Cético
sobre pacote, economista acha que custo de ficar no euro pode ser alto demais
Para
o economista Kenneth Rogoff, da Universidade
Harvard, é altamente provável que um ou mais países periféricos da região do
euro acabem abandonando a moeda única.
Ex-economista-chefe do Fundo Monetário
Internacional e coautor com Carmen Reinhart de um
livro de grande prestígio sobre 800 anos de crises financeiras, Rogoff é altamente cético sobre os efeitos do pacote de
salvamento do euro desta semana. Ele acha que, para a Grécia e outros países
periféricos do euro, o custo de ficar na união monetária é muito mais alto
que o de sair.
Rogoff falou por telefone ao Estado,
enquanto viajava de trem de Nova York para Boston.
O
acordo europeu foi um passo na direção certa?
Foi
um passo, mas talvez apenas o suficiente para comprar, quem sabe, meses,
semanas, algum tempo. Há não apenas muitas perguntas não respondidas, como
também há muitas perguntas que nem foram feitas. Em primeiro lugar, uma
grande parte do negócio é a extensão do Fundo Europeu de Estabilidade
Financeira (Feef). Parece que eles estão sentados
em volta da mesa, dizendo: "Uma vez que nenhum de nós quer pagar por
isso, quem sabe a China não quer?" Eu posso imaginar que os chineses
colocarão uma pequena quantidade de dinheiro, talvez o suficiente para criar
a expectativa de que pode vir mais, mas não acho que a China possa de alguma
maneira ser a solução. Se os gregos, portugueses, irlandeses, espanhóis não
estão necessariamente querendo pagar os cavalheiros para quem eles devem, por
que eles pagariam aos chineses?
E
a redução de 50% da dívida privada da Grécia?
Bem,
mesmo que ela aconteça, está longe de ser evidente que isso seja suficiente:
120% do PIB (estimativa de quanto será a dívida grega em 2020, com a redução
de 50%) ainda não é um número realista para um país com tantos problemas.
Então isso vai resultar em crescimento muito ruim por muito tempo. O mais
importante são as questões que nem foram perguntadas. Para onde vai todo o projeto
do euro?
Qual
a sua visão sobre isso?
É
óbvio que a ideia de que você possa ter países separados com uma moeda única
foi mal concebida e eles precisam ter uma união política muito mais forte,
incluindo uma autoridade tributária central e uma dramática partilha de
receitas fiscais, partilhar em grande escala. Precisa ser uma união de
transferências, não há dúvida quanto a isso. E isso é necessário porque eles
precisam colocar limites muito mais estritos em níveis de endividamento dos
países, mais parecido com o que ocorre com os Estados americanos do que com
atual sistema europeu. E, se eles forem colocar esses limites, os países
precisam de uma válvula de escape, precisam de alguma forma de ser ajudados
nas recessões. E isso realmente tem de ser por meio de transferências.
Mas
o plano europeu foi bem recebido pelos mercados.
Eu
acredito que eles se beneficiaram enormemente por anunciar o seu plano no
mesmo dia em que o número sobre o crescimento americano foi divulgado (crescimento
de 2,5% anualizado no terceiro trimestre), o que animou muito os mercados.
Então há essa impressão de que as pessoas amaram o plano do euro. Eu acho que
você tem de olhar para o juro da dívida italiana (no último leilão de títulos
de dez anos, depois do acordo do euro, o país pagou uma alta recorde de
6,06%) e você tem um quadro muito mais sóbrio da reação.
O
mercado ficará mais calmo com o acordo europeu?
Não.
Nós vamos ver a continuação de uma profunda volatilidade, e esse último plano
europeu não tem nada (para impedir isso).
Outra
crítica é que o acordo europeu não tratou do problema de como fazer a Europa
voltar a crescer.
Acho
que os países periféricos da Europa vão enfrentar anos e anos de crescimento
muito baixo e recessão, e isso faz com que os pacotes de austeridade sejam
completa e fundamentalmente impossíveis de serem cumpridos. Assim, para todos
esses países, é um grande problema. Já para os países centrais, o baixo
crescimento é bem administrável, eles não estão numa situação tão ruim. Mas
certamente estão com menos capacidades de salvar financeiramente todos os
outros países. Ainda que a Alemanha e a França não tenham problemas de dívida
imediatos, a sua dívida é alta, o problema de envelhecimento da população é
muito complicado - eles não têm bolsos tão profundos para bancar para sempre
os países da periferia.
Mas
haveria alguma maneira de fazer com que os países da periferia voltassem a
crescer?
