A conquista da estabilidade da economia abriu as portas do progresso que criou uma nova classe média emergente
no Brasil. A maré montante está criando agora uma leva de brasileiros
milionários que, à custa de trabalho e senso de oportunidade, entraram para o
clube dos que possuem mais de 1 milhão de dólares para gastar. Aos 145000
brasileiros nessa categoria, juntam-se dezenove outros todos os dias. O ídolo
deles é o bilionário Eike Batista
O
nome não está propriamente na ponta da língua (fala-se Eike ou Aike?), mas,
para uma geração de brasileiros que acaba de fazer seu primeiro milhão de
dólares, o que ele representa está bem claro. E o que ele representa não é só
dinheiro, muito dinheiro, mas muuuito dinheiro mesmo. Eike Batista (“Áike” é
a pronúncia correta, informa o próprio), o oitavo homem mais rico da Terra,
dono de vertiginosos 30 bilhões de dólares, inspira os novos milionários
brasileiros porque criou um novo paradigma de magnata: aquele que veio de
baixo, progrediu à própria custa fazendo negócios no
Brasil e, sobretudo, não teme ostentar sua fortuna. A cada dia, surgem no
país dezenove milionários, segundo levantamento do Haliwell Bank, banco
europeu especializado na gestão de fortunas. A reportagem de VEJA conversou
com doze deles. Perguntados – e mesmo sem ser perguntados – sobre seus ídolos,
cinco disseram ter o empresário como modelo. A justificativa, com ligeiras
variações, é sempre a mesma: Eike não tem vergonha de ser rico. E deveria?
Certamente
que não, respondem todos. A ideia de que os ricos servem para gerar riqueza –
e não para espoliar os menos ricos – está no topo da cartilha do novo
milionário (e, não por coincidência, também nos primeiros parágrafos da
autobiografia de Eike, O X
da Questão, atualmente em primeiro lugar na lista dos mais
vendidos). “O crescimento econômico do Brasil e a redução da desigualdade
social ajudaram a desconstruir a ideia de que, se o rico ganha, o pobre vai
perder”, diz o filósofo Denis Rosenfield. “E isso ocorre principalmente
porque as pessoas veem que o sucesso de empresários como Eike está coincidindo
com a melhora no padrão de vida delas próprias.”
Para
descobrir o ritmo de produção dos novos milionários no Brasil, VEJA ouviu
Emerson de Pieri, vice-presidente para a América Latina de Global Wealth
Management do Haliwell Bank. Ele mergulhou nos dados do sistema financeiro
nacional. Comparou números da Receita Federal, do Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (IBGE), do Conselho de Controle de Atividades
Financeiras (Coaf), do Banco Central e de pesquisas da consultoria Merrill
Lynch. Com tudo isso em mãos, detectou quantas pessoas se enquadram na
definição clássica de milionário: aquele que possui mais de 1 milhão de
dólares (1,8 milhão de reais, pelo câmbio corrente) em bens e ativos com
liquidez, ou seja, que podem ser vendidos e transformados em dinheiro
rapidamente. Para efeito desse cálculo, excluem-se
da conta o imóvel em que a pessoa vive, dois de seus carros e os seus
rendimentos fixos mensais. Quem ultrapassa a linha do milhão apenas porque
mora em um apartamento valorizado pela recente alta do mercado imobiliário
também fica fora da conta. Só vale o dinheiro que o sujeito pode,
efetivamente, despender para investimentos. Tudo somado, o resultado que
surge na ponta do lápis é: o Brasil já tem 145000 pessoas no clube dos
milionários. Em média, cada uma delas possui 2,1 milhões de dólares. E os
novos sócios não param de chegar. “Até o fim de 2013, estão dadas as
condições econômicas para que o surgimento de novos milionários se mantenha.
Ao longo deste ano e no próximo, estimamos que mais de 14000 brasileiros vão romper a barreira do milhão de dólares”, afirma De
Pieri.
Essa
previsão é corroborada pelos dados recentes sobre a melhora na distribuição
de renda no Brasil. A mobilidade social nunca foi tão grande por aqui. O
fenômeno que tem concentrado as atenções é o crescimento da classe C: entre
2003 e 2009, 29 milhões de pessoas ascenderam a essa faixa, cuja renda
familiar mensal gravita entre 1100 e 4800 reais. Mas há muito, muito mais
gente galgando degraus. No mesmo período, a classe B, definida pela renda
entre 4800 e 6300 reais por mês, ganhou 3,4 milhões de integrantes. A classe
A, que é formada pelos que ganham acima desse patamar, também encorpou, com
3,2 milhões de novos membros.
