Acabo de voltar de um curso em Harvard sobre empresas familiares. Dentre tantos
assuntos pertinentes que foram discutidos ao longo de uma semana, um "paper" apresentado pelo professor John Davis me
chamou a atenção. Escrito por ele em conjunto com o professor Renato Tagiuri, o artigo mostra que a qualidade do
relacionamento entre pais e filhos na empresa depende dos respectivos
momentos de vida.
É
de conhecimento público que os problemas entre os familiares que trabalham
juntos afetam não apenas os indivíduos e suas vidas particulares como também
a performance da organização e, muitas vezes, a economia em torno dela. O
interessante, no entanto, foi essa constatação de que as oscilações na qualidade
dos relacionamentos são naturais e inevitáveis.
O
estudo, que avaliou o ciclo de vida dos homens, define os estágios que são
considerados mais difíceis: entre 17 e 22 anos, entre 34 e 40, entre 41 e 50
e entre 61 e 70. As melhores fases, mais harmoniosas, são aquelas quando o
homem tem entre 23 e 33 anos e entre 51 e 60. Isso significa que se o pai
está na casa dos 40 anos e o filho tem 20, provavelmente eles terão uma
relação problemática no trabalho. Ambos vivendo uma fase de questionamento da
sua identidade, com forte carga emocional predominante, a parceria tende a
ser tensa e conflitante, já que um pode distorcer as mensagens enviadas pelo
outro e enxergar as necessidades do outro como ameaças. Neste ponto da
carreira, o filho quer sentir que tem muitas oportunidades de carreira e não
se sente na obrigação de fazer o relacionamento com seu pai ser bem-sucedido
no trabalho.
Um
pai com mais de 60 e um filho de 40 também não vivem seu melhor momento na
empresa. O mais novo, experiente e com um histórico
de muitos anos de trabalho na organização, sente-se mais capaz do que o
próprio pai, em fase de aposentadoria, e quer mostrar sua autoridade. Já o
patriarca, por sua vez, especialmente se for o fundador, quer manter as
coisas do seu jeito e não aceita, muitas vezes, as mudanças de grande impacto
que querem ser promovidas pelo filho. Trata-se também do momento de colocar
em prática o processo de sucessão, que por si só já é desgastante e complexo.
Se não for muito bem amarrado, pode ser desastroso e comprometer o futuro da
companhia.
Já
um filho de 28 com um pai de 55 formam uma combinação extremamente harmoniosa
e produtiva. Nessa fase, ambos já são mais maduros e vivem
um bom momento de carreira, com forte capacidade física e intelectual para
contribuir para o negócio.
As
similaridades e diferenças entre pai e filho no trabalho também parecem estar
relacionadas ao momento de vida de cada um, como o nível de energia,
habilidades, interesses, expectativas e necessidades, características que
afetam diretamente o cálculo que cada um pode fazer sobre os custos e
benefícios de trabalharem juntos. Todos esses dados indicam que os objetivos
da organização, de certa forma, estão ligados aos estágios de vida dos
indivíduos.
O
estudo confirma também a tese de que os filhos não devem trabalhar com seus
pais durante a fase de formação da própria identidade. Quando o filho sai da
escola ou da faculdade e começa a trabalhar com o pai, é como se houvesse uma
extensão do controle paterno sobre a sua vida em uma fase em que ele está
querendo se desvencilhar da infância e dos conflitos familiares. A separação
durante um período é fundamental tanto para que os jovens criem essa
identidade fora da família como para que a presença dos filhos por perto não
atrapalhe os próprios conflitos internos e questionamentos dos pais.
E
qual a lição disso tudo? A de que, sabendo e aceitando que essas diferenças
ocorrerão inevitavelmente ao longo dos anos, pais e filhos podem se antecipar
e se preparar para isso, beneficiando assim a organização e até mesmo os
relacionamentos. Quanto mais ambos souberem que suas necessidades irão mudar
ao longo do tempo, assim como as expectativas em relação ao outro, menor a
chance de ficarem jogando a culpa um no outro em razão de suas
incompatibilidades. Ao cultivarem a habilidade de se olharem objetivamente,
com empatia, eles ajudam a melhorar essa parceria de natureza tão sensível.
Vicky Bloch é professora da FGV, do MBA
de recursos humanos da FIA e fundadora da Vicky
Bloch Associados
Valor Econômico - 25/11/2011
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