Quais são os impactos do dólar na bolsa?
A valorização do real ante o
dólar continua de vento em popa, a despeito da série de medidas que o governo
já tomou para brecar tal processo. Ontem foi mais um dia desses. O dólar caiu
abaixo de R$ 1,60, uma marca psicológica considerada importante pelo mercado.
Isso um dia após o ministro da Fazenda, Guido Mantega, anunciar o aumento do
prazo mínimo para as captações externas das empresas sem pagar o IOF de 6%
(de 360 para 720 dias).
Mas
o que a queda do dólar e as medidas do governo para contê-la tem a ver com a bolsa? A depreciação do dólar prejudica as
exportadoras e beneficia as companhias voltadas ao mercado doméstico. Ontem
foi um dia típico desse movimento: as ações de exportadoras, como Vale,
caíram, enquanto os papéis ligados à economia local, como os de varejo,
consumo e de construtoras, subiram.
"Por
enquanto, o governo está perdendo a batalha do câmbio para o mercado e isso
tem impacto sobre as empresas de formas diferentes", diz o
superintendente de renda variável da SulAmérica
Investimentos, Ricardo Maeji.
Ibovespa perde com concentração de exportadoras
Nessa
queda de braço entre o real e o dólar, com a moeda brasileira levando a
melhor, a bolsa tem mais a perder do que a ganhar, lembra Maeji.
Isso porque as companhias exportadoras, que são as que mais perdem com a
queda do dólar, possuem um peso bem maior dentro do Índice Bovespa do que as
empresas ligadas à economia doméstica, explica o superintendente da SulAmérica.
"Esse
cenário menos favorável ao Ibovespa deve continuar enquanto o governo não
conseguir reverter a atual tendência do câmbio, que é claramente de
valorização do real", afirma Maeji.
Não
bastassem as incertezas com relação ao câmbio, as duas
empresas mais importantes do Ibovespa (Petrobras e Vale) também passam
por uma fase que não é das melhores. No caso da Petrobras, existe uma
discussão pública entre o comando da companhia e o governo sobre a
possibilidade de aumentar ou não o preço dos combustíveis,
dada a valorização do petróleo no mercado internacional. Já a Vale
continua sob os efeitos das dúvidas sobre o nível de ingerência do governo na
nova gestão da companhia.
Os
impactos da queda do dólar sobre a bolsa não se limitam apenas à perda das
exportadoras e ao ganho das empresas domésticas. A impressão de que o governo
está perdido e perdendo a batalha para conter a desvalorização da moeda
americana vem causando bastante desconforto no mercado. "O governo
parece não saber bem o que fazer para conter o câmbio, isso deixa os
investidores em dúvida sobre a credibilidade dessa equipe econômica, além de
todos os dias ficarem à espera de que novas medidas
virão", diz o diretor de uma corretora. Ontem, o Ibovespa fechou em alta
de apenas 0,20%, aos 69.176 pontos.
Daniele
Camba é repórter de Investimentos
Valor Econômico -
08/04/2011