O
sucesso econômico de cada um desses grupos estimulou o do outro – e o quadro
geral criou as condições para o surgimento dos novos milionários. “Na última
década, todos os brasileiros foram empurrados para cima. O mesmo movimento
que beneficiou a classe C também aumentou o número de ricos”, explica o economista
Marcelo Neri, da Fundação Getulio Vargas, do Rio de Janeiro, que se
estabeleceu nos últimos anos como o mais reputado pesquisador de renda no
Brasil.
Em
comum, os novos milionários do país enxergam o trabalho como um valor
fundamental. Entre os ouvidos por VEJA, nenhum calçou chinelos depois de
ganhar seu primeiro milhão e foi velejar pelo mundo. Em geral, após o
primeiro, eles passam a se esforçar ainda mais para chegar ao segundo. São
pessoas como o pernambucano João Luiz Perez, de 50 anos. Aos 16, ele começou
a vender na rua fitas piratas que gravava a partir de discos de vinil. Na
juventude, deu aulas de matemática e instalou outdoors nas ruas do Recife
para pagar a faculdade de administração de empresas. Nos anos 90, percebeu
que o boom econômico no Nordeste estava obrigando as empresas a se expandir
com muita velocidade. Resolveu então apostar no ramo de telemarketing para
prestar serviços às empresas da região. No ano passado, faturou 240 milhões
de reais. O Brasil está produzindo um Perez a cada uma hora
e quinze minutos.
Mas
onde eles estão encontrando tanto dinheiro? VEJA ouviu especialistas para
definir os setores da economia em que as fortunas estão brotando, entre eles,
quatro professores de economia e finanças: Simão Davi Silber, da USP, José
Nicolau Pompeo, da PUC, William Eid, da Fundação Getulio Vargas, e Michael
Viriato Araújo, do Insper. Os especialistas são unânimes: nos últimos anos,
quem conseguiu bater a marca de 1 milhão de dólares foram as pessoas que
souberam aproveitar o crescimento do mercado interno brasileiro (alguns
assalariados também chegaram lá – em geral, advogados e executivos de bancos,
mas eles são a minoria). O que há é um surto extraordinário de
empreendedorismo no país, motivado pelo aumento do consumo das famílias. Com
mais facilidades na hora de conseguir qualquer tipo de financiamento, o
brasileiro expandiu seus hábitos de consumo. As operações de crédito já
representam 48% do PIB. O financiamento imobiliário, por exemplo, movimentou
85 bilhões de reais em 2010. O número de cartões de crédito em circulação no
país chegou a 670 milhões em 2011 (mais de três por habitante). Do micro ao
macro, o crédito nunca foi tão farto. Os pequenos empresários que souberam
aproveitar o apetite do consumidor encheram os bolsos de dinheiro.
Na
Idade Média, a Igreja Católica apregoava que apenas a terra poderia sustentar
um homem, nunca o dinheiro. A indústria e o varejo não haviam nascido e o
empréstimo a juros ainda era popularmente conhecido como usura – motivo de
vergonha e perseguição. Mesmo a palavra “lucro” (originária do latim lucrum), que na sua
forma culta tem significado semelhante ao do português, na acepção popular
significava trapaça ou engano – tanto assim que deu origem à palavra “logro”.
Entre tantos contrastes magistralmente apontados pelo sociólogo alemão Max
Weber em seu famoso ensaio de 1905, “A Ética Protestante e o Espírito do
Capitalismo”, registre-se que os povos de língua inglesa consagraram a
palavra profit
para significar lucro. Profit
também tem sua raiz etimológica no latim profectus,
que significa progresso. É um contraste cultural forte de como as duas
religiões encararam a riqueza: um logro para o catolicismo; progresso e
bênção divina para os protestantes.
Posteriormente,
muitos outros pesquisadores enriqueceram a noção de Weber dos efeitos da
religião sobre o progresso material das sociedades, acrescentando elementos
culturais e institucionais à explicação de por que algumas nações
enriqueceram e se desenvolveram rapidamente desde meados do século XIX e
outras mal conseguiram sair do estágio medieval. O grande enigma dessa
equação gira principalmente em torno do berço da Revolução Industrial, com a
indagação de se ela poderia ter eclodido em outro país que não a Inglaterra.
