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Eu quero ser Eike


A conquista da estabilidade da economia abriu as portas do progresso que criou uma nova classe média emergente no Brasil. A maré montante está criando agora uma leva de brasileiros milionários que, à custa de trabalho e senso de oportunidade, entraram para o clube dos que possuem mais de 1 milhão de dólares para gastar. Aos 145000 brasileiros nessa categoria, juntam-se dezenove outros todos os dias. O ídolo deles é o bilionário Eike Batista

O nome não está propriamente na ponta da língua (fala-se Eike ou Aike?), mas, para uma geração de brasileiros que acaba de fazer seu primeiro milhão de dólares, o que ele representa está bem claro. E o que ele representa não é só dinheiro, muito dinheiro, mas muuuito dinheiro mesmo. Eike Batista (“Áike” é a pronúncia correta, informa o próprio), o oitavo homem mais rico da Terra, dono de vertiginosos 30 bilhões de dólares, inspira os novos milionários brasileiros porque criou um novo paradigma de magnata: aquele que veio de baixo, progrediu à própria custa fazendo negócios no Brasil e, sobretudo, não teme ostentar sua fortuna. A cada dia, surgem no país dezenove milionários, segundo levantamento do Haliwell Bank, banco europeu especializado na gestão de fortunas. A reportagem de VEJA conversou com doze deles. Perguntados – e mesmo sem ser perguntados – sobre seus ídolos, cinco disseram ter o empresário como modelo. A justificativa, com ligeiras variações, é sempre a mesma: Eike não tem vergonha de ser rico. E deveria?

Certamente que não, respondem todos. A ideia de que os ricos servem para gerar riqueza – e não para espoliar os menos ricos – está no topo da cartilha do novo milionário (e, não por coincidência, também nos primeiros parágrafos da autobiografia de Eike, O X da Questão, atualmente em primeiro lugar na lista dos mais vendidos). “O crescimento econômico do Brasil e a redução da desigualdade social ajudaram a desconstruir a ideia de que, se o rico ganha, o pobre vai perder”, diz o filósofo Denis Rosenfield. “E isso ocorre principalmente porque as pessoas veem que o sucesso de empresários como Eike está coincidindo com a melhora no padrão de vida delas próprias.”

Para descobrir o ritmo de produção dos novos milionários no Brasil, VEJA ouviu Emerson de Pieri, vice-presidente para a América Latina de Global Wealth Management do Haliwell Bank. Ele mergulhou nos dados do sistema financeiro nacional. Comparou números da Receita Federal, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), do Banco Central e de pesquisas da consultoria Merrill Lynch. Com tudo isso em mãos, detectou quantas pessoas se enquadram na definição clássica de milionário: aquele que possui mais de 1 milhão de dólares (1,8 milhão de reais, pelo câmbio corrente) em bens e ativos com liquidez, ou seja, que podem ser vendidos e transformados em dinheiro rapidamente. Para efeito desse cálculo, excluem-se da conta o imóvel em que a pessoa vive, dois de seus carros e os seus rendimentos fixos mensais. Quem ultrapassa a linha do milhão apenas porque mora em um apartamento valorizado pela recente alta do mercado imobiliário também fica fora da conta. Só vale o dinheiro que o sujeito pode, efetivamente, despender para investimentos. Tudo somado, o resultado que surge na ponta do lápis é: o Brasil já tem 145000 pessoas no clube dos milionários. Em média, cada uma delas possui 2,1 milhões de dólares. E os novos sócios não param de chegar. “Até o fim de 2013, estão dadas as condições econômicas para que o surgimento de novos milionários se mantenha. Ao longo deste ano e no próximo, estimamos que mais de 14000 brasileiros vão romper a barreira do milhão de dólares”, afirma De Pieri.

Essa previsão é corroborada pelos dados recentes sobre a melhora na distribuição de renda no Brasil. A mobilidade social nunca foi tão grande por aqui. O fenômeno que tem concentrado as atenções é o crescimento da classe C: entre 2003 e 2009, 29 milhões de pessoas ascenderam a essa faixa, cuja renda familiar mensal gravita entre 1100 e 4800 reais. Mas há muito, muito mais gente galgando degraus. No mesmo período, a classe B, definida pela renda entre 4800 e 6300 reais por mês, ganhou 3,4 milhões de integrantes. A classe A, que é formada pelos que ganham acima desse patamar, também encorpou, com 3,2 milhões de novos membros.

