Na cadência do crédito
O Brasil
tem uma frota de, aproximadamente, 22 milhões de veículos, 6
milhões em circulação na cidade de São Paulo. O transporte coletivo precário
e insuficiente é uma das explicações para o número alarmante. O modelo
rodoviário adotado no Brasil, a partir da década de 60, pode ser outra. Mas é
o crédito que azeita as máquinas das montadoras aqui instaladas.
Somente
em 2007, foram produzidos 2,97 milhões de unidades, um aumento de 13,9% em
relação ao ano anterior. Em janeiro, novo recorde: a produção cresceu 24,2%
na mesma base e totalizou 254,9 mil. O País produz o equivalente à França e
quase o dobro que a Grã-Bretanha e não é exatamente uma plataforma
exportadora de carros: foram 786 mil vendidos ao exterior em 2007, cerca de
um terço da produção.
O
mercado interno tem devorado boa parte do estoque, não porque os brasileiros
estejam mais ricos do que os franceses e os britânicos. Longe disso: o motor
é turbinado pelos financiamentos, que atingem níveis preocupantes. Segundo dados
do Banco Central, o volume de crédito para a aquisição de veículos por
pessoas físicas somou nada menos que 81,6 bilhões de reais em 2007, com
crescimento de 28% sobre o período anterior. Para ter uma leve idéia do
montante, o total ao crédito imobiliário (incluídos os recursos da Caixa
Econômica Federal) foi de apenas 42,5 bilhões de reais, com aumento de 88% na
mesma base de comparação.
Faz
sentido haver o dobro de dinheiro destinado à compra de carros em comparação
à de imóveis? O lugar-comum de que os brasileiros são fissurados
por carro zero parece se confirmar. De acordo com Donizete Piton, presidente da Associação Nacional de Defesa dos
Consumidores do Sistema Financeiro (Andif), a
classe média, que ganha acima de três salários mínimos, é a maior vítima da
propaganda de massa das revendedoras. Prestações fixas atraem o consumidor,
que se sente compelido ao apelo do status de ter um carro novo na garagem.
“Um
Palio, por exemplo, de 25 mil reais, vai ter custado 70 mil reais ao fim de
um financiamento de 60 meses”, diz o economista. Fora, evidentemente, os
custos de manutenção e dos impostos. “Na revenda, o consumidor terá 9 mil reais e entrará em outra espiral de dívidas”,
afirma. O automóvel é totalmente diferente da casa ou do apartamento, que se
valorizam e não têm os preços corroídos, se bem cuidados.
Por ora,
não soou o alarme da inadimplência no segmento de veículos, por se situar ao
redor de 3%. Mas a base da pirâmide já acusa bolsos vazios. De acordo com a
LCA Consultores, em dezembro, no cômputo geral, os consumidores que atrasaram
mais de 90 dias as prestações já correspondiam a 12,4% do total de
compradores de bens menos caros, como eletrodomésticos e móveis.
Na
média, segundo a Associação Nacional das Empresas Financeiras das Montadoras
(Anef), de janeiro a novembro de 2007, os
empréstimos foram contratados por três anos e meio à taxa de juro média de
1,49% ao mês (ou 19,4% ao ano). No sistema financeiro não vinculado às
fabricantes, o juro foi de 2,41% mensais (28,5% anuais). Não é nenhuma
barbada.
CartaCapital ouviu de um executivo de
montadora que o financiamento de automóveis no País pode assumir a
característica de uma crise de subprime. A maior
semelhança está no fato de que o valor do automóvel começa a cair a partir do
momento em que sai da loja. Enquanto pode, o sistema vai dando um jeitinho. É
comum o refinanciamento da dívida ou a chamada troca com troco. No primeiro
caso, o carro é alienado à financeira, como garantia, e os prazos são
alongados. No segundo caso, o consumidor vende o carro à concessionária, dá
uma entrada menor, sai com outro veículo e com recursos na mão.
O truque
funciona do ponto de vista financeiro, uma vez que as taxas de financiamento
de veículos são sensivelmente menores do que outras formas de crédito. Ou
seja, o cidadão costuma recorrer às financiadoras de veículos muitas vezes
para saldar empréstimos mais salgados. Segundo a Fundação Procon, houve alta
média da taxa de juro em
janeiro. Para empréstimo pessoal, era de 5,36% ao mês e, no
cheque especial, alcançava 8,21% ao mês.
O avanço
do endividamento do consumidor, no entanto, não passa despercebido em uma
nação pobre e não habituada à cultura do crédito. Ainda de acordo com a Anef, os últimos dados consolidados, de janeiro a
setembro de 2007, mostram que apenas 28% dos veículos foram vendidos à vista.
Do restante, 42% foram financiados, 26% alienados por leasing e 4% por meio
de consórcios. Não é um retrato confortável para um país que vem apresentando
taxas de crescimento instáveis na última década.