Serviços dão nova vida a consórcios
Consumidor usa plano para fazer festa de
casamento e cirurgia plástica
Depois de seis anos de namoro, Vanessa Aparecida Barroso,
auxiliar jurídica que mora na zona norte de São Paulo, planeja casar em 2010,
mas não tem dinheiro para a festa. Procurou um banco para pedir crédito e
achou o juro muito alto. Ficou sabendo, então, de um novo tipo de consórcio
de serviços, que surgiu em fevereiro deste ano, após a aprovação de mudanças
na legislação do setor.
Vanessa já havia contratado um consórcio de imóveis. Procurou sua
administradora, a Embracon, e resolveu contratar um
de serviços. Em setembro, aderiu a um grupo de 36 meses. Paga R$ 260 por mês
para uma carta de crédito de R$ 7 mil. "Se fosse em
um banco, pagaria mais de R$ 400 por mês e a burocracia seria muito maior,
além dos juros muito altos", diz ela. O dinheiro será usado para pagar o
casamento, planejado para dezembro de 2010. "Mas como segunda opção
pensei em uma cirurgia plástica", diz Vanessa.
O consórcio de serviços chega em um momento em que o
setor bate recorde de vendas, principalmente em carros, motos e imóveis. No
começo do ano, a falta de crédito bancário estimulou as vendas, que ganharam
reforço extra com a nova lei para as administradoras, que trouxe maior
visibilidade ao setor. Ao todo, 1,29 milhão de novas
cotas foram vendidas de janeiro a agosto, crescimento de 14%. O total de
participantes chegou a 3,77 milhões, segundo dados mais recentes da
Associação Brasileira de Administradoras de Consórcios (Abac)
e do Banco Central.
Pesquisa da Abac mostra que 19 empresas já oferecem
a modalidade de serviços. O número ainda é pequeno. Existem mais de 170
administradoras no país. "Está todo mundo avaliando esse segmento, que é
novo e exige mais critério na análise do cliente", diz Idevaldo Rubens Mamprim,
presidente do conselho nacional da Abac.
A Rodobens fechou mil cotas do novo produto.
"Ainda é embrionário, mas o potencial é grande", diz Sebastião Cirelli, diretor executivo da empresa. A carteira da Rodobens supera 117 mil clientes. Mas Cirelli
avalia que o consórcio de serviços teria potencial para atingir ate 50% desse
volume. Um dos focos é a baixa renda. "Com a economia estável, o sistema
é uma possibilidade para que as pessoas tenham condições de poupar e se
programar", diz Cirelli.
A Embracon foi uma das primeiras a oferecer esse
consórcio. Formou até agora quatro grupos de 144 pessoas, conta Mizael Catharino, gerente
comercial da administradora. "Acreditamos que gradativamente esse
produto será um canal de realização de sonhos. É um nicho promissor pela
diversidade de utilização dos créditos."
A carioca Priscila Lima dos Reis quer usar os recursos quando for contemplada
para decorar sua futura clínica de estética. O dinheiro, cerca de R$ 22 mil,
será usado para pagar o arquiteto responsável pelo projeto. Concluindo o
curso de direito e ainda trabalhando na empresa da família, a ideia dela é montar um negócio próprio.
"Pretendo fazer uma espécie de ambiente de beleza", diz. Priscila
paga R$ 700 por mês a Rodobens, em um plano de 24
meses. "Essa é uma maneira de guardar dinheiro. E é menos burocrática,
porque se quiser, posso usar o dinheiro para outras coisas como uma viagem ou
o casamento", diz.
Cirurgia plástica, tratamento odontológico, pagamento de cursos, reformas,
projeto de arquitetura e tratamento estético são até
agora os preferidos das pessoas contempladas, segundo pesquisa da Abac. De um grupo de 222 contemplados analisados, 25
optaram por saúde e estética (dos quais 18 utilizaram o dinheiro para
cirurgia plástica). As cartas de crédito variam de R$ 2 mil a R$ 38 mil, com
prazo médio de 39 meses.
"Vamos olhar de perto esse mercado, como está a
demanda e podemos lançar algo em 2010", diz Fábio Braga, gerente do
Porto Seguro Consórcio. De janeiro a outubro, a Porto, focada em consórcio de
imóveis, vendeu R$ 1,2 bilhão em créditos, expansão de 5%.
Além de criar o consórcio de serviços, a nova legislação ajudou a estimular
as vendas de outras modalidades. Até então, o consórcio, produto típico do
Brasil, não tinha regulamentação própria. "A lei deu maior visibilidade
e trouxe maior credibilidade para o sistema", diz o presidente da Abac.
Outra mudança da nova lei é que o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço
(FGTS) também pode ser usado para quitar ou abater do saldo devedor, a
exemplo do que já era permitido para o financiamento imobiliário. "As
vendas de consórcio de imóveis cresceram 15% de janeiro a outubro",
afirma Cirelli, da Rodobens.
Na Porto, em setembro elas bateram recorde na empresa, com alta de 16%.
Enquanto algumas administradoras procuram a baixa renda para vender
consórcios, o HSBC foi na direção oposta. O banco
acabou de lançar um consórcio para alta renda, afirma Antonio Barbosa,
diretor da área. A modalidade atende carros importados de até R$ 240 mil,
desde um Mini Cooper até uma BMW 325. Segundo Barbosa, é mais uma
oportunidade de o banco atrair novos clientes.
Altamiro Silva Júnior e Fernando Travaglini,
de São Paulo
Valor
Econômico - 07/12/2009