Como resultado da Revolução Industrial, a renda per capita média cresceu dez
vezes e a população seis vezes no mundo ocidental. Nunca houvera uma mudança
tão radical na história econômica humana. Surgiu assim o conceito de “criação
de riqueza”, pois antes da Revolução Industrial países e pessoas enriqueciam
simplesmente empobrecendo os demais. Só a Inglaterra oferecia nos séculos
XVIII e XIX todas as condições materiais e intelectuais para essa revolução:
capital abundante, liberdade de pensamento, direito de propriedade, Justiça
eficiente, individualismo e governo obrigado a prestar contas de seus gastos
ao Parlamento. A China no mesmo período, quem diria, tinha algumas das
condições acima – mas não todas.
Os
chineses há trinta anos lutam para voltar ao centro do palco mundial. “Enriquecer
é glorioso”, decretou Deng Xiaoping em 1976, estabelecendo as palavras de
ordem cujo cumprimento os chineses de hoje, ainda nominalmente comunistas,
perseguem com avidez. O Brasil, finalmente, vem se livrando do preconceito
contra a riqueza e o sucesso. Mas reza o manual politicamente correto do novo
milionário que não basta ganhar honestamente sua montanha de dinheiro, é
necessário repartir parte dela com quem ficou para trás. Diz Dario Caldas, do
Observatório de Sinais, que pesquisa hábitos de consumo no Brasil: “Quem
rompe a marca de 1 milhão de dólares precisa se comportar segundo certas
regras. Fazer doações e se preocupar com o meio ambiente são itens
obrigatórios”. Assim como gastar – sem vergonha de exibir seu sucesso.
Dinheiro digital
Na
onda da internet, o gaúcho Cesar Paz abriu, em 1999, com mais quatro sócios,
uma firma para criar sites corporativos. Com capital pequeno, de 60000 reais,
a AG2 precisava de um peixão grande para alavancá-la e servir de vitrine do
negócio. Paz, que havia trabalhado como vendedor de aviões da Embraer, resolveu então bater à porta da empresa para propor o
desenvolvimento de uma estratégia de comunicação virtual. A Embraer dispunha
apenas de um site com informações básicas desatualizadas. Ele teve de
negociar por um ano até fechar o contrato. “Era difícil convencer as pessoas
a investir em internet naquele tempo.” A partir do trabalho com a Embraer, o
negócio começou a deslanchar. Em 2005, a AG2 realizou uma campanha 100%
digital para uma montadora a fim de comprovar que publicidade na internet dá
dinheiro. O sucesso da iniciativa chamou atenção. Em 2010, a maior parte da
agência foi vendida à multinacional francesa Publicis – com Paz dentro, na
condição de presidente e novo milionário brasileiro.
SETOR
EM QUE ATUA: Comunicação digital.
POR
QUE ELE DÁ DINHEIRO: Investir em visibilidade na internet tornou-se vital
para qualquer empresa. Com isso, o faturamento das agências digitais aumentou
51% entre 2010 e 2011.
Picado pelo sucesso
Em
2005, a empresa de distribuição de equipamentos para diagnósticos que
Vinícius Pereira fundou em Belo Horizonte estava na lama: devia dez vezes o
seu faturamento. Aconselhado pela família a fechá-la, ele teimou: passou a
trabalhar noite e dia para salvá-la. Naquele ano, o Brasil viveu um surto de
dengue, e Pereira era o único distribuidor que tinha em estoque kits de
testes rápidos para diagnosticar a doença. Em um ano, quintuplicou seu
faturamento. Investiu em mais kits, usados para identificar diversas
enfermidades, e cresceu muito. Em 2010, uma empresa americana comprou sua
distribuidora e ele ganhou dinheiro para nunca mais precisar trabalhar. Ainda
o faz, mas só por prazer. Sua coleção de carros e barcos inclui duas lanchas,
uma Armada 300 e uma Ferretti 530, um Mini Cooper e um Mercedes-Benz XL, além
do seu xodó, uma Ferrari California – vermelha, como convém a um milionário.
SETOR
EM QUE ATUA: Venda de kits de diagnóstico.
POR
QUE ELE DÁ DINHEIRO: O ramo de diagnóstico in vitro cresce em média 11% ao
ano desde 2006. Os kits de testes rápidos passaram a ser comprados em larga
escala por prefeituras e governos estaduais.
