57,7% das famílias estão endividadas
Estudo da
CNC mostra que estímulos fiscais levaram os trabalhadores a se comprometer
com pagamentos pouco usuais no primeiro semestre.
Além da
retração dos preços de vestuário e de alimentos, anunciada na véspera da
reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) que vai decidir o tamanho do
aumento da taxa básica de juros (Selic), o Banco
Central (BC) teve outra boa notícia ontem. O consumo está se acomodando por
causa do comprometimento maior da renda dos trabalhadores com dívidas — a
redução do espaço para compras ajuda o BC a controlar a inflação. De acordo
com a Confederação Nacional do Comércio (CNC), o total de famílias
brasileiras endividadas em julho atingiu 57,7%, num avanço de 3,7 pontos
percentuais sobre o nível de junho (54%).
Os estímulos fiscais oferecidos a determinados setores de bens de consumo
duráveis, como automóveis e eletrodomésticos, levaram o consumidor a
antecipar as suas compras e a se comprometer com dívidas pouco comuns no
primeiro semestre do ano, época em que, normalmente, boa parte do orçamento
familiar é reservada ao pagamento de impostos e de despesas escolares. “Além
da antecipação de gastos e do consumo muito forte no início do ano, as
famílias foram surpreendidas pela inflação de produtos alimentícios no primeiro
semestre, fato que apertou ainda mais o bolso”, explicou Bruno Fernandes,
economista da CNC.
As despesas com alimentação, que têm maior peso no orçamento das famílias de
menor renda, prejudicaram a disponibilidade de recursos dessa faixa de renda,
numa proporção maior do que a do grupo com ganhos superiores a 10 salários
mínimos, segundo avaliação de Fernandes. “Em função disso, as pessoas de
rendimentos mais baixos foram as que puxaram o aumento da inadimplência”,
afirmou.
Além do avanço no comprometimento de renda, a pesquisa aponta que 8,9% do
total de famílias endividadas não terão condições de honrar as dívidas. A
trajetória futura dessa inadimplência, no entanto, deve se reverter. “Assim
como o aumento nos alimentos foi pontual, a inadimplência também. Já o
endividamento deve continuar forte”, avaliou.
Com a redução do orçamento disponível para os gastos, o consumo deve ficar
menos aquecido, cenário que não poderia ser melhor para o BC, que já precisou
elevar a Selic de 8,75% para 10,25% desde abril
para conter os preços. A menor demanda interna tende a diminuir as
importações, o que melhora as contas externas. Assim, a cotação do dólar(1) fica menos pressionada. Isso tudo provoca menos
inflação.
Outras pesquisas confirmam o forte comprometimento da renda do brasileiro com
dívidas. Levantamento da Fecomércio em São Paulo mostra que o endividamento médio das
famílias paulistanas aumentou para 52% em julho, maior nível do ano. No mês
passado, o indicador era de 42%.
Intenções
Enquanto os débitos comprometem o orçamento doméstico de quem ganha menos, a
intenção de consumir cresce entre as classes de renda superior. De acordo com
Fábio Bentes, também economista da CNC, a perspectiva de continuar aumentando
o consumo subiu 0,3% entre as famílias brasileiras, desempenho impulsionado
pelos grupos com rendimento maior que 10 salários mínimos.
O Centro-Oeste é a região que mais puxa esse índice, dado o crescimento do
emprego num ritmo maior do que a média nacional. Mais uma vez, as famílias de
menor renda tomam a direção contrária, com menor intenção de aumentar gastos.
Outra região que também impulsiona o índice de intenção de consumo, explicou
Bentes, é o Sul do país. Naqueles estados, no entanto, o fator que mais torna
os compradores otimistas é o crescimento da renda. Para o futuro, o
pesquisador acredita que a propensão a comprar se mantenha tanto nas classes
mais altas quanto nas baixas.
Cheque sem fundo diminui
A
inadimplência nos pagamentos com cheque diminuiu no primeiro semestre na comparação
com igual período do ano passado. De acordo com levantamento feito pela
empresa de consultoria Serasa Experian,
foram devolvidos 10,5 milhões de documentos por falta de fundos. O
número correspondeu a 1,87% dos 560 milhões de emissões no período. De
janeiro a junho de 2009, o retorno alcançou 2,3% em 618 milhões.
O assessor econômico da Serasa Experian Carlos
Henrique de Almeida disse que os consumidores estão migrando para os cartões
de crédito e de débito pela facilidade que encontram para rolar dívidas, com
a opção de pagar uma quantia mínima. Na avaliação do analista, essa
possibilidade implica risco de maior endividamento por causa dos altos juros
cobrados pelas operadoras. Segundo Almeida, os cheques ainda são bastante
utilizados fora dos grandes centros urbanos.
Empréstimo mais salgado
As médias dos juros dos empréstimos pessoais e do cheque especial subiram em
julho pelo terceiro mês consecutivo. Segundo pesquisa divulgada ontem pelo Procon de São Paulo, a taxa
média mensal dos empréstimos aumentou de 5,28% para 5,42%. Os juros do cheque
passaram de 8,9% para 9,06%. Dos nove bancos incluídos no estudo, quatro
elevaram os encargos cobrados nessa modalidade de crédito (Banco do Brasil,
Bradesco, Itaú e Unibanco). Três encareceram as operações pessoais (BB,
Bradesco e HSBC).
De acordo com o órgão de defesa do consumidor, a média das taxas subiu em
julho mais do que em meses anteriores. Isso ocorreu, em primeiro lugar,
devido aos aumentos feitos pelas instituições financeiras, mas também pela
exclusão da Nossa Caixa da pesquisa. Incorporado pelo BB em 25 de junho, o
banco oferecia aos clientes os juros mais baixos entre os consultados pelo Procon.
Autor(es): Gabriel Caprioli
Correio Braziliense - 21/07/2010