Ações devem ganhar espaço na aposentadoria
Analistas recomendam
investimento em fundos a aplicação direta na Bolsa
Sempre que um analista
brasileiro fala de poupança visando à aposentadoria, cita o mercado americano
como um exemplo a seguir. Nos Estados Unidos, dizem, aproximadamente 50% da
população investe em ações - seja diretamente na bolsa de valores ou por meio
de um fundo de pensão ou de investimentos. No Brasil, essa cultura ainda está
longe de ser difundida.
Uma das evidências disso é que pouco mais de 500 mil pessoas físicas têm
autorização para comprar e vender papéis na Bolsa de Valores de São Paulo
(Bovespa), menos de 1% da População Economicamente Ativa (PEA), de cerca de 80
milhões de pessoas.
Essa realidade, porém, deve começar a mudar, segundo especialistas. O pano de
fundo, claro, é a queda das taxas de juros no País para níveis estruturalmente
mais baixos. Com o juro básico atual, de 8,75% ao ano, um investidor não
consegue um retorno líquido superior a 5% ao ano, levando-se em conta impostos
e outras taxas.
Nesse ambiente, aplicar em renda variável é, ao menos em tese, uma saída para
quem não se contentar com uma rentabilidade desse nível. "Vários estudos,
livros e modelos mostram que, no longo prazo, as ações rendem mais do que a renda
fixa", disse o administrador de investimentos Fabio Colombo.
Como manteve os juros muito elevados por anos a fio, o Brasil tem sido uma
exceção à regra. Um levantamento do próprio Colombo mostra que o Índice Bovespa
ganhou, em média, 9,7% ao ano entre janeiro de 1968, ano em que foi criado, e
dezembro de 2009.
No mesmo intervalo, a renda fixa teve rentabilidade média de 8,5% ao
ano. Ambos os cálculos excluem a inflação, as taxas de administração e os
impostos.
Se o juro básico mais baixo veio para ficar, como crê a maioria absoluta dos
especialistas, os números devem passar a mostrar vantagem cada vez maior para a
renda variável.
OPÇÕES
Aqueles que já se decidiram - ou decidirão - enfrentar o vaivém do mercado
acionário para aplicar as economias guardadas para gozar uma aposentadoria tranquila têm, basicamente, três opções no Brasil: investir
diretamente na Bovespa, aplicar em um fundo de investimento de ações ou
participar de um fundo de previdência privada (ou pensão) com uma parcela
grande em ações.
"É uma escolha saudável, mas inspira cuidados", disse o professor de
finanças do Insper (ex-Ibmec São Paulo) George Ohanian. "Antes de mais nada, o investidor deve
entender que pode ter perdas momentâneas. Por isso, não pode fazer o que chamo
de análise de banca de revista." A brincadeira refere-se às decisões
tomadas em momentos de euforia ou depressão.
ESTÔMAGO
Colombo lembra que, por ser um país emergente, o Brasil tem um mercado
financeiro, na média, mais instável que o de nações desenvolvidas. "Por
isso, o investidor precisa ter estômago para enfrentar as oscilações."
Entendido o princípio básico, o passo seguinte é escolher a melhor forma de
investir no mercado de ações. Tanto Ohanian quanto
Colombo desaconselham - do ponto de vista de quem poupa para 10, 20 ou até 30
anos à frente - as aplicações diretas na bolsa, o que pode ser feito, entre
outros canais, via home broker.
"É preciso se dedicar muito ao assunto, ter
conhecimento de ao menos 10 ou 15 setores da economia e ler relatórios de
empresas. Isso sem falar na complexidade na hora de acertar as contas com a
Receita", observou Colombo. "É algo só para o investidor sofisticado,
que tem tempo, mas, mesmo assim, duvido que dê bons resultados práticos no
longo prazo."
FUNDOS
Ambos acreditam que a melhor opção é o investidor escolher um fundo de ações
tradicional ou aplicar em um fundo de previdência privada com fatia elevada em
renda variável.
Nesses casos, a recomendação é a mesma de qualquer outra aplicação: atenção às
taxas das instituições financeiras, sejam de
administração, de performance ou de carregamento.
Leandro Modé
O Estado de S.Paulo
http://www.andima.com.br/clipping/010210/index.html