Só neste ano, o valor das ações de investidores da
bolsa brasileira encolheu R$ 257,9 bilhões. Ontem, a Bovespa voltou a cair.
Fechou em baixa de 2,26%, o segundo maior tombo de 2011, e já acumula perda
de 19,17% desde janeiro. Analistas atribuem a queda às incertezas do cenário
externo. Temor é de uma crise pior que a de 2008 e 2009. Bolsas europeias
desabaram pela quarta vez consecutiva. Nos Estados Unidos, centro do abalo
financeiro, a dívida pública cresceu US$ 238 bilhões em um só dia e já supera
o PIB, total das riquezas produzidas no país. No Brasil, a entrada de dólares
voltou a bater recorde. Aqui, além de sofrer com a crise nos EUA e na Europa,
o consumidor vai bancar, via impostos, o plano de ajuda do governo para
tentar reaquecer a indústria
Incertezas
em relação à economia dos EUA e da Europa deixam um rastro de prejuízos nos
mercados acionários de todo o mundo. Temor é de uma crise ainda pior que a de
2008 e 2009. BM&FBovespa
caiu 19,17% no ano
Os
brasileiros que costumam acompanhar constantemente as suas aplicações em
bolsas de valores estão assustadíssimos. Não sem motivos. O patrimônio
investido em ações está encolhendo dia após dia, solapado pela crise nos
Estados Unidos e na Europa. Dados da Bolsa de Valores de São Paulo (BM&Bovespa) mostram que,
desde o início do ano, as perdas já chegam a R$ 257,9 bilhões.
Esses
prejuízos podem ser medidos pelo valor de mercado de todas as empresas
listadas no pregão paulista e vislumbrados por meio das cotas dos fundos de
ações, com saldos cada vez menores.
"A
situação está feia. Ontem, o pânico tomou conta das negociações, devido à
preocupação com os EUA, que podem mergulhar na recessão, e a Europa, cada vez
mais encrencada", disse Demétrius Borel Lucindo, economista da Prosper
Corretora. Para ele, a sensação é de que uma bomba-relógio está ligada e pode
ser detonada a qualquer momento, caso países como a
Espanha e a Itália entrem em colapso. "São dúvidas como essa que estão
movendo a irracionalidade que tomou conta dos investidores. Tomara que essa onda
passe logo. A sensação é de que já chegamos ao fundo do poço",
acrescentou.
Dominado
pelo nervosismo, o Ibovespa, índice que mede a lucratividade das ações mais
negociadas na bolsa paulista, encerrou com baixa de 2,26% (a segunda maior do
ano), nos 56.017 pontos, o menor nível desde setembro de 2009. No acumulado
do mês, a queda já chega a 4,77% e, no ano, a 19,17%. "Mesmo com todas
as incertezas lá fora, não há nada que justifique tamanho derretimento do
mercado acionário brasileiro. Aqui, o consumo continua forte e as empresas
listadas na BM&FBovespa
lucrando como nunca", destacou o economista da Prosper.
Ele não descartou, porém, a possibilidade de a bolsa ceder ainda mais, caso o
Ibovespa rompa o suporte dos 55 mil pontos. Para isso, basta cair apenas
3,5%.
Índices
medíocres
Na avaliação dos especialistas, o futuro do mercado acionário está atrelado
ao que os governos das maiores economias do planeta farão para evitar o pior.
Os investidores sabem que, em uma nova crise, dificilmente o Poder Público terá
condições de dar novos estímulos à atividade em caso de recessão. As maiores
nações estão com elevado nível de endividamento e com o caixa restrito —
tanto que o presidente dos EUA, Barack Obama, quase foi obrigado a se
ajoelhar perante o Congresso para aprovar o aumento do teto da dívida daquele
país. O mercado, contudo, considerou frágil a vitória de Obama para tirar a
economia norte-americana da beira do abismo. Os cortes que serão feitos no
Orçamento podem contrair ainda mais o consumo. O índice do setor de serviços,
por exemplo, voltou a desacelerar em julho, ficando no pior nível previsto
pelos especialistas, de 52,7%.
Em
Nova York, no fim do dia, surgiu um sinal de alívio em meio a nuvens pesadas
de pessimismo. O índice Dow Jones, que ficou o dia todo no vermelho e havia
caído 7% nas últimos duas semanas, encerrou a
quarta-feira com ligeira valorização de 0,24%. Na Nasdaq, houve alta de
0,89%, devido à recuperação dos papéis de empresas de tecnologia. "Os
investidores estão se dando conta de que o mercado é muito vulnerável aos
problemas europeus, à dívida dos Estados Unidos e até em relação às medidas
de austeridade", disse à Reuters Mace Blicksilver,
da Marblehead Asset
Management.
Na
Europa, a Bolsa de Londres caiu 2,34%, a de Paris cedeu 1,93% e a de
Frankfurt, 2,30%. "Os dados econômicos da principais
economias do mundo divulgados nos últimos 10 dias foram medíocres e os de
ontem não foram exceção", afirmou Michael James, da Wedbush
Morgan Securities.
Bloqueio
total
Com o mercado financeiro tomado pela ansiedade e o crescimento econômico
minguando, autoridades em todo o mundo podem ser forçadas a, mais uma vez,
trabalhar contra uma crise, como fizeram em 2008 e 2009. Mas, desta vez, as
opções são menores. Os bancos centrais têm menos espaço para afrouxar a
política monetária do que há três anos. Os governos, com menos recursos, não
podem mais bancar gastos como antes e o desarranjo político em alguns países
pode tornar mais complicada a cooperação internacional. "O que dá para
fazer? Em política monetária, claramente ninguém concorda com ninguém. Em
política fiscal, estão todos bloqueados", disse o economista do Deutsche
Bank Gilles Moec.
Autor(es): » Vicente Nunes
e Vera Batista
Correio
Braziliense - 04/08/2011