Nos EUA, um pai ficou indignado ao encontrar, na sua
caixa de correio, cupons de desconto para roupas de bebê
enviados por uma cadeia de varejo em nome de sua filha menor de idade.
Acusou a loja de tentar induzir a garota a ser mãe precocemente. Mas, após
confrontar a adolescente, descobriu que a filha já estava grávida. Só ele não
sabia.
Os estatísticos da loja de departamentos Target não
tiveram acesso a nenhum teste de gravidez. Apenas inferiram que aquela
consumidora iria dar à luz cruzando informações de compras: a mudança no seu
padrão de consumo era consistente com o de outras grávidas. Foram tão precisos quanto um exame de ultrassom.
A história - quase boa demais para ser verdade -
ilustra reportagem do The New York Times intitulada Como companhias aprendem
os seus segredos. A rigor, não é dos segredos de uma pessoa, mas dos hábitos
da multidão, que as empresas estão atrás. Juntando os seus aos meus,
descobrem os nossos. Tudo para determinar padrões e prever comportamentos. No
conjunto, somos muito mais parecidos uns com os outros do que gostamos de
admitir.
Na
reportagem, analistas da Target revelaram,
orgulhosos, como são capazes de prever, com pequena margem de erro, a data do
parto ou o sexo da criança. Tudo com base no consumo de loção de pele, na
quantidade de tufos de algodão comprados e na cor do tapete encomendado para
o quarto do bebê. Esses itens fazem parte de uma cesta de 25 produtos que
compõem o "índice de predição de gravidez" criado pela loja. Não é
piada, é dinheiro.
Você pode achar que ninguém está prestando muita
atenção em como usa seu cartão de crédito, no que faz com seu mouse e com seu
celular ou por onde você anda com seu carro, mas isso não muda o fato de que
há gente cuja missão profissional é colecionar, organizar e analisar dados
sobre você. É íntimo, mas não é pessoal: é universal.
Código numérico. No mundo do chamado "Big
Data", o nome importa menos que o CPF, que o endereço eletrônico ou que
o número do cartão de crédito. Importante é juntar dados sobre a maior massa
possível de consumidores, contribuintes, motoristas e internautas. Não para
espioná-los - em princípio -, mas para transformar cada um deles num código
numérico unificado. Afinal, há menos algarismos do que letras, o que agiliza a computação.
Há cada vez melhores aplicativos para reconciliar
bilhões de dados de diferentes origens com o objetivo de determinar que o
dono do CPF "tal" é também a pessoa por trás daquele e-mail, deste
cartão de crédito, de certo endereço I.P. e - por que não? - de um
determinado título de eleitor.
Na caça ao seu voto, políticos fazem "microtargeting". O site Pro Publica relatou como um
casal norte-americano recebeu ao mesmo tempo, enquanto ambos assistiam à TV
no sofá, duas mensagens diferentes do comitê de campanha de Barack Obama em
seus celulares. Com palavras e argumentos diversos, elas pediam a mesma
coisa: dinheiro. O site descobriu pelo menos seis versões diferentes da mesma
mensagem disparadas para os celulares de possíveis apoiadores do presidente
dos EUA.
A diferenciação da forma se deve a diferentes
estratégias elaboradas pelos marqueteiros de Obama para diferentes perfis de
eleitor. A meta é evocar o tema que mais interessa a cada um, no momento
certo e do jeito que, imaginam, tornará o apelo mais sedutor - do mesmo jeito
que a Target manda cupons de desconto de roupas de bebê para adolescentes
grávidas.
Enquanto isso, a Casa Branca tenta regular a fome de
dados das empresas. Propôs a lei de direitos de privacidade do consumidor. O
texto prevê transparência por parte das empresas, controle individual dos
consumidores sobre suas informações e limites ao uso dos dados. Mas, como os
e-mails de campanha demonstram, o próprio Obama pratica microtargeting.
No Brasil, a técnica foi usada em campanhas de
presidente e governador, em 2010. Apesar da carência de dados - quando
comparadas às bases de dados dos EUA, onde o marqueteiro conhece centenas de
características de cada eleitor -, estrategistas de Marina Silva e Sergio
Cabral, por exemplo, conseguiram "fatiar" o eleitorado e
desenvolver um tipo de campanha para cada segmento, de acordo com seus
interesses e prioridades.
É algo que está fazendo falta ao governo federal. Não
só para avaliar políticas públicas com eficiência, mas para mirar com
precisão os interesses de cada parlamentar da chamada base aliada. Sem esse
controle fino, o Planalto corre o risco de, como o pai daquela adolescente
grávida, ser o último a saber das estripulias de
seus afilhados no Congresso.
Autor(es): José Roberto de
Toledo
O Estado de S. Paulo - 12/03/2012