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Os governos mostram-se incapazes de governar


Certamente, o mundo não deverá acabar neste ano, como proclama quem se considera intérprete do calendário maia, ou asteca, ou inca... Que sabemos nós, pobres intérpretes de pífios dados da economia? Mas, certamente, uma das coisas que está acabando, e poderá acabar de vez ao longo do ano, é a ilusão cultivada por grande parte das populações mundiais de que governos - principalmente governos democráticos livremente eleitos - sejam capazes de resolver os seus problemas e carências graves.

Nos últimos meses a imprensa internacional tem publicado muitos artigos de gente séria a respeito da crescente degradação ou deterioração da governabilidade, ou seja, da capacidade dos governos de responderem com presteza e eficácia ao que deles esperam as suas populações. Uma análise recente, e das mais objetivas, sobre esse problema, saiu na semana passada nas páginas deste jornal (Estado, 27/12), assinada por Charles A. Kupchan, professor de temas internacionais na Universidade de Georgetown, colaborador do The New York Times. Depois de afirmar, logo na primeira linha, que "uma crise de governabilidade tomou conta do mundo Ocidental", ele observa que "a globalização vem produzindo uma brecha entre o que os eleitores esperam dos seus governos e o que esses governos têm a oferecer".

Digamos que esse é um resumo geral da questão.

Mas, quando ele fala do que "os eleitores" esperam dos seus governos, está se referindo, obviamente, às democracias das "sociedades liberais", onde, segundo ele, "na maior parte de duas décadas os salários da classe média (...) ficaram estagnados e a desigualdade econômica avançou drasticamente".

Talvez possamos estender o campo de observação e dizer que não só a demanda de bens materiais, por parte das sociedades humanas atuais, tem ficado além da capacidade de oferta dos governos, mas também a demanda por bens políticos, culturais e éticos. O que nos leva a observar que a crise de governabilidade afeta, hoje em dia, todos os tipos de governos e regimes. Assim, podemos destacar, de um lado, no caso de países ditatoriais, as crescentes demandas por liberdade de expressão e manifestação, por democracia, em suma, que se choca com a impossibilidade desses governos de dar-lhes a única resposta possível, a da abertura política. E, de outro lado, no campo dos regimes democráticos, as demandas também crescentes, e insuficientemente atendidas, por transparência, honestidade nas ações e promessas, comportamento rigorosamente ético e competente governança.

O que vemos ao redor do planeta é o potencial insurrecional se fortalecendo nos países onde a violência populacional é o único caminho contra a violência governamental - e neste exato momento o caso da Síria é emblemático. Ao lado disso, vemos, nos países democráticos, a descrença e a impaciência das populações gerando um potencial que, eventualmente, pode adquirir caráter insurrecional também, em razão da inépcia e desfaçatez com que governantes - mais interessados em fazer figuração para a mídia - tratam de problemas sérios que exigem soluções urgentes, como é o caso da crise fiscal que sacode a Europa.

Pode-se afirmar com realismo, sem nenhuma tintura alarmista, que o mundo ingressa no ano de 2012 num patente estado de desarranjo econômico e político, sem que nenhum dos seus governos exiba competência para formular qualquer proposta coerente. Nessa barafunda de não opções, o horizonte para as populações de países ricos é de severas restrições: menos empregos, mais aperto de cintos, mais inflação, menores aposentadorias - menos futuro, enfim. E as de países pobres só veem alongar-se a escada para os andares de cima.

E é um quadro que impõe às empresas privadas do mundo todo, principalmente as grandes, um afastamento da chamada "boa governança", um agravo do imediatismo e menos apego à responsabilidade social. Como resume outra articulista, também do jornal já citado, Nancy Folbre, no contexto atual a estrutura de propriedade e de governança das empresas conduz a que o objetivo de "lucros de curto prazo tome o lugar da eficiência de longo prazo".

Duas coisas, principalmente, devem ter contribuído para que a incapacidade dos governos diante das expectativas das massas fosse exposta com nitidez e grande rapidez neste início do século 21: a globalização da economia e a disseminação da informação eletrônica. Esta, sobretudo, tem proclamado por todos os cantos do mundo o quanto "o rei está nu", como na história de Hans Christian Andersen - na verdade, quase todos os reis.

O Brasil teve, mais do que sorte, sabedoria, dentro desse quadro, graças a 17 anos de políticas sensatas de finanças públicas, sem nenhuma imprudência gritante, e com visão social. Apesar das divergências políticas entre PT e PSDB, o que tem marcado a ação governamental nessa área é a continuidade, em primeiro lugar, e uma inteligente engenharia financeira que soube combinar a higidez das políticas monetária e fiscal, de FHC e de Lula, com o atendimento inadiável das carências mais urgentes e sensíveis da população, como moradia, escolaridade, saúde, nutrição, oferta de melhores serviços públicos.

Que isso continue a nos guiar na borrasca mundial.

O Estado de S. Paulo - 02/01/2012





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