Estaria a
História se repetindo? Dez anos após a bolha da internet, uma nova forma de
euforia toma conta dos investidores em Wall Street. Desta vez, a nova geração
dos AOL, Lycos e Yahoo! são
as empresas que atuam no domínio das redes sociais na internet.
Portanto,
a entrada na Bolsa de Nova York do Zynga, empresa de
jogos online (PetVille, Farmville...) queridos pelos membros do Facebook,
promete ser um sucesso retumbante. O documento de introdução da empresa, criada
em 2007, é esperado para os próximos dias, mas o mercado já fala em números
vertiginosos: uma valorização da ordem de US$ 15 a 20 bilhões (R$ 23,4 a R$
31,2 bilhões). Ou seja, quase o mesmo valor da Activision-Blizzard
(filial da Vivendi) e da americana Electronic Arts juntas. Duas empresas já bem estabelecidas, uma vez
que são respectivamente a número um e número dois do mercado mundial de jogos.
Mas o
caso do Zynga não é o mais extravagante de Wall
Street. A rede social profissional LinkedIn,
que entrou na Bolsa em maio, apresenta uma capitalização de US$ 8,6 bilhões,
para um faturamento de US$ 240 milhões em 2010. “É um delírio”, comenta um
analista em Nova York. A cotação da Bolsa na verdade valoriza a empresa em 517
vezes! A título de comparação, uma empresa “comum” é negociada no mercado por
entre 10 e 12 vezes seu faturamento.
Mas pouco
importa o preço: uma vez cotadas, as ações são disputadas. Assim, o LinkedIn viu seu valor disparar em
109% no primeiro dia de sua cotação, a US$ 94. Depois de despencar, ele se
estabelece em torno de US$ 89 hoje. Os especialistas inevitavelmente traçam
paralelos. Em seus primeiros passos na Bolsa, em março de 1996, o Yahoo! também viu seu valor disparar em 153%.
O modelo
das redes sociais provoca “um efeito mágico” no mercado, comenta Christian Parisot, analista da Aurel BGC.
Em um ambiente econômico moroso, o ritmo de crescimento a dois dígitos dessas
empresas causa empolgação. “A crise grega e as revoltas árabes não podem
atingi-las”, comenta um analista americano. Além disso, os administradores têm
dinheiro para investir: a política monetária flexível do Federal Reserve (banco
central americano), do “QE2”, provocou uma abundância de liquidez nos Estados
Unidos. E alguns investidores voltaram a querer arriscar, como a russa DST.
Associada estreitamente ao banco Goldman Sachs, ela fez uma entrada notável, ao
apostar muito cedo nas estrelas das redes sociais. A isso, soma-se o surgimento
de uma nova geração de “angel
investors”, ex-donos de startups ou funcionários
dessas empresas que lucraram com suas stock options.
Montanhas
de dinheiro
Entre
eles, é acirrada a disputa para investir em novos projetos, o que faz os preços
subirem, e todos esperam ganhar fortunas com a entrada na Bolsa. Outro elemento
que alimenta a febre dos garimpeiros: os grandes nomes da alta tecnologia estão
sentados sobre montanhas de dinheiro. A Microsoft, que dispõe de US$ 50 bilhões
em fundos, acaba de desembolsar 8,5 bilhões para se apoderar da rede de
telefonia Skype. E o Google ofereceu, em vão, US$ 6 bilhões para obter o site
de compras coletivas Groupon.
Já a
oferta é rara. Somente algumas dessas empresas estão listadas na Bolsa. A chinesa
Renren soube se aproveitar desse efeito de raridade,
ao ser a primeira rede social a atravessar o portão de Wall Street, no início
de maio. Após uma entrada triunfal, com uma capitalização que passou dos US$ 5
bilhões, a ação caiu para um nível abaixo de sua cotação inicial. É verdade
que, no auge, ela valia 65 vezes seu faturamento!
Depois do
LinkedIn, que colocou no
mercado somente 10% de seu capital, os investidores estão de olho no Zynga, mas também no Groupon.
Esse site, que apresenta um crescimento meteórico graças a uma salva
ininterrupta de aquisições, entregou no dia 2 de junho seus documentos para
preparar sua entrada na Bolsa.
Outras
empresas de internet estão lucrando com esse apetite dos investidores, mesmo
sem a aura das redes sociais. É o caso da Pandora, uma rádio online, que vale
16 vezes seu faturamento apesar de perdas recorrentes, e também do motor de
busca russo Yandex.
Mas todos
estão esperando pelo Facebook. A entrada na Bolsa da
empresa de Mark Zuckerberg, cujo valor poderá chegar
aos US$ 100 bilhões, certamente será o ápice desse frenesi. Seria o ponto
final?
Os
especialistas chamam a atenção para aquilo que se assemelha estranhamente a uma
nova bolha prestes a estourar. A Securities and Exchange Commission (SEC), o
órgão regulador dos mercados nos Estados Unidos, em seu site alerta os
investidores contra introduções na Bolsa que às vezes são especulativas.
Os
analistas têm a impressão de estarem revivendo um período passado com os mesmos
erros. “O discurso desses angel
investors, apresentando essas empresas aos
investidores, é o mesmo de dez anos atrás”, prometendo crescimentos fenomenais,
observa Clément Decombe,
analista do Meeschaert Capital Markets,
em Nova York. Com uma diferença notável: as empresas que estão se apresentando
nos mercados já têm receita. Mas, embora esse mercado seja muito promissor,
ninguém sabe exatamente como evoluirão os faturamentos e a rentabilidade. Além
disso, o Facebook está deixando pairar um grande
mistério sobre seu faturamento.
Ao
comprarem essas empresas, “todos esperam descobrir a futura Microsoft ou o
futuro Google”, afirma Decombe. “Mas quem será capaz
de criar um monopólio desses?” E para cada estrela, quantas cairão no
esquecimento?
A adesão
ao Facebook já parece estar dando sinais de queda. E
os especialistas lembram que nenhuma barreira impediria um concorrente
engenhoso de destronar a empresa californiana. Até alguns anos atrás, não era o
MySpace a “A” rede da moda?
Ele acaba de ser comprado por US$ 35 milhões...
Tradução:
Lana Lim
Claire Gatinois
e Laurence Girard – Le Monde – 03/07/2011