A economia
brasileira criou 8,7 milhões de empregos formais entre 2003 e 2008, os
programas de transferência de renda se ampliaram, milhões de famílias saíram da
pobreza, a classe média cresceu e a indústria de bens de consumo prosperou. Mas
35,5% das famílias ainda se queixaram em 2008-2009 de insuficiência de comida, ocasional ou, segundo a nova
Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF).
Essa
pesquisa, divulgada na quarta feira pelo IBGE, dá uma boa ideia de como têm melhorado as condições de vida
da maioria dos brasileiros.
Mas também
mostra a permanência de amplas desigualdades e de uma significativa parcela da população atolada no atraso e na pobreza.
Como pode
faltar comida para mais de um terço das famílias, num país com uma agropecuária eficiente e
competitiva e um custo de alimentação dos mais baixos
do mundo? Esse paradoxo aparente é um dos aspectos mais
notáveis da pesquisa. Nos últimos 30 anos o peso da alimentação nos orçamentos familiares diminuiu seguidamente.
Na média, passou de 33,9% em 1974-75 para 20,8% em 2002-2003 e 19,8%
em 2008-2009.
Essa
mudança refletiu tanto a elevação dos ganhos das famílias quanto a queda do preço relativo dos alimentos, consequência normal da produtividade crescente
da agropecuária e da indústria processadora de comida.
O aumento de eficiência resultou da incorporação de tecnologias, criadas em boa parte pelos institutos nacionais de
pesquisa, e das mudanças da política agrícola, com mais estímulos à
competitividade e abandono dos controles de preços, tão inúteis quanto contraproducentes.
Ao chegar
ao governo, em 2003, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mal assessorado, ainda repetia os chavões sobre a
necessidade de aumentar a produção de alimentos. Mas não demorou muito a
abandonar essa tolice.
Se havia famílias com fome, não era por escassez de comida, mas de renda.
O problema não era produzir, mas ajudar as pessoas em pior situação a comprar o necessário para sobreviver com
decência. Mesmo sua política de reforma agrária, um fracasso previsto desde o começo e confirmado amplamente
pelos fatos, foi insuficiente para impedir o crescimento da agropecuária de verdade, apesar da permanente insegurança imposta aos produtores. A competência e a produtividade dessa
agropecuária são reconhecidas internacionalmente pelos competidores do Brasil, embora menosprezadas
por uma parte do governo federal.
Mas políticas de transferência de renda têm alcance limitado. Podem reduzir a miséria e permitir a melhora dos
padrões de consumo de muitas famílias, mas não bastam, isoladamente, para criar capacidade de trabalho nem para
ampliar as oportunidades de ocupação.
A média
nacional das famílias com insuficiência ocasional ou freqüente de comida é de 35,5%. No Nordeste, essa<
parcela equivale a 49,8%. No Norte, a 51,5%. As porcentagens são bem menores nas outras grandes áreas: no
Sudeste, 29,4%; no Sul, 22,9%; e no Centro-Oeste, 32%. De modo geral, essa distribuição corresponde
à insuficiência de renda apontada pelas famílias em cada região e,
naturalmente, há uma relação entre
esses problemas e os níveis educacionais.
A POF mostra tudo isso claramente.
Noutros
tempos, boa parte da população menos educada se integrava na vida urbana por meio de empregos na construção. Investimentos em obras ainda podem produzir algum efeito desse
tipo, mas em escala certamente menor .
Também essa atividade requer, e cada vez mais, pessoal qualificado para funções tecnicamente mais
complexas que as de 30 ou 40 anos atrás.
Há, no Brasil, um desajuste cada vez mais claro entre a qualidade do emprego oferecido e a da mão
de obra disponível. Esse problema não se resolverá com a multiplicação de cursos universitários de
utilidade muito duvidosa. É preciso cuidar muito mais seriamente da preparação nos níveis
básicos e intermediários.
A presença
de um quinto de 20% de analfabetos funcionais na população com idade igual ou superior a 15 anos
explica boa parte dos impasses econômicos e sociais do País e dos aparentes paradoxos da POF 2008-2009.
Estadão –
28/06/2010