Valores humanos - a saúde
O Programa
das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) Brasil acaba de lançar um novo indicador
social, o Índice de Valores Humanos (IVH), para captar a percepção das
pessoas sobre as situações do dia a dia. Inicialmente foram pesquisados a
educação, o trabalho e a saúde. Os brasileiros veem
sua vida em situação razoável nas três áreas, com um IVH de 0,59 (o índice
varia de 0 a
1). Mas em relação à saúde o descontentamento é grande (0,45). As pessoas se
queixam, sobretudo, da demora do atendimento e do baixo interesse dos
profissionais em
ajudá-las. Esses resultados se referem aos serviços de
saúde dos setores público e privado, devendo ser piores no setor público.
Muitos
argumentarão que o IVH capta o subjetivo das pessoas e que não permite a
formulação de políticas objetivas. Ledo engano. O sentimento das carências é
de extrema utilidade para orientar as políticas públicas. Ademais, os dados
indicam que a sensação de precariedade dos entrevistados reflete muito bem o
que os atinge na realidade. Nas sete maiores capitais do País, os pacientes
que recorrem ao Sistema Único de Saúde (SUS) esperam, em média, seis meses
para realizar uma operação de amídalas ou para corrigir uma fratura. A
colocação de uma prótese no quadril chega a demorar
três anos. Há casos de quatro anos. Ou seja, as queixas subjetivas têm
fundamentos muito objetivos. São vários os casos em que os pacientes têm de
ir à Justiça para ser atendidos.
Quanto à qualidade do atendimento, muitas são as reclamações de pessoas que
sofrem dores desnecessárias. Recentemente a imprensa noticiou que 76% das
parturientes do SUS não são ajudadas com medicamentos para aliviar as dores
de parto. Os exemplos se multiplicam para confirmar o descaso apontado. E
quais são as causas? O próprio ministro da Saúde admite que o SUS gasta
apenas R$ 675 per capita/ano com atendimento, vacinas, cirurgias, etc. É uma
quantia irrisória.
Para uma avaliação honesta, não se pode esquecer dos
maus-tratos a que são submetidos os que trabalham para o SUS. Para uma diária
em UTI, o SUS paga aos hospitais apenas R$ 410 - o
seu custo ultrapassa R$ 3 mil por dia. Para uma cirurgia cardíaca (revascularização do miocárdio), o reembolso ao hospital é
de R$ 2.900, quando custa no mínimo R$ 6 mil. E para a equipe de sete
profissionais que realiza essa delicada operação, o SUS paga R$ 1.330. Na
melhor das hipóteses, o cirurgião-chefe fica com R$ 300!
É verdade que o bom atendimento é uma obrigação moral de qualquer
profissional. Mas, convenhamos, são colossais a frustração e o estresse que
acometem um cirurgião que precisa realizar uma enorme quantidade de operações
de R$ 300 para poder viver com o mínimo de dignidade. Para fazer um parto, o SUS paga R$ 267 ao hospital (custo de R$ 1.800) e R$ 175
para serem divididos entre o obstetra e dois auxiliares. É uma afronta.
A Associação Paulista de Medicina acaba de publicar um estudo comparativo
segundo o qual os médicos do serviço público na Inglaterra ganham, em média,
o equivalente a US$ 118 mil por ano; no Canadá, US$ 211 mil; na Holanda, US$
253 mil (Bruna Cenço, O valor do trabalho do médico
no Brasil e no exterior, Revista da APM, agosto de 2010). E no Brasil? O
salário médio dos médicos brasileiros, incluindo os que trabalham nos setores público e privado, é de R$ 2.373 mensais, o que dá
cerca de US$ 17 mil por ano.
É verdade que estamos comparando países avançados com uma nação emergente.
Mas, na palavra dos nossos governantes, esta nação está prestes a ocupar um
lugar entre os cinco países mais ricos do mundo. Vamos parar com isso. Basta
de ufanismo. Temos de reconhecer que o brasileiro perde até 13 anos de sua
vida em razão do precário atendimento da sua saúde. Essa é a vergonhosa
realidade e o que está por trás das respostas no estudo do Pnud.
Está na hora de os nossos governantes levarem a sério o respeito e a atenção
que os brasileiros que trabalham e pagam impostos bem merecem.
Autor(es): José Pastore
O Estado de S. Paulo - 17/08/2010
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