Os
brasileiros sempre conviveram com problemas de gente pobre. Pedintes nas
ruas, favelas sitiadas, violência urbana, falta de água, filas no transporte
público e no SUS e os incontáveis surtos de doenças decorrentes da falta de
higiene ou de educação pública sempre foram a
realidade aqui.
O
Brasil vem se desenvolvendo e, aos poucos, o sofrimento dos mais pobres por falta
de assistência básica tem diminuído. As estatísticas mostram que há mais
hospitais, mais transporte público e mais educação, além do crescimento da
renda, que aumenta o leque de oportunidades de consumo. Seria motivo de
comemoração, mas temos agora uma nova categoria de dificuldades. O Brasil
está começando a desfrutar os problemas de gente rica.
Apesar
de haver maior oferta de serviços públicos de base, falta-lhes qualidade. A
população que ganha mais não deseja usar o crescente transporte público, mas
sim um automóvel novinho que o crédito permite comprar. Congestionamentos não
são mais privilégio da saturada São Paulo. Hoje,
centenas de cidades brasileiras apresentam níveis alarmantes de
engarrafamentos.
Essa
população que ganha mais está deixando o SUS e contratando serviços médicos
em caros hospitais particulares. É comum aguardar mais de uma hora para fazer
um simples exame de rotina naqueles hospitais que recebem a nata dos
políticos, mesmo pagando milhares de reais por mês pelo plano de saúde.
Tenho
ouvido relatos de gente que, ao tentar consulta com um médico recomendado,
descobre que terá de esperar dois meses pelo atendimento – ao preço de um
salário mínimo apenas pela primeira conversa.
Para
matricular seu filho em uma boa escola, provavelmente você terá de se
antecipar em pelo menos um ano para conseguir uma vaga. Se quiser comer no
restaurante mais caro da cidade, terá de reservar com dois dias de
antecedência. Se quiser viajar para fora do país, terá de fazer seu
passaporte meses antes. Faltam cada vez mais serviços e qualidade para a
população consumidora.
Cuidado
com estatísticas que medem apenas o avanço sobre a pobreza. Não podemos
descansar sobre os louros da vitória contra a miséria, pois os ex-miseráveis ainda sofrem as agruras da escassez. O
Brasil carece seriamente de planejamento de longo prazo e de qualidade em
seus produtos e serviços. É aqui que precisamos atuar mais.
Autor(es): Gustavo Cerbasi
Época - 16/01/2012