De rico para rico
A Vinhais Comercial foi
fundada em São Paulo por Jose Antonio Morais, um imigrante português, em
1985. Seu filho, Jorge, ajudava na administração da loja e, para aumentar o
faturamento, fazia pequenas entregas de laticínios para amigos donos de
restaurantes. Em 1991, decidiu investir no ramo de distribuição, que parecia
promissor. Convocou a irmã, Fátima, para ajudar no negócio. Especializaram-se
em fornecer produtos para restaurantes e hotéis refinados. Nos últimos cinco
anos, as classes A e B encorparam e a Vinhais aproveitou a onda. De 2007 a
2011, o faturamento da empresa quase triplicou e os irmãos romperam a
barreira do milhão de dólares. Eles vendem para o país todo, criaram uma
marca própria de queijos e já procuram uma sede maior que o prédio de três
andares que ocupam atualmente.
SETOR
EM QUE ATUAM: Distribuição de laticínios.
POR
QUE ELE DÁ DINHEIRO: Desde 2003, os laticínios são o segundo setor da
indústria de alimentação em que mais se investe,
atrás apenas da área de chocolates e balas. O consumo de queijo no Brasil,
por exemplo, aumentou 58% na última década.
O
império da cueca
Adolescente,
o carioca Ricardo Moraes, de 49 anos, trabalhava como camelô de lingerie em
uma estação de trem no centro do Rio. No trajeto até lá, lia um livro que
virou sua bíblia: Como Vender Qualquer Coisa a Qualquer Um, best-seller de um
vendedor de automóveis americano. Das banquinhas de rua, passou a
representante de vendas de uma marca de calcinhas. A mudança para as cuecas
se deu em 1990, depois de uma briga com a fábrica. “Comprei uma máquina e
contratei uma costureira”, conta. A evolução do negócio foi constante, mas
lenta. Só na década seguinte a marca virou uma das líderes de mercado. Moraes
deixou para trás a vida no subúrbio e mudou-se para um apartamento na Barra
da Tijuca. Vende 15 milhões de cuecas por ano e tem 1000 funcionários. Mas
ainda trabalha onze horas por dia, sem folga nos fins de semana. O ano de
2011 foi difícil por causa da chegada dos chineses ao mercado. “Mas quem quer
se dar bem no Brasil não tem tempo de reclamar”, diz ele.
SETOR
EM QUE ATUA: Confecção de roupas íntimas masculinas.
POR
QUE ELE DÁ DINHEIRO: O crescimento da economia fez com que os brasileiros
passassem a gastar mais com itens considerados supérfluos, como roupas
íntimas. Desde 2007, o setor cresce 14% ao ano.
Dinheiro que vem pelo cano
Com
três amigos, Vilson Perin conseguiu o que todo empresário almeja: enxergar a
quilômetros de distância um filão de mercado pouquíssimo explorado. O ano era
1994 e a cidade, Joinville, em Santa Catarina. Os quatro trabalhavam em uma
fábrica local de conexões de PVC, nicho dominado pelo gigante Tigre. Ao
notarem o crescimento da demanda por tubos e conexões, pediram demissão de
seu emprego, conseguiram um empréstimo de 300000 reais no BNDES e montaram a
Krona, hoje a terceira do ramo no país. Fatura 160 milhões de reais por ano e
perde apenas para a Tigre e a Amanco, a fábrica onde eles começaram. Para
este ano, o grupo planeja concluir uma nova fábrica em Alagoas, a partir de
onde pretende abastecer o Norte e o Nordeste. “O que me move é ver a empresa
crescer”, diz Perin.
SETOR
EM QUE ATUA: Material para construção civil.
POR
QUE ELE DÁ DINHEIRO: O segmento decolou com o aumento da oferta de crédito
imobiliário. Em 2010, os brasileiros usaram 85 bilhões de reais em
financiamentos para comprar imóveis novos e usados. Só o setor de material de
construção movimentou 105 bilhões de reais.
