TESOURO INOVA PARA ELEVAR CAPITAL DE ESTATAIS EM BOLSA
O Tesouro
está funcionando como uma espécie de holding e buscando uma estrutura ótima
para suas operações societárias. Ele terá de levantar pelo menos R$ 20
bilhões para capitalizar suas estatais na bolsa, se consideradas as previsões
para aumento de patrimônio apenas de Petrobras, Telebrás, Eletrobrás e Banco
do Brasil.
O
Tesouro Nacional tem pela frente a meta de levantar pelo menos R$ 20 bilhões
para capitalizar suas estatais na bolsa, se consideradas as previsões para
aumento de patrimônio apenas de Petrobras, Telebrás, Eletrobrás e Banco do
Brasil. Com esse desafio, a União desenvolveu uma engenharia financeira
inédita, em que o Tesouro funciona como uma espécie de holding, buscando uma
estrutura ótima de suas operações societárias e aumentando a eficiência da
política fiscal, na avaliação de profissionais do mercado financeiro.
Nesse
sentido, tornaram-se comuns operações como conversão de créditos em
participações ou uso de ativos de determinadas empresas para aplicar em
outras. "O Tesouro começa a adotar na renda variável a mesma
complexidade de gestão de ativos que teve na renda fixa nos tempos de juro
mais alto", diz um analista financeiro do setor privado.
A
operação mais notável de heterodoxia financeira em processos de capitalização
é percebida nas discussões que envolvem o aumento de participação na
Petrobras, com a conversão de barris de petróleo a serem extraídos no futuro
em recursos no presente. Para Telebrás, são R$ 3,22 bilhões previstos. No
Banco do Brasil, mais R$ 1,7 bilhão. Por isso, o Tesouro também passou a
dispor de estratégias até então percebidas apenas em controladoras de grandes
sociedades anônimas, que têm preocupação similar em preservação de caixa e
retorno anual.
Nos
últimos meses, R$ 4,8 bilhões foram injetados na Eletrobrás sem necessidade
de burocracias ou ofertas públicas demoradas por meio de um instrumento
chamado "adiantamento para futuro aumento de capital". Com esse
recurso, o Tesouro melhora o balanço da empresa, aumenta sua capacidade de
alavancagem e garante sua fatia em futura oferta primária.
Mas a
ginástica financeira do Tesouro foi ainda mais longe ao usar, por exemplo,
ações da própria Eletrobrás e de outras estatais que possuía em fundos
setoriais para capitalizar o BNDES, aprovado no dia 29 de abril.
Dois
decretos presidenciais, publicados no fim de abril permitiram tais operações.
O primeiro previu que a União transferisse R$ 2,7 bilhões (de um total de R$
4,8 bilhões) em adiantamentos da Eletrobrás ao BNDES. Outro decreto autorizou
o BNDESPar a trocar R$ 1,3 bilhão em ações do Banco do Brasil, de uma
carteira total de R$ 1,9 bilhão, por ações da Eletrobrás em posse da União. O
reforço de R$ 4 bilhões elevou a capacidade de o banco de desenvolvimento
oferecer empréstimos em cerca de R$ 36 bilhões.
Essa nova
fase de complexidade na gestão de ativos de renda variável por parte do
Tesouro começou com a Medida Provisória 487, de 23 de abril, que instituiu
duas mudanças fundamentais na administração das ações e direitos das empresas
estatais.
A
primeira alteração permite a troca de ações de propriedade da União por
papéis detidos por entidades da administração pública indireta, como fundos
constitucionais ou fundos de garantia.
Essa
previsão foi fundamental no processo de emissão de ações do Banco do Brasil,
ao permitir a transferência de quase 150 milhões de ações de fundos
governamentais ao Tesouro Nacional, para que ele continue detentor direto de
mais de 50% das ações ordinárias do banco estatal (hoje em 52%). Mas a
participação total indireta da União no capital do banco deve cair de 67%
para 57%.
A segunda
grande mudança introduzida pela MP 487 abrange a forma como a União pode
participar ou realizar aumentos de capital de suas empresas. A União pode
agora abrir mão de seu direito de preferência em processos de capitalização,
desde que seja mantido o controle. Esse direito pode, ainda, ser cedido a um
fundo privado cujo governo seja cotista único, como é o caso do Fundo
Soberano. Por fim, a MP autorizou o Tesouro a girar créditos em processos de
aumento de capital de estatais.
No caso
da Eletrobrás, a operação do Tesouro ao transferir os adiantamentos ao BNDES
ainda garantirá a manutenção da União com a fatia atual da empresa de
energia. Armando Casado de Araújo, diretor de relações com investidores da
Eletrobrás, explica que, mesmo transferindo ao BNDES adiantamentos
equivalentes a R$ 2,7 bilhões, o Tesouro permaneceu com valor equivalente a
R$ 2,1 bilhões, quantia que será suficiente para que a União mantenha a
participação com a futura oferta.
Em um
outro arranjo institucional que deve melhorar a gestão de ações de estatais
pelo governo, o Tesouro transferiu ao Fundo Soberano Brasileiro (FSB) o
direito de preferência na oferta pública do Banco do Brasil. O FSB deve
comprar 62,5 milhões de ações na oferta pública do banco pública, o
equivalente a cerca de R$ 1,7 bilhão, 10% dos ativos do fundo. A oferta do BB
deve movimentar quase R$ 10 bilhões.
Segundo
analistas do mercado, o principal objetivo do governo neste momento é ampliar
o poder de fogo das estatais sem colocar dinheiro vivo, já que a
administração pública está amarrada por metas de superávit fiscal. "A
estratégia está em linha com a política atual, hoje se quer investir, mas de
uma maneira que não comprometa as contas fiscais", diz um operador
privado do mercado.
Somadas,
as operações de Petrobras, Telebrás, Eletrobrás e Banco do Brasil, podem
levantar mais de R$ 100 bilhões no mercado. O governo, que teria de entrar
com parte relevante desse capital por ser acionista majoritário das
companhias, vem criando artifícios para girar cerca de R$ 20 bilhões, sem
colocar capital novo, e manter os controles acionários.
A engenharia
financeira, no entanto, desagrada ao mercado em certos aspectos. A primeira
crítica é à incerteza gerada nesses processos. Até a semana passada, ninguém
sabia se o governo colocaria ou não capital na operação do BB. Somente nos
últimos dias houve comunicado confirmando o exercício de preferência pelo FSB
na oferta. Outra crítica diz respeito à transparência dessas operações, por
exemplo, sobre em quais termos e preços o Tesouro trocou adiantamentos da
Eletrobrás com o BNDES. O Tesouro também não divulga o volume total de
adiantamentos para futuro aumento de capital em carteira.
Há também
o risco de diluição da participação dos minoritários, por conta do uso dos
adiantamentos. Estimativa feita pelo banco de investimento Barclays Capital
aponta perda do potencial econômico dos minoritários da Eletrobrás em 23,5%,
enquanto as participações poderiam ser diluídas em 18,3%.
Procurado
diversas vezes para explicar as operações de troca de ações e ativos, além da
participação do FSB na capitalização do Banco do Brasil, o Tesouro, por meio
de sua assessoria de imprensa, disse que não poderia fazer comentários por se
tratar de ações de companhias abertas.
O governo
possui participação majoritária em 45 empresas, sendo 23 sociedades de
economia mista e 22 públicas. Além disso, é acionista minoritário em 76
companhias e tem metade da empresa binacional Itaipu
Autor(es):
Danilo Fariello e Fernando Travaglini
Valor
Econômico - 30/06/2010