Brasileiro deve, em média, R$ 3.724
Dívida
dos consumidores cresceu muito, mas prazos de pagamento aumentaram,
o que aliviou o comprometimento da renda mensal
SÃO
PAULO - Nos últimos três anos, clientes aproveitaram a oferta de crédito nos
bancos e aumentaram sua dívida com as instituições financeiras em R$ 320
bilhões. Nesse mesmo período, a massa salarial mensal dos trabalhadores cresceu
R$ 36,9 bilhões. Os números revelam que, grosso modo, brasileiros tomaram R$
865 em novos empréstimos para cada R$ 100 de aumento da renda. E cada um dos
mais de 192 milhões de brasileiros deve hoje R$ 3.724 para as financeiras e
bancos.
Apesar
desse impressionante aumento do endividamento, o orçamento familiar não foi tão
castigado. Dados do Banco Central mostram que a fatia do salário mensal
comprometida com o pagamento de parcelas e carnês aumentou em ritmo considerado
gradual pela instituição.
Em
setembro de 2008, quando a crise financeira passada teve início e o governo
passou a incentivar o crédito, brasileiros usavam 18,3% da renda mensal para
pagar dívidas. Em agosto de 2011, o comprometimento do salário alcançou 21,9%.
A
explicação para uma diferença tão grande de ritmo no aumento da dívida e do
comprometimento de renda está nos prazos e na taxa cobrada nos financiamentos.
Atualmente, empréstimos às pessoas físicas têm prazo médio de 584 dias. Três
anos atrás, eram 118 dias a menos para quitar as operações.
Hoje em
dia, mesmo que a dívida seja maior, clientes têm mais tempo para pagar e,
portanto, os pagamentos são diluídos em mais parcelas.
Outro
motivo está no custo da operação. Apesar de o Brasil continuar com um dos juros
reais mais altos do mundo, as taxas têm caído gradativamente. Em setembro de
2008, o juro médio pago pelas famílias estava em 53% ao ano. Agora, é de 45,7%.
"Os
dados mostram que o comprometimento da renda tem evolução gradual. Isso mostra
que o aumento do crédito aconteceu, pelo menos até agora, de maneira prudente
porque não reduziu drasticamente a capacidade financeira dos clientes",
diz o professor de finanças de Ibmec, Ricardo José de Almeida. Para ele, os
dados ainda mostram situação adequada e confortável. "Mas é preciso
observar a evolução da inadimplência na crise. Se os atrasos crescerem muito, a
luz de alerta acende e será preciso revisar a estratégia."
O
cruzamento de dados do BC mostra que brasileiros pagaram R$ 32,45 bilhões em
parcelas, carnês e outros pagamentos de dívida no último mês de agosto. Desse
valor, pouco menos de dois terços - 63,9% ou R$ 20,7 bilhões - foram destinados
ao abatimento da dívida propriamente dita, a chamada amortização da operação. O
restante - de 36,1% ou R$ 11,7 bilhões - foi destinado para pagar os juros
cobrados no financiamento.
Novas
medidas. O governo deve continuar nas próximas semanas e a equipe
econômica estuda mais incentivos à economia - muitas delas no sentido de
aumentar a oferta de crédito. O Estado mostrou nos últimos dias que medidas têm
sido debatidas em Brasília: como a retirada de impostos dos empréstimos e a
liberação de parte do dinheiro dos bancos que é retido no BC, o chamado
depósito compulsório. Além disso, o juro, deve
continuar em queda.
Fernando Nakagawa,
O Estado de S. Paulo – 20/11/2011