O sucesso econômico de cada um desses grupos estimulou o do outro – e o quadro geral criou as condições para o surgimento dos novos milionários. “Na última década, todos os brasileiros foram empurrados para cima. O mesmo movimento que beneficiou a classe C também aumentou o número de ricos”, explica o economista Marcelo Neri, da Fundação Getulio Vargas, do Rio de Janeiro, que se estabeleceu nos últimos anos como o mais reputado pesquisador de renda no Brasil.

Em comum, os novos milionários do país enxergam o trabalho como um valor fundamental. Entre os ouvidos por VEJA, nenhum calçou chinelos depois de ganhar seu primeiro milhão e foi velejar pelo mundo. Em geral, após o primeiro, eles passam a se esforçar ainda mais para chegar ao segundo. São pessoas como o pernambucano João Luiz Perez, de 50 anos. Aos 16, ele começou a vender na rua fitas piratas que gravava a partir de discos de vinil. Na juventude, deu aulas de matemática e instalou outdoors nas ruas do Recife para pagar a faculdade de administração de empresas. Nos anos 90, percebeu que o boom econômico no Nordeste estava obrigando as empresas a se expandir com muita velocidade. Resolveu então apostar no ramo de telemarketing para prestar serviços às empresas da região. No ano passado, faturou 240 milhões de reais. O Brasil está produzindo um Perez a cada uma hora e quinze minutos.

Mas onde eles estão encontrando tanto dinheiro? VEJA ouviu especialistas para definir os setores da economia em que as fortunas estão brotando, entre eles, quatro professores de economia e finanças: Simão Davi Silber, da USP, José Nicolau Pompeo, da PUC, William Eid, da Fundação Getulio Vargas, e Michael Viriato Araújo, do Insper. Os especialistas são unânimes: nos últimos anos, quem conseguiu bater a marca de 1 milhão de dólares foram as pessoas que souberam aproveitar o crescimento do mercado interno brasileiro (alguns assalariados também chegaram lá – em geral, advogados e executivos de bancos, mas eles são a minoria). O que há é um surto extraordinário de empreendedorismo no país, motivado pelo aumento do consumo das famílias. Com mais facilidades na hora de conseguir qualquer tipo de financiamento, o brasileiro expandiu seus hábitos de consumo. As operações de crédito já representam 48% do PIB. O financiamento imobiliário, por exemplo, movimentou 85 bilhões de reais em 2010. O número de cartões de crédito em circulação no país chegou a 670 milhões em 2011 (mais de três por habitante). Do micro ao macro, o crédito nunca foi tão farto. Os pequenos empresários que souberam aproveitar o apetite do consumidor encheram os bolsos de dinheiro.

Na Idade Média, a Igreja Católica apregoava que apenas a terra poderia sustentar um homem, nunca o dinheiro. A indústria e o varejo não haviam nascido e o empréstimo a juros ainda era popularmente conhecido como usura – motivo de vergonha e perseguição. Mesmo a palavra “lucro” (originária do latim lucrum), que na sua forma culta tem significado semelhante ao do português, na acepção popular significava trapaça ou engano – tanto assim que deu origem à palavra “logro”. Entre tantos contrastes magistralmente apontados pelo sociólogo alemão Max Weber em seu famoso ensaio de 1905, “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”, registre-se que os povos de língua inglesa consagraram a palavra profit para significar lucro. Profit também tem sua raiz etimológica no latim profectus, que significa progresso. É um contraste cultural forte de como as duas religiões encararam a riqueza: um logro para o catolicismo; progresso e bênção divina para os protestantes.

