Alegres e ignorantes
Estar informado e atento é o melhor
jeito de ajudar a construir a sociedade que queremos, ainda que sem ações
espetaculares"
Há fases em
que, inquieta, eu talvez aponte mais o lado preocupante da vida. Mas jamais esqueço
a importância do bom humor, que na verdade me caracteriza no cotidiano, mais do
que a melancolia. Meu amado amigo Erico Verissimo
certa vez me disse: "Há momentos em que o humor é até mais importante do
que o amor". Eu era muito jovem, na hora não entendi direito, mas a vida
me ensinou: nem o amor resiste à eterna insatisfação, à tromba assumida, às
reclamações constantes, à insatisfação sem tréguas. Bom humor zero. Desperdício
de vida: acredito que, junto com dinheiro, sexo e amor, é a alegria que move o
mundo para o lado positivo. Ódio, indignação fácil, rancores e inveja – e nossa
natureza predadora – promovem mediocridade e atos cruéis.
Quando, seja na
vida pessoal, seja como cidadãos ou habitantes deste planeta, a descrença e o
desalento rosnam como animais no escuro no meio do mato, uma faísca de bom
humor clareia a paisagem. Mas há coisas que nem todo o bom humor do mundo
resolveria num riso forçado. Como senti ao ler, numa dessas pesquisas entre
esclarecedoras e assustadoras (quando vêm de fonte confiável), que mais de 30%
da nossa chamada elite é de uma desinformação avassaladora. Aqui o termo
"elite" não tem a ver com aristocracia, roupa de grife, apartamento
em Paris ou décima recostura do rosto, mas com a
gente pensante. A que usa a cabeça para algo além de separar orelhas. Pois,
segundo a pesquisa, entre nós a imensa maioria dos ditos pensantes não consegue
dizer o nome de um só ministro desta nossa República. Senadores, nem falar.
A turma que
completa o 2º grau, que faz faculdade, que tem salário razoável, conta no
banco, deveria ser a informada. Essa que não precisa comprar carro em noventa
meses e deixar de pagar depois de quatro. A elite que consegue viajar conhece
até algo do mundo, e poderia ter uma pequena biblioteca em casa. Em geral, não tem.
Com sorte, lê jornal, assiste a boas entrevistas e noticiosos
daqui e de fora, enfim, é gente do seu tempo. Para isso não se precisa
de muita grana, acreditem. Mesmo assim, essa elite é pouco interessada numa
realidade que afinal é dela.
Resolvi testar
a mim mesma: nomes de ministros atuais desta nossa República. Cheguei a meia dúzia. São quase quarenta. Então começo a bater no
peito, em público, aliás. Num país onde mais da metade dos habitantes são
analfabetos, pois os que assinam o nome não conseguem ler o que estão
assinando, ou vivem como analfabetos, pois não leem
nem o jornal largado na praça, os que sabem ler deveriam ser duplamente ativos,
informados e participantes. Não somos. Nossos meninos raramente sabem o título
de seus livros escolares ou o nome dos professores (sabem o dos jogadores de
futebol, dos cantores de bandas, das atrizezinhas semieróticas).
Agimos como se nada fora do nosso pequeno círculo pessoal nos atingisse.
Além das
desgraças longe e perto, vindas da natureza ou do homem,
estamos num ano eleitoral. Inaugurado o circo de manobras, mentiras e
traições escrachadas ou subliminares que conhecemos.
Precisamos de claridade nas ideias, coragem nos
desafios, informação e vontade, e do alimento dos afetos bons. Num livro
interessante (não importa o assunto) alguém verbaliza velhas coisas que a gente
só adivinhava; um filme pode nos lembrar a generosidade humana; uma conversa
pode nos tirar escamas dos olhos. Estar informado e atento é o melhor jeito de
ajudar a construir a sociedade que queremos, ainda que sem ações espetaculares.
Mas, se somos desinformados, somos vulneráveis; se continuarmos alienados, bancaremos os tolos; sendo fúteis, cavamos a própria cova;
alegremente ignorantes, podemos estar assinando nossa sentença de atraso,
vestindo a mordaça, assumindo a camisa de força que, informados, não
aceitaríamos.
Alegria,
espírito aberto, curiosidade, coisas boas desta vida, todos as merecemos. Mas
me poupem do risinho tolo da burrice ou da desinformação: o vazio por trás dele
não promete nada de bom.
Autor(es): Lya
Luft
Veja - 01/03/2010
http://clippingmp.planejamento.gov.br/