A Fundação
Konrad Adenauer acaba de publicar um excelente
livro sobre a situação do mercado informal na América Latina (Olaf Jacob, Sector informal y políticas públicas en América Latina, Rio de Janeiro, 2010). Os casos
descritos definem a situação do copo d"água: meio cheio e meio vazio.
Fazendo um
resumo, Marcela Particara e Joana
Fontoura mostram haver países onde a informalidade se mantém em níveis
elevadíssimos, como Paraguai (84%), Guatemala (77%) e Peru (70%), e outros
onde o problema atinge uma parte menor da força de trabalho, como ocorre no
Chile (35%). O Brasil fica no meio, com cerca de 50%.
Nos anos
recentes (2004-2009), a informalidade diminuiu ligeiramente na Argentina, no
Brasil, no Chile, na Colômbia, na Guatemala, no Paraguai, no Peru e no
Uruguai. Na Venezuela, aumentou de modo severo. Os autores que analisaram as
diferentes nações procuraram responder às mesmas perguntas: Quem são os trabalhadores
informais? Quais as causas da informalidade? O que deve ser feito para
reduzi-la?
A
informalidade é definida como a ausência de proteções básicas, em geral
garantidas pela Previdência Social. Em todos os países, o problema é mais
grave entre os empregados das pequenas e microempresas, os que trabalham por
conta própria e os empregados domésticos. Ela é pronunciada também na
agricultura, no comércio e nos serviços.
Entre as
principais causas da informalidade são apontados o fraco desempenho
econômico, a excessiva rigidez da legislação trabalhista, os altos custos da
contratação formal, a inadequação das leis para as pequenas e microempresas e
a frouxidão da fiscalização.
As
principais sugestões dos autores incidem na modernização das leis
trabalhistas, na simplificação da estrutura tributária e redução dos
impostos, nos incentivos à contratação formal por meio de contratos
alternativos (tempo parcial, prazo determinado, por projeto, etc.), na
melhoria da qualidade da educação e na intensificação da fiscalização.
Os casos
em que a informalidade caiu estão relacionados a essas providências, em geral
combinadas. No caso do Brasil, Marcelo Néri e Adriana Fontes destacam a
importância do crescimento da demanda por mão de obra; a criação do crédito
consignado em folha de salário; a melhoria da educação; a intensificação da
fiscalização; os incentivos às pequenas e microempresas (Programa Simples) e
as inovações no campo da legislação, em especial o Programa do
Microempreendedor individual (MEI); o contrato por prazo determinado; o banco
de horas; a suspensão temporária do contrato de trabalho (lay
off); a participação nos lucros e resultados; e o uso de cooperativas de
trabalho.
Apesar
disso tudo, a informalidade ainda atinge a metade dos brasileiros que trabalham.
É uma taxa muito alta. São cerca de 50 milhões de pessoas que não têm nenhum
tipo de proteção trabalhista ou previdenciária. Quando ficam doentes, não têm
uma licença remunerada para tratar da saúde; ao envelhecer, não contam com
aposentadoria; após a morte, nada deixam para seus parceiros; quando
gestantes, não dispõem de licença para tratar da criança; e assim por diante.
O mundo da
informalidade é um mundo selvagem e que estabelece um
verdadeiro apartheid social, apesar do fato de alguns benefícios do
mercado formal se transmitirem para o informal, como, por exemplo, os
aumentos do salário mínimo. Toda vez que este sobe, sobem também (ainda que
em menor proporção) os salários iniciais (pisos) dos que trabalham na
informalidade.
O MEI é
reconhecido como um importante passo para levar proteções aos que trabalham
por conta própria e sem proteção. Uma boa medida. Já há 1 milhão de
inscritos. Falta, agora, criar um Simples Trabalhista para proteger os
empregados informais das pequenas e microempresas, ideia criativa do deputado
Julio Delgado (PSB/MG), que é autor de um projeto
de lei a respeito (PL n.º 951/2011).
Autor(es): José Pastore
O Estado de S. Paulo - 26/04/2011