Posteriormente, muitos outros pesquisadores enriqueceram a noção de Weber dos efeitos da religião sobre o progresso material das sociedades, acrescentando elementos culturais e institucionais à explicação de por que algumas nações enriqueceram e se desenvolveram rapidamente desde meados do século XIX e outras mal conseguiram sair do estágio medieval. O grande enigma dessa equação gira principalmente em torno do berço da Revolução Industrial, com a indagação de se ela poderia ter eclodido em outro país que não a Inglaterra. Como resultado da Revolução Industrial, a renda per capita média cresceu dez vezes e a população seis vezes no mundo ocidental. Nunca houvera uma mudança tão radical na história econômica humana. Surgiu assim o conceito de “criação de riqueza”, pois antes da Revolução Industrial países e pessoas enriqueciam simplesmente empobrecendo os demais. Só a Inglaterra oferecia nos séculos XVIII e XIX todas as condições materiais e intelectuais para essa revolução: capital abundante, liberdade de pensamento, direito de propriedade, Justiça eficiente, individualismo e governo obrigado a prestar contas de seus gastos ao Parlamento. A China no mesmo período, quem diria, tinha algumas das condições acima – mas não todas.

Os chineses há trinta anos lutam para voltar ao centro do palco mundial. “Enriquecer é glorioso”, decretou Deng Xiaoping em 1976, estabelecendo as palavras de ordem cujo cumprimento os chineses de hoje, ainda nominalmente comunistas, perseguem com avidez. O Brasil, finalmente, vem se livrando do preconceito contra a riqueza e o sucesso. Mas reza o manual politicamente correto do novo milionário que não basta ganhar honestamente sua montanha de dinheiro, é necessário repartir parte dela com quem ficou para trás. Diz Dario Caldas, do Observatório de Sinais, que pesquisa hábitos de consumo no Brasil: “Quem rompe a marca de 1 milhão de dólares precisa se comportar segundo certas regras. Fazer doações e se preocupar com o meio ambiente são itens obrigatórios”. Assim como gastar – sem vergonha de exibir seu sucesso.

Dinheiro digital 

Na onda da internet, o gaúcho Cesar Paz abriu, em 1999, com mais quatro sócios, uma firma para criar sites corporativos. Com capital pequeno, de 60000 reais, a AG2 precisava de um peixão grande para alavancá-la e servir de vitrine do negócio. Paz, que havia trabalhado como vendedor de aviões da Embraer, resolveu então bater à porta da empresa para propor o desenvolvimento de uma estratégia de comunicação virtual. A Embraer dispunha apenas de um site com informações básicas desatualizadas. Ele teve de negociar por um ano até fechar o contrato. “Era difícil convencer as pessoas a investir em internet naquele tempo.” A partir do trabalho com a Embraer, o negócio começou a deslanchar. Em 2005, a AG2 realizou uma campanha 100% digital para uma montadora a fim de comprovar que publicidade na internet dá dinheiro. O sucesso da iniciativa chamou atenção. Em 2010, a maior parte da agência foi vendida à multinacional francesa Publicis – com Paz dentro, na condição de presidente e novo milionário brasileiro.

SETOR EM QUE ATUA: Comunicação digital.

POR QUE ELE DÁ DINHEIRO: Investir em visibilidade na internet tornou-se vital para qualquer empresa. Com isso, o faturamento das agências digitais aumentou 51% entre 2010 e 2011.

Picado pelo sucesso

Em 2005, a empresa de distribuição de equipamentos para diagnósticos que Vinícius Pereira fundou em Belo Horizonte estava na lama: devia dez vezes o seu faturamento. Aconselhado pela família a fechá-la, ele teimou: passou a trabalhar noite e dia para salvá-la. Naquele ano, o Brasil viveu um surto de dengue, e Pereira era o único distribuidor que tinha em estoque kits de testes rápidos para diagnosticar a doença. Em um ano, quintuplicou seu faturamento. Investiu em mais kits, usados para identificar diversas enfermidades, e cresceu muito. Em 2010, uma empresa americana comprou sua distribuidora e ele ganhou dinheiro para nunca mais precisar trabalhar. Ainda o faz, mas só por prazer. Sua coleção de carros e barcos inclui duas lanchas, uma Armada 300 e uma Ferretti 530, um Mini Cooper e um Mercedes-Benz XL, além do seu xodó, uma Ferrari California – vermelha, como convém a um milionário.

SETOR EM QUE ATUA: Venda de kits de diagnóstico.

POR QUE ELE DÁ DINHEIRO: O ramo de diagnóstico in vitro cresce em média 11% ao ano desde 2006. Os kits de testes rápidos passaram a ser comprados em larga escala por prefeituras e governos estaduais.

