O
Ocidente está entalado numa crise de endividamento. Os EUA chegaram perto de
um calote em 2 de agosto e a Standard & Poor"s (S&P) rebaixou sua dívida de
"AAA" em 5 de agosto. Na Europa, o presidente em fim de mandato no
Banco Central Europeu (BCE) recomenda mais autoridade fiscal na Europa, para
lidar com prováveis inadimplências de um ou mais países - Grécia, Portugal e
Espanha.
Tanto
a Europa como os EUA podem aprender uma lição oculta na história americana,
pois, perdida na névoa de veneração patriótica dos fundadores dos EUA está o
fato de que eles criaram um novo país durante - e em grande parte devido a -
uma crise incapacitante de endividamento. As crises atuais, torcemos por
isso, poderiam ser transformadas em um momento semelhante de criatividade
política.
Após
conquistar sua independência do Reino Unido em 1783, os Estados componentes
dos EUA recusaram-se a pagar as dívidas contraídas na Guerra Revolucionária.
O país não tinha como resolver seus problemas financeiros e então chegou um
momento em que esses problemas -grandes e
recorrentes calotes - catalisaram a convenção de Philadelphia, em 1787, para
criar um novo Estados Unidos.
E
então, em 1790-1791, Alexander Hamilton, primeiro secretário do Tesouro dos
EUA, converteu a crise em uma das histórias de sucesso de construção do país.
Para
entender o feito de Hamilton - e, portanto, para apreciar seu significado
para os nossos próprios dias - é preciso compreender a dimensão da crise da
dívida da Guerra Revolucionária. Alguns Estados não dispunham de recursos
para pagar. Outros tentaram pagar, mas não cobraram os impostos necessários
para fazê-lo. Outros, como Massachusetts, tentaram cobrar impostos, mas seus
cidadãos recusaram-se a pagá-los.
Tanto
a Europa como os Estados Unidos podem aprender uma lição oculta na história
americana pois, perdida na névoa de veneração
patriótica dos fundadores dos Estados Unidos está o fato de que eles criaram
um novo país durante uma crise incapacitante de débitos.
Hoje,
as características mais notáveis da Constituição americana são a distribuição
de poder entre o Congresso e a presidência e a garantia dos direitos
individuais por meio de suas dez primeiras emendas. Mas, naquele momento, seu
papel fundamental foi como mecanismo de pagamento da dívida ao governo. A
Constituição criaria um novo governo nacional que poderia cunhar moeda
estável, tomar e pagar dívidas, inclusive zerar a inadimplência de Estados
incapacitados de pagar empréstimos assumidos na Guerra Revolucionária.
Com
a Constituição ratificada em 1789, Washington tornou-se presidente e nomeou
Hamilton - ainda com trinta e poucos anos - para comandar o Tesouro. Hamilton
não era oriundo do mundo financeiro. Ele tinha sido Chefe do Estado-Maior de
Washington durante a Guerra Revolucionária e um estudante ágil: no momento de
aprender táticas de batalha, ele leu manuais militares; quando foi hora de
tornar-se um líder nacional com conhecimento financeiros,
ele leu livros sobre finanças.
Mas
não foi por acaso que dois militares foram cruciais na transformação dos EUA
em uma "nação respeitável" em termos financeiros. Ambos acreditavam
que apenas um EUA fiscalmente forte poderia dispor da capacidade militar
necessária para defender-se das potências europeias, cujo retorno ao solo
americano era esperado por Washington e Hamilton.
Mas
conseguir os dólares para pagar a dívida não foi fácil. Não havia direitos
sociais passíveis de cortes ou fundos governamentais que pudessem ser
redirecionados. Hamilton sabia que um tipo errado de impostos enfraqueceria a
economia já frágil. Ele se concentrou na tributação sobre importações e bens
não essenciais, como uísque.
E
Hamilton precisava que o Congresso aprovasse que o governo federal assumisse
as dívidas dos Estados, o que, de início, parecia pouco provável. Alguns
Estados, como a Virgínia, já tinham quitado boa parte de sua dívida e outros
viram sua dívida convertida em jogo de especuladores financeiros em Nova
York. Como resultado, muitos Estados federais temiam que o fato de o governo
federal assumir seu endividamento significaria que
os impostos que recolhessem remunerariam os especuladores nortistas ou
servissem para quitar a dívida de grandes tomadores, como Massachusetts.
A
Virginia e vários outros Estados sulinos com pequeno endividamento, ou que tinham pago o que deviam, votaram contra - e derrotaram -
o primeiro projeto de lei de Hamilton que previa a transferência do ônus do
endividamento para o governo federal.
Jefferson
e Madison, os líderes sulinos, opuseram-se ao plano de Hamilton de
"federalização do endividamento" e Madison era um obstáculo crucial
à sua aprovação no Congresso. Mas, então, os três reuniram-se num jantar para
negociar um acordo. Jefferson e Madison não queriam que a capital do país
ficasse no norte e Hamilton, relutantemente, concordou em apoiar sua mudança
para uma área removida da Virginia ou de Maryland. Eles, por sua vez,
assegurariam os votos para que o governo federal assumisse e pagasse as
dívidas não honradas pelos Estados.
Um
Estado fiscal responsável emergiu dessa grande solução conciliatória. Apesar
do enorme custo - mais de metade dos gastos do novo governo nos primeiros
anos destinaram-se ao serviço da dívida - a economia livrou-se da depressão
de 1780 e entrou em crescimento acelerado.
A
tarefa de Hamilton foi a um só tempo mais fácil e mais difícil do que a
nossa, hoje. Foi mais fácil porque havia poucas opções: não havia imposto de
renda a ser ajustado ou direitos sociais passíveis de
cortes. E foi mais difícil porque os EUA eram uma entidade
desconhecida e havia pouca razão para confiar na não nação americana.
A
trajetória, atualmente, é a inversa da percorrida nas décadas de 1780 e 1790.
É difícil, hoje, para os Estados Unidos (e, até recentemente, para o mundo)
imaginar uma inadimplência americana, porque nunca houve fortes razões para
temer um calote desde 1790.
Hoje,
os americanos sabem o que precisa ser feito: uma combinação de cortes de
direitos sociais e aumentos de impostos. Também os europeus sabem que é
preciso articular um novo equilíbrio. Mas, até que a Europa e os EUA
encontrem líderes com autoridade e disposição para replicar uma versão
moderna do exemplo de concessões mútuas e acordo criado por Hamilton,
Jefferson e Madison 200 anos atrás, seus problemas de endividamento
continuarão a enfraquecer suas bases nacionais.
Mark Roe é
professor na Harvard Law School. Copyright: Project
Syndicate, 2011.
Valor Econômico - 10/08/2011
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