Os Estados
Unidos têm a maior economia do mundo e, em renda per capita, estão entre os
dez mais ricos. Considerando apenas os países grandes, os EUA são os mais
ricos. Além disso, trata-se de uma democracia. Logo, é esse o modelo a ser
copiado, certo?
Mas olhem
o momento: uma baita crise financeira e a evidência de que os mais ricos
sempre se saem melhor. Na prosperidade, ganham mais, na queda, perdem menos.
Além disso, empresas e bancos, na liberdade de mercado, só pensam nos seus
lucros, dane-se o povo. Não, esse sistema não serve mais, nem para os
americanos.
Passemos,
então, para a segunda maior economia do mundo, a China. Crescimento médio
anual de 10% ao longo de três décadas! Há empresas privadas, nacionais e
estrangeiras, mas as estatais e o governo controlam firmemente os negócios,
impondo limites à ganância do mercado. Para os países emergentes, em
especial, esse capitalismo de estado seria o modelo ideal para o crescimento
rápido e mais equilibrado, certo?
Mas é uma
ditadura - e provavelmente o modelo só para de pé nesse ambiente autoritário.
O controle do governo gera muitas ineficiências e corrupção, pois os negócios
dependem sempre do "apoio" de um governante ou de um dirigente do
Partido Comunista. Além disso, além de salários baixos, há muita
desigualdade, sim. Em Shangai, o padrão de vida é europeu. No interior, há
regiões mais pobres que a África. Não, esse tipo de crescimento não justifica
uma ditadura.
Passemos,
então, para a Europa, a ocidental, onde se pratica o capitalismo do bem-estar
social ou a economia social de mercado. A Alemanha, terceira maior economia
do mundo, é o exemplo acabado: democracia, empresas privadas pujantes, mas
com forte regulação, e um governo que fornece serviços universais de
qualidade. São ricos, livres e têm a proteção do Estado - eis o modelo,
certo?
Mas custa
muito caro. Isso exige uma carga tributária cada vez mais elevada e, mesmo
assim, a dívida dos governos já chegou a níveis insuportáveis. Esse custo e
mais o excesso de regulação e de governo retiram competitividade das
empresas. Resultado: baixo crescimento, níveis elevados de desemprego,
especialmente entre os jovens. As gerações atuais estão protegidas, mas os
mais jovens percebem que o futuro não garante a boa vida dos pais. Não, o
modelo parece não servir nem para os próprios europeus.
Eis o
debate que ocorre mundo afora, inconcluso. Voltaremos ao tema, claro.
Vitória
brasileira?
E por
falar em modelo, a inflação aqui fechou o ano passado exatamente no teto da
margem de tolerância, 6,50% - e isso foi considerado uma vitória do governo.
A meta de
inflação no Brasil é de 4,5% - que, em si, já é elevada para os padrões
mundiais. Além disso, admite-se que ela seja estourada em até dois pontos
para cima, em situações excepcionais e fora do controle do BC.
No caso de
2011, o BC brasileiro sustentou que a disparada da inflação
no fim de 2010 e início do ano passado decorria fortemente de um
"choque de alimentos" - com seca ou excesso de chuva prejudicando
colheitas mundo afora e, assim, provocando uma inflação global.
Pela regra
do regime de metas de inflação, se os índices estão acima do ponto, o BC usa
sua arma principal, a alta de juros. Isso funciona quando consumo e
investimentos estão muito aquecidos.
Mas por
que fazer isso quando a culpa pela inflação não está em um excesso de
demanda, e sim em desastres climáticos?
Acrescente-se
ao quadro que a economia mundial está em queda - e a história parece fechada.
O BC não apenas não precisa subir juros, mas pode reduzi-los, como está
fazendo, afirmando que a inflação voltará à meta de 4,5% em algum ponto deste
ano, certo?
Convém
reparar: a inflação bateu no teto com o crescimento do Produto Interno Bruto
(PIB) quase certamente abaixo dos 3%. Em 2010, a inflação havia sido menor
(5,91%), com PIB acelerado, a 7,5%. Ou seja, em 2011, tivemos menos
crescimento, com mais inflação - e esta é uma combinação ruim em qualquer
perspectiva.
Considerando
o período 2008/11, a economia brasileira cresceu menos de 4% ao ano. Já a
inflação, sempre medida pelo IPCA, registrou média anual de 5,58%, acima da
meta. De novo, crescimento baixo com inflação elevada.
Resumo da
ópera: inflação de 6,5% pode ser um alívio, não uma vitória.
Olhando
para a economia real, é claro que não teria feito a menor diferença se o IPCA
tivesse alcançado, digamos, 6,6%. Mas com ou sem variações nas casas depois
da vírgula, o fato é que o Brasil continua com capacidade de crescimento
limitada e com um nível de inflação perigosa e persistentemente elevado. Ao
comemorar os 6,5%, o governo passa uma imagem equivocada.
Autor(es): agência o globo:Carlos Alberto Sardenberg
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