São fatos
assustadoramente recentes. Afinal, foi há apenas 16
anos que o País se livrou do devastador regime de alta inflação com que penou
por uma década e meia. E, no entanto, a memória das enormes dificuldades que
tiveram de ser enfrentadas nesse período tão longo vem sendo rapidamente
perdida. Fascinado com o futuro, o País parece propenso a se esquecer do
passado recente e das inestimáveis lições que dele pode extrair. O novo livro de Miriam Leitão,
Saga Brasileira, lançado pela Editora Record, é um esforço notável de
resgate dessa memória.
Ano após
ano, tenho notado que meus alunos se mostram cada vez menos informados sobre
a real extensão das dificuldades que o descalabro macroeconômico dos anos 80
trouxe ao País. Quando faço menções a esse período - manancial inesgotável de
patologias que merecem atenção -, logo se interessam em saber mais detalhes e
tentar compreender como as coisas puderam chegar ao ponto a que chegaram. Mas
o interesse que demonstram deixa transparecer surpreendente distanciamento. É
o mesmo interesse que poderiam ter demonstrado pela hiperinflação de 1923 na
Alemanha. Sem o mínimo de comoção que se poderia esperar de quem se dá conta
de que eventos tão graves ocorreram, de fato, no Brasil, e há muito pouco
tempo. Eventos dramáticos que tantos transtornos trouxeram à geração de seus
pais, mas sobre os quais não se haviam inteirado. É como se - em casa, no
colégio e na mídia - tivessem sido poupados dessa memória incômoda.
O livro de
Miriam Leitão é um antídoto contra tal esquecimento. Quem puder deve lê-lo de
capa a capa. Quem não tiver tempo para enfrentar as quase 500 páginas pode
ler capítulos isolados. Um bom ponto de partida são as 34 páginas do capítulo
8, que trata da fase mais virulenta do regime de alta inflação, no final do
governo Sarney. Ou as 60 páginas do capítulo 9, sobre o Plano Collor. É bem
provável que quem começar por aí fique tentado a ler muitos outros capítulos.
Por sorte,
trata-se de um livro bem diferente do que teria sido escrito por um
economista. Longe de se ater ao exame frio dos dados, a análise vem
entremeada com rico mosaico de relatos de dificuldades concretas que o longo
convívio com o regime de alta inflação impunha a pessoas de carne e osso. E o
clima de incerteza e sobressalto que então se vivia reaflora com nitidez,
quando rememorado por uma jornalista que recorrentemente se viu obrigada a
tornar inteligível para seus leitores, da noite para o dia, a interminável
sequência de medidas arbitrárias envolvidas em planos de estabilização com
efeitos cada vez mais efêmeros.
Mas o
livro não se resume à análise da deprimente situação a que o País chegou nos anos 80. Em paralelo, Miriam Leitão relata também uma história
profundamente edificante: a do sucesso da mobilização da sociedade brasileira
com a ideia de extinguir de vez o regime de alta inflação. Um caso exemplar
de ação coletiva eficaz, em torno de um esforço de construção institucional
que desemboca no Plano Real e ganha força com o círculo virtuoso que se
instala no processo político a partir de 1994. Sem memória nítida da real
extensão do descalabro macroeconômico dos anos 80, o País estará fadado a se esquecer também desse notável esforço de ação coletiva, do
qual deveria se orgulhar.
Em que
medida esse esquecimento precoce vem sendo estimulado pelo
discurso oficial que se consolidou em Brasília nos últimos oito anos e
meio? Tendo desempenhado um papel lamentável, de permanente obstrução, no
intrincado esforço que culminou na estabilização da economia, o PT jamais
teve interesse em rememorar as terríveis dificuldades impostas pelo regime de
alta inflação e, muito menos, em ressaltar os méritos desse esforço. Em
Brasília, a história econômica do Brasil foi reinicializada. 2003 passou a ser o ano zero. É hora de deixar para trás as
mesquinharias partidárias e aguçar a memória do País sobre os 25 anos
anteriores, que encerram lições para a política econômica que jamais podem
ser esquecidas.
Autor(es): Rogério L.F.
Werneck
O Estado de S. Paulo - 27/05/2011
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