PROFESSOR DE HARVARD DIZ QUE, APESAR
DO CAPITAL POLÍTICO, LULA NÃO FOI CAPAZ DE FAZER REFORMAS SIGNIFICATIVAS COMO
AS DE FHC
"A grande sorte do presidente Lula foi ter tido
um ótimo antecessor. Mas o próximo presidente do Brasil não terá a mesma
sorte."
Com esse comentário, em entrevista à Folha, o economista Ricardo Hausmann, diretor do Centro para o Desenvolvimento
Internacional da Universidade Harvard e um dos mais respeitados especialistas
em teoria do desenvolvimento econômico, encerrou uma série de críticas ao
governo Lula.
Em 2008, ele escreveu o estudo "In search of the chains that
hold Brazil back" ("Em busca das correntes que freiam o
Brasil"), afirmando que a política de expansão fiscal dos anos recentes,
alavancada pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico), é
insustentável.
E, segundo ele, pode ter o mesmo efeito "desastroso" para a economia
que a política externa de Lula teve para a diplomacia.
FOLHA - Houve avanços desde que o sr. escreveu sobre as barreiras ao
crescimento no Brasil em 2008?
RICARDO HAUSMANN - Talvez
você se lembre que [no estudo] eu era otimista sobre muitos aspectos
estruturais do Brasil. O Brasil tem um setor privado muito forte, tem muito
potencial de crescimento do investimento em muitas áreas promissoras.
Mas, nos anos de boom antes da crise de 2008, o Brasil era um dos países que
cresciam às menores taxas na América Latina.
Minha avaliação era a de que isso se devia a uma taxa baixa de poupança
doméstica, que exigia taxas de juros ridiculamente altas para evitar que a
economia tivesse um aquecimento excessivo.
Aí veio a crise e o governo respondeu com políticas
anticíclicas. Aumentou significativamente a oferta de crédito via BNDES e Banco
do Brasil em um momento em que havia uma parada cardíaca financeira.
Diria que, de forma geral, a crise foi bem administrada. Mas o principal
problema com muitos países, e o Brasil é um exemplo, é que, quando as coisas
começam a parecer bem, eles se tornam arrogantes. Passam a acreditar num mundo
de fantasia.
O que o sr. quer dizer com mundo de fantasia?
Só porque o Brasil
teve por um trimestre uma taxa de crescimento acima de 7%, o Brasil agora é a
nova China e o Lula é um gênio das finanças, e todos os problemas anteriores
não existem mais porque o Brasil é um país diferente.
Há toda uma narrativa que tem sido criada por conta de alguns bons trimestres
no Brasil que pode levar a políticas macroeconômicas muito inconvenientes. Essa
narrativa é particularmente conveniente na época de eleições.
A primeira coisa que já está acontecendo é que a Selic
[taxa de juros básica da economia] está subindo. Se você quisesse que a Selic aumentasse menos, a ideia
seria compensar com políticas fiscais e de empréstimo pelo setor público mais estritas.
Porque, de certa forma, o Brasil é um país esquizofrênico. Você tem uma
política fiscal em que o BNDES tem o pé no acelerador e o Banco Central tem o
pé no freio.
Essas combinações são particularmente perigosas porque deixam a Selic muito alta em um período em que as taxas de juros
globais estão muito baixas.
Isso leva os investidores a pegar dinheiro emprestado em dólares, em ienes ou
em euros para colocar dinheiro no Brasil, o que gera uma forte apreciação da
taxa de juros e a possibilidade de desindustrialização.
Alguns defensores da atuação recente
do BNDES citam países da Ásia que atingiram altas taxas de crescimento
sustentado por meio de políticas industriais. O que o sr. acha desse paralelo?
Não tenho problemas
com políticas que complementam o setor financeiro, viabilizando a
disponibilidade de crédito para investimentos em áreas difíceis da economia.
Não sou, de forma alguma, crítico em relação à contribuição potencial do BNDES
para o desenvolvimento do país. Mas é uma organização que foi desenvolvida na
época da inflação alta para proteger a economia das taxas de juros reais muito
altas.
A inflação não é mais um problema no Brasil.
Seria possível que o BNDES mantivesse o foco de sua política
em empréstimos para investimentos municipais, investimentos de longo prazo,
apoiando pequenas e médias empresas, mas a uma taxa de juros que refletisse a Selic e não a uma taxa de juros que é muito inferior à Selic, que cria a distorção de gerar demanda excessiva
pelos fundos que o BNDES tem de gerenciar.
O sr. vê o crescente deficit em conta-corrente do
Brasil, em tempos recentes, como um problema?
A deterioração do
deficit em conta-corrente indica que a expansão do gasto no Brasil é mais
rápida do que a expansão da produção.
O efeito disso é apreciar a taxa de câmbio, desestimulando as atividades
exportadoras, para liberar recursos produtivos para atender a esse boom
temporário do consumo. Todas as indicações são de que as condições fiscais e a
política financeira do setor público são excessivamente expansionistas. Isso
vai causar prejuízo para as perspectivas de crescimento de longo prazo do
Brasil.
A economia brasileira ainda é
bastante fechada ao comércio exterior. Isso limita o crescimento de longo
prazo?
Acho que o Brasil
tem os produtos com os quais poderia ter uma presença muito maior no comércio
internacional. Vocês são gigantes em agricultura, em mineração. Têm
uma presença marcante na produção de aeronaves. Há uma atividade industrial
vasta que poderia gerar uma presença muito maior. Mas a administração macro no
Brasil tem sempre conspirado contra o potencial de longo prazo.
E isso continua acontecendo?
Na
minha opinião,
está piorando. Quando o Lula foi eleito, em 2002, houve uma crise econômica e
ele foi muito cuidadoso ao dar confiança ao setor privado.
Agora, eles começaram a pensar que sabem mais e estão menos dispostos a serem
cuidadosos. Estão se tornando mais ideológicos.
Do ponto de vista econômico, as políticas são insustentáveis como as adotadas
na diplomacia.
Agora que o Brasil é grande, pode ir para a cama com o Ahmadinejad
[Mahmoud Ahmadinejad,
presidente do Irã] no Irã ou hospedar o Zelaya
[Manuel Zelaya, ex-presidente de Honduras deposto em
junho de 2009] na sua embaixada em Honduras etc.
É uma atitude de que agora o país é independente, um poder diferente, e,
portanto, pode confrontar o senso comum. Esse tipo de arrogância na política
externa tem sido desastrosa.
E esse tipo de arrogância tem o perigo de ser igualmente desastrosa para a
administração macroeconômica.
As pesquisas de intenção de voto
mostram grandes chances de vitória da candidata do presidente Lula. O sr. acha que isso levará a uma
continuação dessas políticas que o sr. critica?
Todo mundo sabe que
o presidente Lula tem sido superpopular e ele
construiu um capital político enorme. Mas esse capital político enorme não se
traduziu em nenhuma reforma significativa durante seu segundo mandato
[2007-2010].
Ele não tem nada a mostrar em termos de ter resolvido problemas antigos
relacionados à baixa taxa de poupança, ao sistema de previdência, à infraestrutura,
a ter uma estrutura tributária mais normal e funcional.
Apesar do seu enorme capital político, ele não foi capaz de fazer nenhuma
reforma significativa como as feitas pelo antecessor dele.
E, recentemente, ele tem se movido na direção contrária. A grande sorte do
presidente Lula foi ter tido um ótimo antecessor [FHC]. Mas o próximo
presidente do Brasil não terá a mesma sorte.
ÉRICA FRAGA - DE SÃO PAULO
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mercado/me3008201022.htm