João é
jovem, inexperiente e sem muita qualificação. Ele está começando sua vida
profissional. Em consequência, sua produtividade é baixa. Reconhecendo isso,
ele está disposto a receber um salário de R$500. Paulo é um microempresário
que pretende contratar mais um funcionário. Ele pode pagar até R$500 de
salário, o que, acrescido dos encargos trabalhistas, custaria o dobro à
empresa. Pelo visto, uma troca voluntária e mutuamente benéfica. Mas há um
obstáculo no caminho: o governo.
O que
acontece quando o governo determina um salário mínimo acima de R$600? Há duas
alternativas: ou Paulo desiste de contratar João; ou eles fecham um acordo à
margem da lei. Desemprego ou informalidade. Com tantas "conquistas"
trabalhistas impostas pelo governo e distantes da realidade do nosso mercado
de trabalho, alguém ainda fica surpreso com a imensa informalidade no Brasil?
O
economista francês Bastiat dizia que o bom
economista se diferencia por analisar uma medida ao longo do tempo, enquanto
o economista ruim foca apenas em seu resultado imediato. A visão míope
aplaude qualquer aumento de salário mínimo, pois ignora "aquilo que não
se vê": os que continuam desempregados ou vão para a informalidade. Isso
sem falar dos impactos no rombo previdenciário, com aposentadorias indexadas,
e na inflação.
No debate
sobre o tema, vemos o uso abusivo do "monopólio da virtude" pela
esquerda. Somente quem demanda maior salário mínimo quer o fim nobre, qual seja, a melhoria da qualidade de vida dos mais pobres.
Nada mais falso, como demonstra a lógica econômica, corroborada pelos dados
empíricos.
A crença
de que o governo pode decretar benesses que geram prosperidade não passa de
uma falácia. Alguns jornais estampam que o aumento do mínimo vai injetar na
economia bilhões por meio de maior consumo. Poucos perguntam de onde sai este
dinheiro. Como o governo não cria riqueza do nada, parece
evidente que a quantia maior destinada ao pagamento extra dos salários terá
de vir de algum outro lugar. Pode ser do lucro das empresas, que ficam com
menos recursos para investir, reduzindo assim a taxa potencial de crescimento
econômico.
O que nos
remete a outra falácia: a visão marxista de "mais-valia". Segundo
esta crença jurássica, porém resistente abaixo da linha do Equador, a
economia é um jogo de soma zero, onde o capital só pode ser remunerado se
subtrair do trabalho. O lucro seria fruto da exploração do trabalhador pelo
empresário. Steve Jobs teria ficado bilionário não porque agregou valor aos
consumidores da Apple mundo afora com suas inovações, e sim porque explorou
alguns funcionários na Califórnia.
Quando a
economia é vista como um bolo fixo e o empresário como um explorador, então
parece razoável demandar do governo uma proteção do lado mais fraco nesta
batalha.
Mas não é
nada disso que acontece na realidade. Em uma economia livre, as empresas se
esforçam para atender da melhor forma possível seus clientes, e com isso
aumentar tanto lucros como salários. Mas para isso é necessário um aumento de
produtividade das empresas. Por decreto estatal a coisa não funciona.
O salário
de livre mercado é basicamente resultado da produtividade do trabalhador. É
por isso que os trabalhadores alemães ganham tão mais que os brasileiros, e
não porque seu governo é mais bondoso. O Brasil possui sindicatos
extremamente fortes e um governo demasiadamente intervencionista. Mesmo com
tantas conquistas legais, temos um salário médio baixo em relação aos países
mais livres, além da enorme informalidade. Países como Finlândia, Noruega,
Dinamarca, Suécia, Alemanha, Cingapura e Suíça nem salário mínimo têm!
Aqueles
que aprovam qualquer aumento do salário mínimo estão ignorando seus efeitos
no médio prazo. Trata-se de medida populista, que ataca o sintoma em vez da
causa, sacrificando o trabalhador mais humilde. Se para conquistar maiores
salários não fosse preciso investir em capital humano, bastando um decreto
estatal, então os defensores da medida precisam explicar por que parar perto
de R$600. Por que não colocar o mínimo logo em dez mil reais?
Quando até
os mais demagogos não ousam ir tão longe, é porque sabem que existem impactos
perversos na medida. Eles reconhecem, no fundo, que não se vira uma Alemanha
da noite para o dia, com base em um decreto de governo.
Ninguém
vibra com um salário baixo, mas é preciso saber como aumentá-lo de forma
sustentável. E isso se faz com investimento em capital humano e um ambiente
de ampla liberdade econômica, além de menores encargos trabalhistas.
Autor(es): agência o globo:Rodrigo Constantino
O Globo - 10/01/2012