Eles
poderiam abandonar o euro e ter uma desvalorização da taxa de câmbio. Isso
certamente é a forma mais fácil. Existem conversas sobre a solução da
Estônia, onde eles cortaram os salários, mas é muito difícil de fazer. Na
Grécia, os salários provavelmente teriam de cair 40%. Eu simplesmente não
acho que isso vá acontecer. Quer dizer, uma desvalorização cambial poderia
fazer isso.
O
sr. acha que países podem
sair do euro?
É
altamente provável que pelo menos um e possivelmente mais países sejam
forçados a abandonar o euro antes que esse problema seja resolvido. Pode
levar anos e anos. Porém, porque o único desfecho possível é uma união fiscal
muito mais forte, acho que os alemães e outros serão muito relutantes em
estender esta união a países nos quais eles têm pouca fé em termos do nível
de desenvolvimento e da capacidade de ser parte de uma união política tão
forte. Eu tenho a expectativa de que nós vamos ver países abandonarem o euro,
pelo menos temporariamente, talvez por 10 ou 20 anos.
Alguns
economistas acham que as complicações e os custos são altos demais para que
algum país abandone o euro.
Isso
é nonsense. Se você tentar calcular o custo de
sair, acho muito difícil chegar a um número acima de 1% do PIB. E estamos
vendo um país como a Grécia tendo crescimento possivelmente sete a oito
pontos porcentuais - ou de pelo menos cinco a seis - abaixo do seu potencial
por anos e anos. Sair do euro é um custo menor no quadro mais amplo, diante
de uma recessão tão profunda e duradoura. Países saem de uniões. Veja o caso
da Eslováquia em relação à República Tcheca. É uma questão menor.
O
crescimento americano do terceiro trimestre é uma luz no fim do túnel?
Certamente
foi uma boa notícia no front americano. (A economista) Carmen Reinhart e eu constatamos que, depois de uma profunda
crise financeira, o crescimento tende a ser lento e errático, mas não
necessariamente com o retorno a uma profunda recessão. Então a minha visão
sempre foi de que os Estados Unidos continuarão a ter crescimento abaixo do
potencial, mas a probabilidade de uma nova recessão realmente séria e
profunda não era muito alta. Acho que esse número reforça essa visão.
Isso
é satisfatório?
Bem,
2,5% não são 5%. Mesmo que o crescimento permaneça em 2,5%, isso não vai
afetar em nada a taxa de desemprego; vai continuar a haver instabilidade
política, e condições recessivas. É preciso olhar para o nível do crescimento
americano. O nível do PIB americano per capita ainda está 3% abaixo do que
estava no começo da crise. Então, ainda estamos bastante dentro do que a
Carmen Reinhart e eu chamamos de a segunda Grande
Contração. A Grande Depressão foi a primeira. E eu
não acho que em nenhum sentido os Estados Unidos saíram da recessão, e pode
demorar de três a seis anos para saírem.
A
desaceleração da China pode abalar ainda mais a economia global?
A
China está fazendo um aperto monetário da forma deles, aumentando muito os
depósitos compulsórios. Nunca é fácil fazer essas coisas. Sempre há um risco
de que, apesar dos melhores esforços e das melhores intenções das autoridades
econômicas chinesas, eles exagerem, e o crescimento se reduza mais do que
eles pretendiam. E a transição política na China, em 2012 e 2013, pode trazer
instabilidade política que afete a política econômica
O
que o sr. achou da atuação
recente do Banco Central no Brasil?
O
meu entendimento é de que o Banco Central começou a cortar a taxa básica com
a ideia de que haverá um aperto na política fiscal. E essa tem sido a recomendação de muitos macroeconomistas, incluindo eu mesmo,
por muito tempo. A questão é que estamos assistindo ao Banco Central
reduzir o juro, e o ponto é o quanto vamos ver de ajuste fiscal, o quão
crível ele será. Acho que essa ainda é uma questão em aberto.
Quais
as perspectivas do Brasil?
O
crescimento dos emergentes está muito sólido, e deve permanecer assim se não
houver uma catástrofe. Desde que não haja um colapso na China, desde que não
haja um colapso na Europa, o Brasil ainda está nos trilhos para ter um
desempenho muito sólido.
E
qual a probabilidade de uma catástrofe?
É
muito mais alta do que de costume. Eu diria que, num ano normal, a
possibilidade de que nós repentinamente entremos numa recessão é normalmente
de 10%. Mas neste momento é muito mais alta a probabilidade. Nós estamos
falando de algo como 20% de probabilidade de haver uma recessão global.
Porque ainda há riscos na Europa, riscos nos Estados Unidos. Nós estamos numa
situação muito volátil, que não deve se desanuviar este ano. Uma recessão
muito feia e profunda nos Estados Unidos e na Europa levaria a uma drástica
desaceleração nos mercados emergentes.
Autor(es): FERNANDO DANTAS
O Estado de S. Paulo - 30/10/2011