Investidores ignoram perfil de risco em suas aplicações
Pesquisa do Itaú revela
que só 35% dos clientes possuem aplicações adequadas
Mercado se prepara para migração do investidor brasileiro para aplicações de
maior risco, em um cenário de juros e inflação menores
A maioria dos investidores brasileiros tem aplicações financeiras inadequadas
para o seu perfil. São pessoas que, por falta de orientação ou de conhecimento,
assumiram mais risco de perder dinheiro do que realmente precisavam ou perderam
oportunidade de obter um retorno maior nas aplicações sem se arriscar muito.
A conclusão faz parte da análise das respostas dos primeiros questionários de
perfil de investidor feitos pelos bancos, em cumprimento ao acordo de
autorregulação do setor para evitar que os gerentes "empurrem"
produtos que não atendam aos interesses do cliente. O acordo, conhecido como
"suitability" (adequação), entrou em vigor em janeiro.
O banco Itaú Unibanco, que iniciou já em setembro a aplicação dos questionários
entre os clientes do Personnalité (alta renda), descobriu que 40% dos que
responderam ao questionário de API (análise de perfil de investidor) tinham
aplicações financeiras mais conservadoras do que seria indicado para seu
momento de vida e personalidade. Outros 25% tinham investimento com risco maior
do que o tolerado.
No levantamento, só 35% dos clientes tinham a alocação das aplicações dentro do
seu perfil. O questionário foi aplicado em 18% da base de clientes do
Personnalité. As perguntas buscam entender aspectos como objetivo do
investimento, duração da aplicação, conhecimento do mercado de capitais e
reação quando perde dinheiro (veja o teste ao lado).
Com a análise de perfil de risco em mãos, o gerente do banco -ou mesmo o
internet banking- orienta o cliente a aderir a outras aplicações e adequá-las
ao que ele deseja. A decisão de se adequar é do cliente. Se preferir seguir com
uma aplicação não indicada, terá de manifestar formalmente a decisão,
reconhecendo que o banco cumpriu o dever de alertá-lo.
Herança inflacionária
Para especialistas, a inadequação dos investidores ao seu perfil não pode ser
vista só como uma falha dos gerentes na orientação do cliente, mas também como
resultado de uma cultura de inflação e de juros altos, que começa a ser
diluída.
"O papel do gerente é ajudar o cliente a tomar a melhor decisão. Primeiro
tem de fazer o cliente saber quem ele é. Esses questionários ajudam a
relativizar e fazer autoanálise. Na realidade, é um tipo de régua, uma
ferramenta para ajudar a pessoa a construir seu futuro financeiro", disse
o consultor de investimento Silvio Paixão, professor da Fipecafi.
"O importante é que caminhamos para uma solução técnica para as
necessidades do investidor. O "suitability" está sendo implementado
agora. Se daqui a um ano estiver todo mundo inadequado, pode-se falar que houve
uma falha. Mas no momento de crise é que a gente vai ver se deu certo",
disse Fabio Colombo, administrador de investimento.
Para Osvaldo Nascimento, diretor-executivo de produtos de investimento do Itaú
Unibanco, o questionário do API abre espaço para os gerentes discutirem o
assunto com o cliente e propor alternativas de investimento.
"A mentalidade do brasileiro é oriunda de um cenário de inflação alta e de
taxas de juros elevadas. Não havia a necessidade de correr risco. Poucas
pessoas já se ativeram ao fato de que, quando você aplica R$ 100 mil na renda
fixa, em termos reais você ganha o equivalente a R$ 3.500 por ano. Se você
dividir por 12 meses, dá três pizzas por mês", disse.
Mais conservadores
Segundo Aquiles Mosca, estrategista de investimento do Santander/Real, os
questionários respondidos pelos clientes do banco também mostram o predomínio
do investidor conservador, em uma proporção bastante parecida com a alocação de
recursos na indústria de fundos. "Tem um potencial muito grande para
diversificar e assumir risco", disse.
No Bradesco, o diretor de investimento Marcos Villanova disse que percebeu os
clientes interessados e curiosos para responder o questionário. "Antes, o
cliente que vendia um apartamento ia até o gerente e perguntava onde investir.
Se a Bolsa subia, o gerente tinha medo de indicar ações porque depois o cliente
voltava para reclamar. Agora, tem um questionário e uma indicação", disse.
Regras
são iniciativa de regulação
As regras de "suitability"
(adequação) adotadas em janeiro pelos bancos foram debatidas durante três anos
dentro da Anbima (associação dos bancos e das entidades do mercado) por
instituições concorrentes, que temiam abrir detalhes de suas estratégias
comerciais.
Inspiradas no modelo europeu e dos EUA, a intenção foi estabelecer padrões de
atendimento para evitar que os gerentes dos bancos "empurrassem"
produtos inadequados aos clientes só para cumprir metas de captação. A
preocupação era evitar ou reduzir esse conflito de interesse.
Por outro lado, o resultado da avaliação de perfil do cliente também tira o
gerente da "saia justa" de não poder oferecer um produto de risco,
com receio de depois ser contestado. Exime ainda o banco da responsabilidade
por alertar o cliente sobre eventuais riscos.
Mais tarde, os bancos viram nos questionários a possibilidade de identificar
necessidades, criar produtos e aumentar a eficiência das vendas
TONI SCIARRETTA - DA REPORTAGEM LOCAL
Folha de S.Paulo – 01/2/2010
http://www.andima.com.br/clipping/clipping.asp
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