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Crescimento x inflação


As perspectivas para este ano são de um cenário favorável em termos de crescimento econômico, entre 5% e 6%, e de geração de empregos com carteira assinada, que poderão superar 1,5 milhão. O carro-chefe para isso é a expansão do consumo por causa da baixa inflação, que preserva o poder aquisitivo da população, auxiliada pelo crescimento do crédito e da massa salarial.

Em face desse cenário, as análises do mercado financeiro e a sinalização do Banco Central são de que esse nível de crescimento econômico irá causar inflação, se não em 2010, será em 2011 (?). Assim, será necessário ocorrer um aperto monetário com a elevação da taxa básica de juros Selic ainda neste primeiro semestre, pois há o dogma de que o aperto monetário leva nove meses (?) para surtir efeito.

Segundo o último boletim Focus, a expectativa média das instituições financeiras para a Selic é de atingir 11,1% ao final do ano e 10,9% ao final de 2011. Em outras palavras, o mercado financeiro avalia que crescimentos no nível de 5% - a previsão do boletim Focus é de 5,26%, em 2010, e de 4,49%, em 2011 - só pode se dar com a Selic em 11%. Assim, com a Selic elevada dos atuais 8,75% para 11%, preveem que a inflação será de 4,54%, em 2010, e de 4,57%, em 2011.

A tese central dessa visão monetarista é de que há uma oposição entre crescimento e inflação ou que o crescimento gera inflação. E por que isso? A resposta é que esse nível de crescimento de 5% a 6% é forte demais para ser atendido pela oferta de produtos que satisfaça a demanda, induzindo as empresas a elevarem seus preços. Assim, defendem que é preciso reprimir o crescimento, e para isso o instrumento utilizado é aumentar a Selic.

Essa análise envolve um duplo equívoco. O primeiro é considerar que uma expansão da demanda só pode ser atendida pelas empresas sediadas no País. Isso, além de irrealista, está fora do contexto onde há um acirramento de disputa das empresas pelos mercados dos países emergentes, vez que EUA, Europa e Japão deverão ficar com suas economias estagnadas por um bom período, reduzindo suas importações e tentando ampliar suas exportações, e a China continuará atuando cada vez mais para ampliar suas exportações que foram afetadas pela redução da demanda dos países desenvolvidos, para onde se destinava a maior parte de sua exportação. Há, portanto, uma superoferta às nossas portas por bens e serviços a preços cada vez mais convidativos vindos dos EUA, da Ásia e da Europa, além de nossos vizinhos latino-americanos, o que é motivo de preocupação das empresas locais e do governo brasileiro.

O segundo equívoco é o de que as empresas não conseguirão ampliar sua produção na velocidade necessária para satisfazer a expansão da demanda. Essa avaliação subestima a capacidade das empresas de prever e adotar as medidas necessárias para ampliar sua produção. A realidade é que os empresários estão permanentemente antenados com o mercado, pois isso é a razão da sobrevivência da empresa em ambiente fortemente competitivo no mundo globalizado. Além disso, a capacidade ociosa delas ainda está elevada, dando tempo suficiente para adequar sua produção às necessidades do mercado.

Ao governo não interessa a elevação da inflação, pois reduz o poder aquisitivo da população - o que é mortal sob o ponto de vista político, especialmente em ano eleitoral.

Para garantir o controle inflacionário, o governo federal tem bons instrumentos à disposição para ação imediata, e que já foram cogitados, caso necessário: redução do imposto de importação dos bens que possam repercutir na formação de preços da cadeia produtiva e redução dos preços dos combustíveis pela Petrobrás e/ou redução da Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide) dos combustíveis, que integra os seus preços.

O que chama a atenção não é apenas a elevação da Selic, mas especialmente o fato - destacado pelo Estadão de 26/1 - de que o Brasil, com a taxa Selic de 8,75%, retoma a liderança do ranking dos maiores juros reais (descontada a inflação) do mundo, depois de nove meses. Essa é a maior distorção macroeconômica do País, que, junto com o spread bancário, constituem a principal força contrária ao desenvolvimento natural do Brasil.

Tenho a esperança de que algum dia prevaleça, na política econômica do País, uma visão nova de que o crescimento não conduz à inflação, ao contrário, pode ser seu maior aliado.

Amir Khair
O Estado de S. Paulo - 28/01/2010
http://www.fazenda.gov.br/resenhaeletronica/



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