Nos
últimos 15 anos, a sociedade brasileira tem conseguido conciliar, pela
primeira vez em sua história recente, crescimento econômico com progresso
social. Isso tem chamado a atenção de analistas no
Brasil e no resto do mundo. Afinal, na época do chamado "milagre
econômico", o país também cresceu muito, a pobreza caiu, mas a
distribuição de renda piorou. Hoje em dia, o crescimento também traz redução
da pobreza, mas agora a renda dos mais pobres cresce muito mais rapidamente
do que a dos mais ricos. Qual o segredo?
Duas
grandes mudanças aconteceram. Nos anos 60 não havia programas de
transferência de renda e, naquela época, os avanços educacionais aconteciam
primordialmente entre os mais ricos.
Entre
1961 e 1970 a taxa de crescimento média do Produto Interno Bruto (PIB) per
capita (em termos reais) foi de 3,2%. Porém, o índice de Gini
(indicador mais tradicional de desigualdade) aumentou de 0,49 para 0,57.
Entre 2001 e 2010, o PIB per capita aumentou 2,4%, mas o Gini
declinou de 0,58 para 0,53. Vale notar que o índice de 0,53 ainda nos deixa
muito distante dos países civilizados. França, Holanda, Finlândia, Suécia e
Dinamarca têm índices em torno de 0,32. Entre 1960 e 1970, a renda dos 10%
mais ricos no Brasil cresceu 66% e a renda dos 10% mais pobres apenas 28%.
Entre 2001 e 2009, o processo inverte-se. A renda dos mais pobres cresceu
100%, enquanto a dos mais ricos, apenas 18%. Milagre?
Entre
2001 e 2009, renda dos mais pobres cresceu 100%, enquanto a dos mais ricos,
apenas 18%
A
primeira explicação é que nos anos 60 a demanda por educação crescia a um
ritmo superior à oferta, pois o aprofundamento da industrialização requeria
trabalhadores qualificados que não existiam na época. Em 1970, 84% da
população tinha no máximo o nível primário. Apenas 50 mil pessoas concluíram
o ensino superior naquele ano, num país com 92 milhões de habitantes. Isso
fez com que os salários da pequena parcela da população que tinha ensino
médio ou superior aumentassem muito, o que provocou o aumento da
desigualdade. Com as décadas perdidas de 80 e 90 veio o desemprego e a
informalidade, e a desigualdade de renda gerou criminalidade.
Durante
os anos 70, o PIB per capita cresceu em média 6%, aumentando o pique da
década anterior, mas a desigualdade não se alterou muito. A década de 80 foi
perdida em termos de PIB (crescimento médio de 0,85%) e de educação, enquanto
a escalada inflacionária aumentava a desigualdade. Em termos educacionais, o
número de concluintes no ensino superior estacionou em 220 mil pessoas
durante toda a década. As matrículas no ensino médio (antigo segundo grau)
aumentaram somente 25% em uma década. Período de trevas.
Mas,
a partir de meados da década de 90, as coisas começaram a melhorar. Entre
1995 (com a estabilidade econômica) e 2009 a escolaridade média dos 20% mais
pobres dobrou, passando de dois para quatro anos de estudo. Interessante
notar que entre os 20% mais ricos, a escolaridade também aumentou dois anos
em média (de oito para dez). Mas, a razão entre a escolaridade média dos dois
grupos caiu de 4 para 2,5. A situação dos pobres era tão ruim, que mesmo um
aumento que os levou para ensino primário completo em pleno século XXI pode
ser considerado um grande progresso.
Quanto
essa evolução educacional explica da queda da desigualdade? Os dados mostram
que a educação foi responsável por 38% do crescimento da renda do trabalho
entre os 20% mais pobres. O restante decorreu de aumentos do salário mínimo e
geração de empregos formais. Além disso, a educação explica 42% da queda da
desigualdade em termos de renda do trabalho e 26% em termos de renda familiar
(incluindo as rendas de outras fontes) entre 2001 e 2009.
Com
relação ao programa Bolsa Família, a história é parecida. Como os mais pobres
tinham uma renda familiar per capita muito reduzida no início da década de 90
e não recebiam nenhuma transferência do governo,
qualquer valor recebido teria um impacto muito grande sobre sua renda. Assim,
a renda familiar per capita média dos 20% mais pobres era de apenas R$ 35 em
1992, passou para R$ 50 em 2001 e R$ 85 em 2009. A renda per capita não
oriunda do trabalho (transferências governamentais) passou de apenas R$ 4 em
1992 para R$ 10 em 2001 e R$ 24 em 2009, ou seja, aumentou 500%!
Em
suma, o avanço social registrado nos últimos anos ocorreu basicamente porque
as pessoas das classes mais baixas eram totalmente desassistidas pelo Estado,
tanto em termos educacionais como em termos de transferências de renda até o
início dos anos 90. Assim, os avanços mínimos ocorridos nessas áreas tiveram
impacto substancial na desigualdade. Porém, ainda teremos que percorrer um
longo caminho para atingirmos um padrão em que as oportunidades sejam iguais
para todos e independentes do berço.
Restam
duas perguntas. Como a sociedade brasileira permitiu que 20% da sua população
sobrevivesse com uma renda per capita média de
apenas R$ 35 por mês até o início da década de 90? Por que nossa presidente
parece obcecada com uma taxa de crescimento do PIB de 4%, quando, na verdade,
a renda dos mais pobres, que elegem os políticos, está crescendo muito mais
do que isso? Alguém arrisca uma resposta?
Autor(es): Naercio
Menezes Filho, professor titular - Cátedra IFB e coordenador do Centro de
Políticas Públicas do Insper, é professor associado
da FEA-USP e escreve mensalmente às sextas-feiras naercioamf@insper.edu.br
Valor Econômico - 20/01/2012