O que devemos aos jovens
Tratando dos jovens e de suas frustrações, falo sobre nós,
adultos, pais, professores, autoridades, e em quanto lhes somos devedores"
Fiquei
surpresa quando uma entrevistadora disse que em meus textos falo dos jovens
como arrogantes e mal-educados. Sinto muito: essa, mais uma vez, não sou eu.
Lido com palavras a vida toda, foram uma de minhas primeiras paixões e ainda me
seduzem pelo misto de comunicação e confusão que causam, como nesse caso, e por
sua beleza, riqueza e ambiguidade.
Escrevo repetidamente sobre juventude e infância, família e educação, cuidado e
negligência. Sobre nossa falha quanto à autoridade amorosa, interesse e
atenção. Tenho refletido muito sobre quanto deve ser difícil para a juventude
esta época em que nós, adultos e velhos, damos aos jovens tantos maus exemplos,
correndo desvairadamente atrás de mitos bobos, desperdiçando nosso tempo com
coisas desimportantes, negligenciando a família, exagerando nos compromissos,
sempre caindo de cansados e sem vontade ou paciência de escutar ou de falar.
Penso sobretudo no desastre da educação: nem mesmo um
exame de Enem tranquilo conseguimos lhes oferecer. A
maciça ausência de jovens inscritos, quase a metade deles, não se deve a
atrasos ou outras dificuldades, mas ao desânimo e à descrença.
De modo que, tratando dos jovens e de suas frustrações, falo sobre nós,
adultos, pais, professores, autoridades, e em quanto lhes somos devedores. O
que fazem os que de maneira geral deveriam ser líderes e modelos? Os escândalos
públicos que nos últimos anos se repetem e se acumulam são para deixar qualquer
jovem desencantado: estudar para quê? Trabalhar para quê? Pior que isso: ser
honesto para quê, se nossos pretensos líderes se portam de maneira tão
vergonhosa e, ano após ano, a impunidade continua reinando neste país que tenta
ser ufanista?
Tenho muita empatia com a juventude, exposta a tanto descalabro, cuidada muitas
vezes por pais sem informação, força nem vontade de exercer a mais básica
autoridade, sem a qual a família se desintegra e os jovens são abandonados à
própria sorte num mundo nem sempre bondoso e acolhedor. Quem são,
quem podem ser, os ídolos desses jovens, e que possibilidades lhes oferecemos?
Então, refugiam-se na tribo, com atitudes tribais: o piercing,
a tatuagem, a dança ao som de música tribal, na qual se sobrepõe a batida dos
tantãs. Negativa? Censurável? Necessária para muitos, a tribo é onde se sentem
acolhidos, abrigados, aceitos.
Escola e família ou se declaram incapazes, ou estão assustadas, ou não se
interessam mais como deveriam. Autoridades, homens públicos, supostos líderes,
muitos deles a gente nem receberia em casa. O que resta? A solidão, a coragem, a
audácia, o fervor, tirados do próprio desejo de sobrevivência e do otimismo que
sobrar. Quero deixar claro que nem todos estão paralisados, pois muitas
famílias saudáveis criam em casa um ambiente de confiança e afeto, de alegria.
Muitas escolas conseguem impor a disciplina essencial para que qualquer
organização ou procedimento funcione, e nem todos os políticos e governantes
são corruptos. Mas quero também declarar que aqueles que o são já bastam para
tirar o fervor e matar o otimismo de qualquer um.
Assim, não acho que todos os jovens sejam arrogantes, todas as crianças
mal-educadas, todas as famílias disfuncionais. Um pouco da doce onipotência da
juventude faz parte, pois os jovens precisam romper laços, transformar vínculos
(não cuspir em cima deles) para se tornar adultos lançados a uma vida muito
difícil, na qual reinam a competitividade, os modelos negativos, os problemas
de mercado de trabalho, as universidades decadentes e uma sensação de
bandalheira geral.
Tenho sete netos e netas. A idade deles vai de 6 a 21 anos. Todos são motivo de alegria e esperança, todos compensam, com seu
jeito particular de ser, qualquer dedicação, esforço, parceria e amor da
família. Não tenho nenhuma visão negativa da juventude, muito menos da
infância. Acho, sim, que nós, os adultos, somos seus grandes devedores, pelo
mundo que lhes estamos legando. Então, quando falo em dificuldades ou mazelas
da juventude, é de nós que estou, melancolicamente, falando.
Luft Lya
Revista Veja - 14/12/2009
http://www.fazenda.gov.br/resenhaeletronica/
|