Em 2004,
em uma das mudanças que mais causaram polêmica na sociedade brasileira, o
Congresso Nacional aprovou a Reforma do Judiciário e a criação do Conselho
Nacional de Justiça (CNJ).
O CNJ visa
a coordenar, planejar e supervisionar a administração da Justiça. Entre suas
competências incluem-se a definição e limitação dos vencimentos dos
magistrados e servidores, o fim da prática do nepotismo, observando a
qualificação e a impessoalidade no recrutamento de funcionários, a
instituição do voto aberto e fundamentado nas promoções e remoções de juízes,
passando a prevalecer a qualidade e a produtividade
na movimentação da carreira. E ainda a apuração de possíveis desvios éticos e
morais na conduta de alguns magistrados e servidores.
O CNJ tem
sido alvo de críticas de magistrados, sobretudo de Tribunais de Justiça
estaduais, que o vêm como instrumento de interferência indevida, por se
tratar de controle externo ao Judiciário. Nesse sentido, a atuação do CNJ foi
contestada pela Associação dos Magistrados Brasileiros, que pediu liminar
para suspender itens da resolução do CNJ que disciplina os processos contra
juízes. Em meados de dezembro, por liminar (provisória) concedida pelo
ministro Mello, os poderes do CNJ para investigar e punir juízes suspeitos de
irregularidades foram limitados pelo entendimento de
que o CNJ não pode atuar antes das corregedorias dos tribunais e deve apenas
complementar o trabalho destas.
Agora, em
reação às posições contrárias ao CNJ, conselheiros estão apresentando
propostas para tornar o órgão mais transparente e democrático. As alterações
que serão debatidas nesta semana, entre outros aspectos, modificam os poderes
da presidência do órgão.
A
corrupção, que, no Brasil, está adquirindo um caráter sistêmico,
aparentemente teria atingido também o Judiciário. A pedido
do CNJ, o órgão do Ministério da Fazenda incumbido de apurar casos de lavagem
de dinheiro, o Coaf, apresentou relatório indicando movimentações bancárias
atípicas de magistrados e servidores que teriam chegado a mais de 850 milhões
de dólares entre 2000 e 2010.
A revista
"Interesse Nacional" (http://interessenacional.com), em sua edição
especial de janeiro, dedica-se integralmente à discussão do Poder Judiciário
e reúne artigos de respeitados nomes da área jurídica, protagonistas e
artífices das transformações empreendidas nos últimos oito anos. Os textos são assinados por expoentes do Poder Judiciário, como
os três ex-presidentes da Corte Gilmar Mendes, Ellen Gracie Northfleet e Nelson Jobim, a corregedora nacional de
Justiça, Eliana Calmon, o presidente nacional da Ordem dos Advogados do
Brasil (OAB), Ophir Cavalcante Junior, o
ex-presidente da Associação dos Magistrados Brasileiros Mozart Valadares
Pires e três professores da Escola de Direito do Rio de Janeiro da FGV -
Joaquim Falcão, que foi membro do CNJ, Diego Werneck Arguelhes
e Pablo de Camargo Cerdeira. Os autores foram convidados pelo Conselho
Editorial da "Interesse Nacional"
justamente por defenderem um papel de relevo para o CNJ, posição encampada
pela revista.
O
presidente do Supremo Tribunal Federal, Cezar Peluso,
trata da reforma do Judiciário e da PEC dos Recursos e Desenvolvimento.
O Conselho
Nacional de Justiça, na verdade, tem contribuído para o fortalecimento da
democracia, da ética e dos direitos individuais e ajuda o país a acelerar a
prestação jurisdicional, uma vez que impôs planejamento estratégico
fracionado em metas. Isso tem levado o Poder Judiciário a superar a prática
de funcionar sem projeto e de personalizar a administração e suas
realizações, como afirma Eliana Calmon.
Pela
primeira vez, o Poder Judiciário, até aqui considerado hermético, passou a
ser fiscalizado também por representantes da sociedade
civil, entre eles membros do Congresso Nacional, do Ministério Público e da
Ordem dos Advogados do Brasil.
A
discussão em profundidade e objetiva dessa questão é útil para a compreensão
dos passos que o Brasil vem dando para consolidar e aperfeiçoar suas
instituições democráticas, notadamente na área da Justiça.
RUBENS
BARBOSA é editor responsável da revista "Interesse Nacional" e
presidente do Conselho de Comércio Exterior da Fiesp.
Autor(es): agência o globo:Rubens Barbosa
O Globo - 24/01/2012