Um Sistema Único na Previdência Social
Em
termos de aposentadorias o Brasil é muito desigual. É como se tivéssemos dois
tipos de cidadãos. Os de primeira classe seriam os que trabalham no setor
público: contribuem pouco e se aposentam com muito. Os demais, que trabalham
nas empresas privadas, seriam os de segunda classe: contribuem muito e se
aposentam com pouco. De cada 100 aposentados, 86 são do segundo grupo. Mas na
divisão do "bolo" das aposentadorias a conta se inverte: apenas 62%
vão para o segundo grupo e nada menos que 38% ficam para o pequeno clube do
primeiro grupo.
Além de
injusto, o sistema custa muito para os cofres públicos. O Brasil gasta hoje
aproximadamente 11% do seu PIB com aposentadorias e pensões. É muito, sob pelo
menos dois critérios. Primeiro, é um gasto elevado, pois representa
aproximadamente 1/3 de toda a arrecadação com impostos e contribuições sociais.
Segundo, é muito para um país com só 7% de idosos na população. A França, por
exemplo, que tem 16% de idosos, gasta 14% do seu PIB com aposentadorias, apenas
3 pontos porcentuais a mais que o Brasil. Como ficaremos quando a proporção de
idosos chegar aos dois dígitos? Isso não vai demorar
muito, pois a expectativa de vida está crescendo rapidamente.
Em
suma: o Brasil gasta muito com aposentadorias e pensões e, além de gastar
muito, gasta mal, porque discrimina a favor de um segmento, em detrimento da
maioria dos cidadãos. Para promover a equidade e a responsabilidade na gestão
dos recursos públicos e para preservar as gerações futuras do fardo de um
sistema insustentável, é preciso rever o modelo de aposentadorias do País.
Mas,
apesar de necessária, a reforma é impopular. Para obter o apoio geral, ela
teria de se basear em alguns princípios justos e fáceis de explicar. O primeiro
seria o de fazer a reforma para a frente. O novo
sistema valeria só para os brasileiros que tivessem nascido a partir de 1995,
por exemplo. Ninguém que já estivesse no mercado de trabalho seria afetado. O
novo sistema começaria a existir à medida que os nascidos no ano escolhido
entrassem no mercado de trabalho. Para estes, e apenas para estes, haveria uma
idade mínima de aposentadoria.
O
segundo princípio seria a universalidade. O novo sistema seria único e as
mesmas regras valeriam para todos, funcionários públicos, celetistas e
trabalhadores autônomos. As contribuições seriam bem menores que as atuais e o
novo sistema teria diversos pilares. Um seria não
contributivo, para que todos tivessem uma cobertura mínima quando se
aposentassem. O novo sistema se criaria ainda sob os princípios da transparência
e da equidade. Todos saberiam quais as fontes do financiamento de cada tipo de
benefício. O benefício não contributivo viria da contribuição de todos e teria
caráter explicitamente redistributivo, para assistir os que não pudessem
contribuir durante sua vida ativa. Os demais pilares teriam caráter
contributivo e complementariam o pilar inicial. Com esses princípios, seria
possível estabelecer condições políticas para negociar e implementar o novo
modelo.
O apelo
da universalidade e da equidade seria muito forte e angariaria apoio de todos
os que não se beneficiam do modelo atual. A ideia de fazer a reforma para a frente eliminaria a resistência dos que estão hoje a
caminho da aposentadoria e dos que já estão aposentados. Não violaria direitos
adquiridos e não interferiria nas expectativas de direitos.
Mas o
que dizer da viabilidade financeira da reforma? Sabe-se que, hoje, grande parte
do financiamento da Previdência vem das contribuições dos ativos. Com a
implantação do novo sistema, os novos trabalhadores estariam contribuindo para
a sua própria aposentadoria e suas contribuições teriam de ser separadas para
utilizar no futuro. Haveria uma ruptura na cadeia de financiamento entre as
gerações. Para enfrentar essa dificuldade, poderia ser criado um fundo de
financiamento da transição, alimentado por diversas fontes. Uma delas poderia
ser uma contribuição transitória e decrescente sobre os rendimentos dos novos
trabalhadores. Outra poderia ser formada com aportes do Tesouro Nacional,
previstas no Orçamento. Finalmente, o País poderia aproveitar a oportunidade
criada com o pré-sal e destinar ao fundo de transição
a receita excedente proporcionada pela extração do petróleo da nossa costa.
A
reforma da Previdência produziria impactos no longo prazo, mas teria um efeito
imediato não desprezível. Emitiria o sinal de que o País estaria enfim
superando seu estrangulamento fiscal e, assim, eliminando a principal fonte dos
desequilíbrios que ainda permanecem no cenário macroeconômico.
O Estado de S.Paulo
- 02 de novembro de 2010
Hélio Zylberstajn
- professor da fea/usp e presidente da associação instituto brasileiro de
relações de emprego e trabalho