Prêmio
Nobel de Economia de 2008, Paul Krugman, escreveu no New York Times que
é preciso perder ilusões e dar às coisas o nome correto: "Estamos em
depressão" – avisou.
Quando se
fala em depressão econômica, a referência é o que aconteceu nos anos 30 em
escala mundial, especialmente nos Estados Unidos: profunda paradeira, estancamento do comércio mundial, alto
desemprego, quebradeira nos negócios e pânico generalizado.
Os
analistas relutam em dar este nome para a crise atual pelos registros
funestos que evoca e por remeter às suas consequências, principalmente a 2.ª
Grande Guerra. Um importante estudioso das crises financeiras globais, o
economista Kenneth Rogoff, da Universidade Harvard,
escreveu artigo em agosto que ganhou notoriedade. Nele, prefere chamar o
atual colapso econômico de "Segunda Grande Contração".
Mas há
fatores que parecem justificar a relutância em chamar de depressão o que
acontece hoje. As bolsas de valores, por exemplo, estão, sim, em relativo
estancamento, mas mantêm-se longe de um crash generalizado – como o dos anos
30. Salvo em alguns momentos muito particulares – como durante a quebra do
Lehman Brothers, em setembro de 2008 –, não há pânico nos mercados. O comércio
mundial está recuando, mas não é uma catástrofe. Os preços das
matérias-primas (principalmente das commodities) seguem relativamente altos.
Os grandes bancos centrais podem não estar fazendo tudo o que está a seu alcance para reverter a situação, mas vêm atuando
como não fizeram nos anos 30. E também não se registram quebras em cadeia de
empresas, em parte, porque os Tesouros nacionais também têm agido.
Provavelmente,
o fator que parece diferenciar definitivamente o panorama de hoje do
prevalecente na década de 1930 é o bom desempenho das economias emergentes da
Ásia, com destaque para China e Índia. Naquele período, o maior país
emergente eram os Estados Unidos, que estavam prostrados. Desta vez, as
economias em desenvolvimento (e o Brasil continua lhes fazendo companhia)
mostram surpreendente grau de imunidade à peste.
Krugman
está preocupado sobretudo com o acirramento das
tendências autoritárias na Europa, em boa dose, decorrente do desvanecimento
do sonho de um continente unificado.
Não há um
Hitler a caminho, admite o economista. No entanto, partidos de extrema
direita ganham repentino respaldo político com as massas desempregadas e
espalham discursos xenófobos por toda a Europa, com maior intensidade na
Áustria, na Finlândia e na Hungria.
Paira no
ar outra síndrome politicamente desintegradora, não
mencionada por Krugman. Trata-se do atual endividamento insuportável dos
Estados soberanos da Europa cujo tratamento está exigindo mais austeridade e
sacrifícios e menos crescimento econômico. A enorme dívida imposta à Alemanha
pelo Tratado de Paz de Versalhes (1919) foi justamente o caldo de cultura que
gerou o nazismo e tudo o que veio com ele. O maior risco vai por aí.
Celso Ming
O Estado de S. Paulo - 14/12/2011