De rico para rico

A Vinhais Comercial foi fundada em São Paulo por Jose Antonio Morais, um imigrante português, em 1985. Seu filho, Jorge, ajudava na administração da loja e, para aumentar o faturamento, fazia pequenas entregas de laticínios para amigos donos de restaurantes. Em 1991, decidiu investir no ramo de distribuição, que parecia promissor. Convocou a irmã, Fátima, para ajudar no negócio. Especializaram-se em fornecer produtos para restaurantes e hotéis refinados. Nos últimos cinco anos, as classes A e B encorparam e a Vinhais aproveitou a onda. De 2007 a 2011, o faturamento da empresa quase triplicou e os irmãos romperam a barreira do milhão de dólares. Eles vendem para o país todo, criaram uma marca própria de queijos e já procuram uma sede maior que o prédio de três andares que ocupam atualmente.

SETOR EM QUE ATUAM: Distribuição de laticínios.

POR QUE ELE DÁ DINHEIRO: Desde 2003, os laticínios são o segundo setor da indústria de alimentação em que mais se investe, atrás apenas da área de chocolates e balas. O consumo de queijo no Brasil, por exemplo, aumentou 58% na última década.

O império da cueca

Adolescente, o carioca Ricardo Moraes, de 49 anos, trabalhava como camelô de lingerie em uma estação de trem no centro do Rio. No trajeto até lá, lia um livro que virou sua bíblia: Como Vender Qualquer Coisa a Qualquer Um, best-seller de um vendedor de automóveis americano. Das banquinhas de rua, passou a representante de vendas de uma marca de calcinhas. A mudança para as cuecas se deu em 1990, depois de uma briga com a fábrica. “Comprei uma máquina e contratei uma costureira”, conta. A evolução do negócio foi constante, mas lenta. Só na década seguinte a marca virou uma das líderes de mercado. Moraes deixou para trás a vida no subúrbio e mudou-se para um apartamento na Barra da Tijuca. Vende 15 milhões de cuecas por ano e tem 1000 funcionários. Mas ainda trabalha onze horas por dia, sem folga nos fins de semana. O ano de 2011 foi difícil por causa da chegada dos chineses ao mercado. “Mas quem quer se dar bem no Brasil não tem tempo de reclamar”, diz ele.

SETOR EM QUE ATUA: Confecção de roupas íntimas masculinas.

POR QUE ELE DÁ DINHEIRO: O crescimento da economia fez com que os brasileiros passassem a gastar mais com itens considerados supérfluos, como roupas íntimas. Desde 2007, o setor cresce 14% ao ano.

Dinheiro que vem pelo cano

Com três amigos, Vilson Perin conseguiu o que todo empresário almeja: enxergar a quilômetros de distância um filão de mercado pouquíssimo explorado. O ano era 1994 e a cidade, Joinville, em Santa Catarina. Os quatro trabalhavam em uma fábrica local de conexões de PVC, nicho dominado pelo gigante Tigre. Ao notarem o crescimento da demanda por tubos e conexões, pediram demissão de seu emprego, conseguiram um empréstimo de 300000 reais no BNDES e montaram a Krona, hoje a terceira do ramo no país. Fatura 160 milhões de reais por ano e perde apenas para a Tigre e a Amanco, a fábrica onde eles começaram. Para este ano, o grupo planeja concluir uma nova fábrica em Alagoas, a partir de onde pretende abastecer o Norte e o Nordeste. “O que me move é ver a empresa crescer”, diz Perin.

SETOR EM QUE ATUA: Material para construção civil.

POR QUE ELE DÁ DINHEIRO: O segmento decolou com o aumento da oferta de crédito imobiliário. Em 2010, os brasileiros usaram 85 bilhões de reais em financiamentos para comprar imóveis novos e usados. Só o setor de material de construção movimentou 105 bilhões de reais.

Ele não está a passeio

Na adolescência, Alexandre Gehlen passava as férias trabalhando na pequena pousada dos avós, em Gramado, no Rio Grande do Sul. Hoje, aos 45 anos, administra a InterCity, rede de dezoito hotéis espalhados pelo Brasil e Uruguai, e supervisiona a construção de outros 22, que estarão prontos até a Copa de 2014. O crescimento se deu em apenas doze anos. Em 1999, a General Motors instalou uma fábrica de carros em Gravataí, no Rio Grande do Sul. Gehlen apostou em uma ideia nova: um hotel econômico, perto do centro, para atender o público que viajaria até ali a trabalho. Três anos depois, ele já havia aberto outras três unidades semelhantes no sul. Desde então, seu faturamento cresce 30% ao ano. A maioria do dinheiro é reinvestida. “Guardo minha parte nos lucros para dar às minhas filhas a melhor educação que o dinheiro pode comprar”, diz.

