada no mundo
todo", diz ele, para quem o papel dos governos tende a ser mais
importante no financiamento internacional. Ele lembra, porém, que na crise europeia os países já começam com dívidas públicas bem
superiores às verificadas em 2007.
Os
riscos para o sistema financeiro internacional continuam elevados, no seu
entender. "Há muita dúvida sobre qual banco está mais exposto à dívida
dos países com dificuldades fiscais."
Para
Poloz, a crise de dívida na Europa mostra que a
recuperação econômica mundial continua frágil depois da maior recessão
sincronizada desde os anos 30. O US$ 1 trilhão em salvamento para o euro
"é muito dinheiro", mas, mesmo com todos esses recursos, os
problemas da Grécia e de outros países em situação fiscal delicada estão
longe de estar resolvidos.
Para
ele, essa fraqueza nas contas públicas de diversas nações é uma das
consequências do estouro da bolha de crédito imobiliário nos Estados Unidos,
em 2007 e 2008. Segundo Poloz, alguns dos efeitos
de uma recessão dessas proporções só são percebidos um ou dois anos depois,
quando as receitas patinam em níveis baixos. "A Grécia está quebrada e
não é o único país nessa situação dentro e fora da Europa", afirma.
Segundo
lembra, a recessão trouxe aumento do desemprego nos países ricos e queda nas
receitas não apenas de pessoas físicas e empresas, mas também de países. E os
ajustes fiscais a serem implantados - a Grécia precisa
transformar um déficit público de mais de 10% do PIB em superávit
primário (sem incluir os juros) de 6% a 7% em dois anos - acabam dificultando
o crescimento e reduzindo ainda mais as receitas.
"Ainda
não saímos do buraco criado com a recessão", afirma ele, lembrando que a
produção econômica mundial e o emprego nos países ricos ainda não retomaram
aos patamares de antes da crise. "O novo normal é que o crescimento
econômico mundial será menor do que se espera neste e nos próximos
anos", defende. "E as expectativas vão ter de se ajustar a essa
realidade", diz. "O mundo será mais difícil daqui para a frente do que foi nos últimos dez anos",
afirma ele.
Autor(es): Cristiane Perini Lucchesi, de São
Paulo
Valor
Econômico - 13/05/2010