Ele não está a passeio
Na
adolescência, Alexandre Gehlen passava as férias trabalhando na pequena
pousada dos avós, em Gramado, no Rio Grande do Sul. Hoje, aos 45 anos,
administra a InterCity, rede de dezoito hotéis
espalhados pelo Brasil e Uruguai, e supervisiona a construção de outros 22,
que estarão prontos até a Copa de 2014. O crescimento se deu em apenas doze
anos. Em 1999, a General Motors instalou uma fábrica de carros em Gravataí,
no Rio Grande do Sul. Gehlen apostou em uma ideia nova: um hotel econômico, perto
do centro, para atender o público que viajaria até ali a trabalho. Três anos
depois, ele já havia aberto outras três unidades semelhantes no sul. Desde
então, seu faturamento cresce 30% ao ano. A maioria do dinheiro é
reinvestida. “Guardo minha parte nos lucros para dar às minhas filhas a
melhor educação que o dinheiro pode comprar”, diz.
SETOR
EM QUE ATUA: Hotelaria especializada em turismo de negócios.
POR
QUE ELE DÁ DINHEIRO: Desde 2004, o ramo de hotelaria cresce 10% ao ano, mas
as estrelas do segmento são os hotéis voltados para atender quem viaja a
trabalho pelas capitais e cidades médias do Brasil: esse tipo de turismo, o
de negócios, tem crescido 40% ao ano.
Milionário mochileiro
O
paulistano Osmar Baboin, de 49 anos, não tem nada de nerd e gosta mesmo é de
colocar uma roupa surrada e fazer trilhas e pedalar mato adentro, mesmo que
tenha de acampar ou se hospedar em pousadas. Ele se tornou milionário com o
Fliperama, um dos primeiros sites de jogos do Brasil. Ele reúne diversos
jogos, criados por ele ou não, e os oferece gratuitamente no site. Embora a
audiência não seja tão impressionante assim (gira em torno de 83000 usuários
por dia), seu público é do tipo que os anunciantes gostam: permanece muito
tempo on-line e é consumidor voraz. A boa receita com publicidade fez com que
ele conseguisse seu primeiro milhão em 2008. E, mesmo tendo por princípio
trabalhar no máximo oito horas por dia, já está perto do segundo.
SETOR
EM QUE ATUA: Jogos na internet.
POR
QUE ELE DÁ DINHEIRO: A audiência da internet brasileira cresce sem parar há anos, mas o mercado publicitário começou a investir
pesado no segmento pouco tempo atrás. Em 2008, a publicidade on-line
movimentou 1,6 bilhão de reais no Brasil. Em 2010, o valor dobrou.
Dinheiro que dá em árvore
Com
sementes colhidas por ele próprio e um arado puxado por burros, Ernesto
Carvalho Dias inaugurou a produção de eucaliptos em Poços de Caldas (MG), na
década de 50. A colheita foi tão ruim que ele desistiu do negócio e foi,
literalmente, plantar batata. Nos anos 80, tentou de novo. Mas o esforço só
foi recompensado em 2003, quando surgiram as primeiras sementes clonadas.
Muita gente desconfiou da novidade, e Dias resolveu apostar nela. Não se
arrependeu: o método aumenta em 40% a produtividade por hectare. Hoje, aos 86
anos, Dias pode relaxar: atingiu seu primeiro milhão de dólares – mas não
pendurou as botinas: ainda confere sua plantação todo dia.
SETOR
EM QUE ATUA: Produção de eucalipto.
POR
QUE ELE DÁ DINHEIRO: Com a nova tecnologia de clonagem de sementes, o Brasil
tornou-se o maior produtor mundial de eucalipto. A procura pela madeira
também deu um salto: na última década, a demanda por celulose para papel
cresceu 25% e a de painéis de madeira industrializada, usados em móveis
populares, 110%.
Carregado de lucros
A
vida de Edson Luiz Marocco, de 42 anos, mudou da água para o vinho em três
anos. Filho de agricultores, até o início de 2008 ele vivia sozinho,
trabalhava em uma transportadora de São Paulo e tinha dois caminhõezinhos. Em
2007, seu patrão morreu e Marocco não conseguiu se entender com os herdeiros.
Ao perceber que o aumento do consumo de alimentos estava provocando o
crescimento da demanda por transportadoras da parte dos supermercados do
Sudeste, decidiu deixar a empresa onde trabalhou por doze anos para montar um
negócio próprio. Hoje, Marocco está casado com Elizangela, seu braço direito
nos negócios, teve outros dois filhos (tinha só um) e presta serviços para
todas as grandes redes de supermercados de São Paulo. Os dois caminhõezinhos
viraram 35 – e a frota vai dobrar até o fim do ano. O faturamento ele não
conta, mas está bem acima da linha que separa os ricos dos muito ricos.