SETOR EM QUE ATUA: Hotelaria especializada em turismo de negócios.

POR QUE ELE DÁ DINHEIRO: Desde 2004, o ramo de hotelaria cresce 10% ao ano, mas as estrelas do segmento são os hotéis voltados para atender quem viaja a trabalho pelas capitais e cidades médias do Brasil: esse tipo de turismo, o de negócios, tem crescido 40% ao ano.

Milionário mochileiro

O paulistano Osmar Baboin, de 49 anos, não tem nada de nerd e gosta mesmo é de colocar uma roupa surrada e fazer trilhas e pedalar mato adentro, mesmo que tenha de acampar ou se hospedar em pousadas. Ele se tornou milionário com o Fliperama, um dos primeiros sites de jogos do Brasil. Ele reúne diversos jogos, criados por ele ou não, e os oferece gratuitamente no site. Embora a audiência não seja tão impressionante assim (gira em torno de 83000 usuários por dia), seu público é do tipo que os anunciantes gostam: permanece muito tempo on-line e é consumidor voraz. A boa receita com publicidade fez com que ele conseguisse seu primeiro milhão em 2008. E, mesmo tendo por princípio trabalhar no máximo oito horas por dia, já está perto do segundo.

SETOR EM QUE ATUA: Jogos na internet.

POR QUE ELE DÁ DINHEIRO: A audiência da internet brasileira cresce sem parar anos, mas o mercado publicitário começou a investir pesado no segmento pouco tempo atrás. Em 2008, a publicidade on-line movimentou 1,6 bilhão de reais no Brasil. Em 2010, o valor dobrou.

Dinheiro que dá em árvore 

Com sementes colhidas por ele próprio e um arado puxado por burros, Ernesto Carvalho Dias inaugurou a produção de eucaliptos em Poços de Caldas (MG), na década de 50. A colheita foi tão ruim que ele desistiu do negócio e foi, literalmente, plantar batata. Nos anos 80, tentou de novo. Mas o esforço só foi recompensado em 2003, quando surgiram as primeiras sementes clonadas. Muita gente desconfiou da novidade, e Dias resolveu apostar nela. Não se arrependeu: o método aumenta em 40% a produtividade por hectare. Hoje, aos 86 anos, Dias pode relaxar: atingiu seu primeiro milhão de dólares – mas não pendurou as botinas: ainda confere sua plantação todo dia.

SETOR EM QUE ATUA: Produção de eucalipto.

POR QUE ELE DÁ DINHEIRO: Com a nova tecnologia de clonagem de sementes, o Brasil tornou-se o maior produtor mundial de eucalipto. A procura pela madeira também deu um salto: na última década, a demanda por celulose para papel cresceu 25% e a de painéis de madeira industrializada, usados em móveis populares, 110%.

Carregado de lucros 

A vida de Edson Luiz Marocco, de 42 anos, mudou da água para o vinho em três anos. Filho de agricultores, até o início de 2008 ele vivia sozinho, trabalhava em uma transportadora de São Paulo e tinha dois caminhõezinhos. Em 2007, seu patrão morreu e Marocco não conseguiu se entender com os herdeiros. Ao perceber que o aumento do consumo de alimentos estava provocando o crescimento da demanda por transportadoras da parte dos supermercados do Sudeste, decidiu deixar a empresa onde trabalhou por doze anos para montar um negócio próprio. Hoje, Marocco está casado com Elizangela, seu braço direito nos negócios, teve outros dois filhos (tinha só um) e presta serviços para todas as grandes redes de supermercados de São Paulo. Os dois caminhõezinhos viraram 35 – e a frota vai dobrar até o fim do ano. O faturamento ele não conta, mas está bem acima da linha que separa os ricos dos muito ricos.

SETOR EM QUE ATUA: Transporte de alimentos.

