“A
preocupação é de que o consumidor esteja começando a se descontrolar nos
gastos e depois não tenha condições de pagar as contas”
Se
for seguir à risca cada orientação dada pelos governantes em relação ao
consumo, o brasileiro precisará ter um orçamento muito flexível para não
enlouquecer. No auge da crise internacional, que estourou em 2008 com a
quebra do Lehman Brothers, o então presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, fez
um apelo ao povo para que fosse às compras. O objetivo era o de estimular a
economia, evitando que o Brasil passasse pela recessão que tomou conta de
países como os Estados Unidos.
A
mesma receita Lula aplicou aos gastos públicos. Fugindo a todas as ideias
pregadas pela visão ortodoxa, alavancou a economia engordando o Estado.
Naquele momento, deu certo. O país continuou crescendo. Mas o presidente
terminou o governo com um discurso diferente: preocupado com a inflação e a
inadimplência, aconselhou a população a pôr o pé no freio.
Na
semana passada, foi a vez de um integrante da nova
administração — o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini
— mandar um recado aos consumidores. “Se quiser adiar o consumo, moderar o
consumo presente para consumir mais à frente, este é o momento de fazê-lo, pois
o rendimento das aplicações financeiras está em elevação, em função da
política monetária”, estimulou.
Mas
será que está mesmo valendo a pena investir, como aconselhou Tombini? Em matéria publicada na página ao lado, o
Correio mostra que todas as modalidades de aplicação mais acessíveis à
maioria da população estão perdendo para a inflação. Não é para menos. Em
abril, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) subiu 0,77%,
segundo divulgou na última semana o Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE). No acumulado de 12 meses, o indicador atingiu 6,51%, já
ultrapassando o teto da meta estabelecida pelo governo, que é de 6,5% em
2011.
Alívio
insuficiente
Tombini afirmou que a meta será atingida, mas
apenas no fim do ano. Embora os analistas concordem que tudo indica que o
pior da inflação já passou, há quem acredite que não será possível para o
país compensar até dezembro as perdas inflacionárias registradas no primeiro
quadrimestre. “Acreditamos em um cenário forte de desaceleração para a alta
dos preços a partir de maio, que se sustenta até setembro. Assim mesmo a
nossa projeção é de que o país vai estourar o teto da meta, em 6,6%, por
conta da disparada que aconteceu nos primeiros quatro meses do ano”, diz
Thiago Curado, da consultoria Tendências.
O
economista aponta que os alimentos, que até abril foram os maiores vilões no
orçamento doméstico, vão dar um alívio ao bolso do consumidor a partir de
agora. O mesmo acontecerá a outros itens como transporte público, jogos
lotéricos, energia elétrica, cartórios, água e esgoto. Com a nova safra, o
álcool também dará um refresco ajudando o preço da gasolina a se normalizar.
Por outro lado, Curado projeta que o setor de serviços continuará cobrando
cada vez mais caro, fortalecido pela demanda aquecida.
A Tendências esperava que, em
sua última reunião, o Comitê de Política Monetária (Copom) elevasse os juros
em meio ponto percentual, mas o BC optou por um aumento mais brando, de 0,25
ponto. “A melhora que acontecerá na inflação é devida a fatores sazonais e
não por causa da política monetária. Há um tempo de 6 a 9 meses até que a
alta de juros faça efeito. Ela só será sentida a partir do segundo semestre,
e o aperto vai ser insuficiente”, avalia Curado. Por isso, a consultoria
acredita que, nas próximas três reuniões, o Copom terá de aplicar ainda altas
consecutivas de 0,25 ponto.
Preocupação
presidencial
Em encontro com o presidente da Alemanha, Christian Wulff,
na última quinta-feira, a presidente Dilma Rousseff criticou os países
desenvolvidos que adotam uma “política monetária expansionista” e pressionam
a inflação no mundo, fazendo referência indireta à injeção de US$ 600 bilhões
na economia norte-americana promovida pelo Federal Reserve. A presidente, no
entanto, também admitiu que há fatores internos que
causam a alta dos preços. “Temos o compromisso de resistir às pressões
inflacionárias, tanto as que vêm de fora como as do nosso próprio país”,
afirmou.
Dilma
sabe que a variável que pesa — e muito — na equação necessária a uma solução
mais eficaz para a inflação é o consumo. Enquanto for grande o apetite do
brasileiro pelas compras, a inflação continuará sendo um problema. É certo
que esse mal é fruto de algo positivo e desejável, o crescimento econômico
brasileiro e a ascensão dos pobres à classe média. É natural que as pessoas,
ao conquistarem empregos e renda melhores, decidam adquirir tudo aquilo a que
não tinham acesso antes — desde eletroeletrônicos até educação.
Alguns
indicadores, no entanto, fizeram acender um sinal amarelo para o governo — o
principal deles, referente à inadimplência. Dados divulgados pelo BC no fim
de abril mostram que os atrasos de até 90 dias no pagamento de dívidas (que é
considerado um indicador antecedente da inadimplência) de pessoa física
tiveram um crescimento de 1,2 ponto percentual em
2011, atingindo 6,5% em março. A taxa de calote (atrasos acima de 90 dias) da
pessoa física subiu bem menos (0,2 ponto porcentual), para 5,9%, mas a
preocupação é de que o consumidor esteja começando a se descontrolar nos gastos
e depois não tenha condições de pagar as contas.
Caso
isso aconteça, o brasileiro cairá em um ciclo vicioso do qual fica muito
difícil depois escapar: o das dívidas. Pior do que perder para a inflação nos
rendimentos das aplicações é entrar numa bola de neve de calotes. Por isso,
sim, é bom comprar, mas é sempre melhor poupar.
Brasil S.A
Correio Braziliense - 09/05/2011