SETOR
EM QUE ATUA: Transporte de alimentos.
POR
QUE ELE DÁ DINHEIRO: As vendas dos supermercados cresceram 13% nos últimos
cinco anos. Para suprir a demanda, grandes e pequenas lojas tiveram de
contratar empresas especializadas em transporte de produtos.
Da fabriquinha para a bolsa
O
dentista Julio Dahis e sua mulher, a arquiteta Rose,
nunca foram notáveis em sua profissão de origem. Em 1988, aproveitando o fato
de que o pai de Rose tinha uma pequena confecção, resolveram entrar no ramo
para complementar o orçamento. Passaram a fabricar roupas para grandes
varejistas e chegaram a ter 500 funcionários. Quando, porém, a Mesbla, seu
principal cliente, faliu, o casal foi junto. Dahis teve de superar uma
depressão antes de recomeçar. Tomou um empréstimo e montou a Enjoy, em 1996,
uma marca de moda feminina que, ao contrário da antiga confecção, não o
obrigaria a ficar a reboque de uma grande empresa. Em quinze anos, a Enjoy
conquistou 34 lojas próprias, 27 franquias e está em 300 multimarcas. Só em
2011, o casal faturou 75 milhões de reais. Quando ganharam seu primeiro
milhão de dólares, em 2008, eles festejaram hospedando-se em um hotel seis
estrelas na África do Sul. O segundo milhão veio em 2011. “Nossa meta é
chegar a 100 lojas, preparar uma fusão e entrar na bolsa de valores”, diz o
milionário.
SETOR
EM QUE ATUAM: Varejo de roupas.
POR
QUE ELE DÁ DINHEIRO: Nos últimos cinco anos, o volume de vendas no setor de
vestuário cresceu 32%, o que abriu espaço para novas marcas se expandirem.
À beira-mar
Ele
já vendeu fitas piratas, deu aulas de matemática e instalou outdoors nas
ruas. Hoje, a vida é muito mais tranquila. Todos os dias, o empresário
recifense João Luiz Perez, de 50 anos, se levanta às 5 horas da manhã e lê um
livro na sacada de sua cobertura de 700 metros quadrados à beira-mar, na
Praia de Boa Viagem. O imóvel reflete a virada financeira que ele
experimentou nos últimos seis anos. A empresa de call center
que montou com três sócios nos anos 90, a Provider, deslanchou com o boom
econômico nordestino. Em 2011, faturou 240 milhões de reais. Com o bolso
cheio, Perez e a família agora fazem cruzeiros pelo Caribe e pela Europa e
compraram uma lancha Royal Mariner 370, que comporta doze pessoas – uma nova
custa 390000 reais. “Rico é quem pode curtir a vida”, afirma.
SETOR
EM QUE ATUA: Prestação de serviços de telemarketing.
POR
QUE ELE DÁ DINHEIRO: Impulsionadas pelo crescimento econômico e por uma nova
lei que obrigou as empresas a reduzir o tempo de espera para atendimento
telefônico de clientes, as companhias de call center
aumentaram seu faturamento em 22% entre 2008 e 2010.
Crescimento chinês
Os
cariocas André Vasconcellos e José Ilidio se conheceram nos anos 90, quando
vendiam carros usados. Desde então, alimentavam a ideia de abrir uma
concessionária. Com a entrada dos carros chineses no Brasil, vislumbraram aí
um pote de ouro. Procuraram a Chery por telefone, mas foram rejeitados. Os
chineses acharam que eles não tinham suficiente experiência, tampouco
capital, para abrir o negócio. A dupla insistiu: no mês seguinte, eles
viajaram para São Paulo para tentar convencer os diretores da empresa.
Gastaram o seu latim por mais de uma hora e, no final, acabaram aceitos.
Abriram a primeira loja no bairro de Campo Grande, na Zona Oeste. No primeiro
ano, venderam 432 carros. No segundo, 1052. Hoje, já têm outras duas
concessionárias, em Duque de Caxias e Nova Iguaçu, e planejam mais uma para
este ano.
SETOR
EM QUE ATUAM: Comércio de carros chineses.
POR
QUE ELE DÁ DINHEIRO: As vendas de veículos cresceram 88% nos últimos cinco
anos, impulsionadas pelo aumento do crédito. As montadoras chinesas ganharam
espaço: 35% dos importados vendidos aqui vêm do país asiático.