POR QUE ELE DÁ DINHEIRO: As vendas dos supermercados cresceram 13% nos últimos cinco anos. Para suprir a demanda, grandes e pequenas lojas tiveram de contratar empresas especializadas em transporte de produtos.

Da fabriquinha para a bolsa 

O dentista Julio Dahis e sua mulher, a arquiteta Rose, nunca foram notáveis em sua profissão de origem. Em 1988, aproveitando o fato de que o pai de Rose tinha uma pequena confecção, resolveram entrar no ramo para complementar o orçamento. Passaram a fabricar roupas para grandes varejistas e chegaram a ter 500 funcionários. Quando, porém, a Mesbla, seu principal cliente, faliu, o casal foi junto. Dahis teve de superar uma depressão antes de recomeçar. Tomou um empréstimo e montou a Enjoy, em 1996, uma marca de moda feminina que, ao contrário da antiga confecção, não o obrigaria a ficar a reboque de uma grande empresa. Em quinze anos, a Enjoy conquistou 34 lojas próprias, 27 franquias e está em 300 multimarcas. Só em 2011, o casal faturou 75 milhões de reais. Quando ganharam seu primeiro milhão de dólares, em 2008, eles festejaram hospedando-se em um hotel seis estrelas na África do Sul. O segundo milhão veio em 2011. “Nossa meta é chegar a 100 lojas, preparar uma fusão e entrar na bolsa de valores”, diz o milionário.

SETOR EM QUE ATUAM: Varejo de roupas.

POR QUE ELE DÁ DINHEIRO: Nos últimos cinco anos, o volume de vendas no setor de vestuário cresceu 32%, o que abriu espaço para novas marcas se expandirem.

À beira-mar 

Ele já vendeu fitas piratas, deu aulas de matemática e instalou outdoors nas ruas. Hoje, a vida é muito mais tranquila. Todos os dias, o empresário recifense João Luiz Perez, de 50 anos, se levanta às 5 horas da manhã e lê um livro na sacada de sua cobertura de 700 metros quadrados à beira-mar, na Praia de Boa Viagem. O imóvel reflete a virada financeira que ele experimentou nos últimos seis anos. A empresa de call center que montou com três sócios nos anos 90, a Provider, deslanchou com o boom econômico nordestino. Em 2011, faturou 240 milhões de reais. Com o bolso cheio, Perez e a família agora fazem cruzeiros pelo Caribe e pela Europa e compraram uma lancha Royal Mariner 370, que comporta doze pessoas – uma nova custa 390000 reais. “Rico é quem pode curtir a vida”, afirma.

SETOR EM QUE ATUA: Prestação de serviços de telemarketing.

POR QUE ELE DÁ DINHEIRO: Impulsionadas pelo crescimento econômico e por uma nova lei que obrigou as empresas a reduzir o tempo de espera para atendimento telefônico de clientes, as companhias de call center aumentaram seu faturamento em 22% entre 2008 e 2010.

Crescimento chinês 

Os cariocas André Vasconcellos e José Ilidio se conheceram nos anos 90, quando vendiam carros usados. Desde então, alimentavam a ideia de abrir uma concessionária. Com a entrada dos carros chineses no Brasil, vislumbraram aí um pote de ouro. Procuraram a Chery por telefone, mas foram rejeitados. Os chineses acharam que eles não tinham suficiente experiência, tampouco capital, para abrir o negócio. A dupla insistiu: no mês seguinte, eles viajaram para São Paulo para tentar convencer os diretores da empresa. Gastaram o seu latim por mais de uma hora e, no final, acabaram aceitos. Abriram a primeira loja no bairro de Campo Grande, na Zona Oeste. No primeiro ano, venderam 432 carros. No segundo, 1052. Hoje, já têm outras duas concessionárias, em Duque de Caxias e Nova Iguaçu, e planejam mais uma para este ano.

SETOR EM QUE ATUAM: Comércio de carros chineses.

POR QUE ELE DÁ DINHEIRO: As vendas de veículos cresceram 88% nos últimos cinco anos, impulsionadas pelo aumento do crédito. As montadoras chinesas ganharam espaço: 35% dos importados vendidos aqui vêm do país asiático.

"Serei o mais rico do mundo"

O hall de entrada da casa de Eike Fuhrken Batista, de 55 anos, é a perfeita expressão de sua personalidade. Dois carros esporte, um Lamborghini branco e um Mercedes prateado, ladeiam o piano de cauda branco cercado por poltronas do lendário Hotel Glória, comprado por ele em 2008 para ser totalmente reformado. Com uma fortuna de 30 bilhões de dólares, sócio de dezessete empresas em setores tão diversos como mineração, petróleo e entretenimento, Eike não faz segredo de sua riqueza. Pelo contrário, exibe-a. Pregando o valor da ambição, tornou-se uma espécie de ícone do sucesso para o brasileiro comum. Crianças o param na rua para pedir autógrafo. Muitos o consideram a maior personalidade do Rio de Janeiro. Solicitações de financiamento e ideias para novos negócios transbordam de sua caixa de mensagens no Twitter e das mesas de suas três secretárias. Seu livro "O X da Questão" – misto de biografia e manual de autoajuda para empreendedores – já atingiu a tiragem de 100000 exemplares. “Isso é bom. Mostra que as pessoas estão entendendo a minha mensagem”. A seguir, sua entrevista à editora Malu Gaspar.

O senhor se considera um modelo para os brasileiros que almejam ser ricos? Felizmente, sim. Está florescendo um novo capitalismo no Brasil, formado por empreendedores que se orgulham do próprio sucesso e não têm vergonha de mostrar o dinheiro que têm. É exatamente esse o discurso que venho repetindo há anos, desde que comecei a levar minhas empresas à bolsa, mesmo sendo visto com desconfiança por alguns. Se ganhei dinheiro com meu próprio trabalho, por que não falar sobre isso abertamente? Se é um cantor sertanejo ou um jogador de futebol que demonstram ser rico, ninguém estranha. Acham até bacana. Mas, se é um empresário, todos reagem mal. Aos poucos, vejo isso mudar. Outro dia mesmo, um imigrante nordestino me parou na rua enquanto eu corria e perguntou: “O senhor tem noção do que representa para quem tem esperança de melhorar de vida?”. Ele me abraçou e começou a chorar. Chorei junto. Nunca imaginei algo assim acontecendo comigo.

O que, em sua opinião, fez essa mentalidade mudar? Por gerações, os brasileiros aprenderam com seus pais que, no Brasil, as coisas sempre dão errado, e só se fica rico à custa de falcatruas. De fato, por décadas vimos empresas prosperar graças ao dinheiro do governo, e não à produtividade ou eficiência. O momento atual é bem diferente. O Brasil é um país estável, que respeita contratos. Todos querem investir e ganhar dinheiro aqui. E eu, sem falsa modéstia, sou um dos primeiros que os estrangeiros procuram. Querem saber como construí minhas empresas e de que forma podem se associar a mim. Lá fora, quem empreende e ganha dinheiro é respeitado. Ter ambição é bom, faz o país progredir.

O tratamento entre seus pares empresários também mudou? Muito. Embora no nosso meio essas coisas sejam veladas, sempre senti uma certa frieza, principalmente por parte dos empresários mais tradicionais. Eu era visto como aventureiro. Não faltou quem me dissesse para eu me expor menos, não mostrar minha casa, meus barcos ou meus carros. Diziam que não pegava bem. Ignorei esses conselhos e mantive o foco. Trabalho vinte horas por dia, gero riqueza e dou retorno à sociedade em forma de impostos, empregos e doações de todo tipo. Por que me esconder?

O público não estava acostumado a ver empresários ostentando uma vida de luxo? É verdade. Mas também não estava acostumado a ver alguém tão rico se comportar como uma pessoa normal, que fala sobre qualquer assunto com clareza e transparência. Não faço mistério da minha riqueza, assim como não escondo minhas plásticas ou implantes capilares. Isso faz com que me vejam como um igual. Ouço muitas boas ideias vindas de gente comum. Esse é um retorno extraordinário que só alimenta um círculo virtuoso. 

A meta de ser o homem mais rico do mundo está mantida? Isso nem é mais uma meta. Com as empresas que já tenho, eu serei o homem mais rico do mundo em 2015 ou 2016. Não monto minhas empresas para isso, mas agora também não abro mão de chegar lá.

Veja - 16/01/2012





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