"Serei
o mais rico do mundo"
O
hall de entrada da casa de Eike Fuhrken Batista, de 55 anos, é a perfeita
expressão de sua personalidade. Dois carros esporte,
um Lamborghini branco e um Mercedes prateado, ladeiam o piano de cauda branco
cercado por poltronas do lendário Hotel Glória, comprado por ele em 2008 para
ser totalmente reformado. Com uma fortuna de 30 bilhões de dólares, sócio de
dezessete empresas em setores tão diversos como mineração, petróleo e
entretenimento, Eike não faz segredo de sua riqueza. Pelo contrário, exibe-a.
Pregando o valor da ambição, tornou-se uma espécie de ícone do sucesso para o
brasileiro comum. Crianças o param na rua para pedir autógrafo. Muitos o
consideram a maior personalidade do Rio de Janeiro. Solicitações de
financiamento e ideias para novos negócios transbordam de sua caixa de
mensagens no Twitter e das mesas de suas três secretárias. Seu livro "O
X da Questão" – misto de biografia e manual de
autoajuda para empreendedores – já atingiu a tiragem de 100000
exemplares. “Isso é bom. Mostra que as pessoas estão entendendo a minha
mensagem”. A seguir, sua entrevista à editora Malu Gaspar.
O senhor se considera um modelo para os
brasileiros que almejam ser ricos? Felizmente, sim. Está florescendo um
novo capitalismo no Brasil, formado por empreendedores que se orgulham do
próprio sucesso e não têm vergonha de mostrar o dinheiro que têm. É
exatamente esse o discurso que venho repetindo há anos, desde que comecei a
levar minhas empresas à bolsa, mesmo sendo visto com desconfiança por alguns.
Se ganhei dinheiro com meu próprio trabalho, por que
não falar sobre isso abertamente? Se é um cantor
sertanejo ou um jogador de futebol que demonstram ser rico, ninguém estranha.
Acham até bacana. Mas, se é um empresário, todos reagem mal. Aos poucos, vejo
isso mudar. Outro dia mesmo, um imigrante nordestino me parou na rua enquanto
eu corria e perguntou: “O senhor tem noção do que representa para quem tem
esperança de melhorar de vida?”. Ele me abraçou e começou a chorar. Chorei
junto. Nunca imaginei algo assim acontecendo comigo.
O que, em sua opinião, fez essa mentalidade
mudar? Por
gerações, os brasileiros aprenderam com seus pais que, no Brasil, as coisas
sempre dão errado, e só se fica rico à custa de falcatruas. De fato, por
décadas vimos empresas prosperar graças ao dinheiro do governo, e não à
produtividade ou eficiência. O momento atual é bem diferente. O Brasil é um
país estável, que respeita contratos. Todos querem investir e ganhar dinheiro
aqui. E eu, sem falsa modéstia, sou um dos primeiros que os estrangeiros
procuram. Querem saber como construí minhas empresas e de que forma podem se
associar a mim. Lá fora, quem empreende e ganha dinheiro é respeitado. Ter
ambição é bom, faz o país progredir.
O tratamento entre seus pares empresários
também mudou?
Muito. Embora no nosso meio essas coisas sejam veladas, sempre senti uma certa frieza, principalmente por parte dos empresários
mais tradicionais. Eu era visto como aventureiro. Não faltou quem me dissesse
para eu me expor menos, não mostrar minha casa, meus barcos ou meus carros.
Diziam que não pegava bem. Ignorei esses conselhos e mantive o foco. Trabalho
vinte horas por dia, gero riqueza e dou retorno à
sociedade em forma de impostos, empregos e doações de todo tipo. Por que me
esconder?
O público não estava acostumado a ver
empresários ostentando uma vida de luxo? É verdade. Mas
também não estava acostumado a ver alguém tão rico se comportar como uma
pessoa normal, que fala sobre qualquer assunto com clareza e transparência.
Não faço mistério da minha riqueza, assim como não escondo minhas plásticas
ou implantes capilares. Isso faz com que me vejam como um
igual. Ouço muitas boas ideias vindas de gente comum. Esse é um
retorno extraordinário que só alimenta um círculo virtuoso.
A meta de ser o homem mais rico do mundo
está mantida?
Isso nem é mais uma meta. Com as empresas que já tenho, eu serei o homem mais
rico do mundo em 2015 ou 2016. Não monto minhas empresas para isso, mas agora
também não abro mão de chegar lá.
Veja - 16/01/2012